casamento sem amor parte 2

Evangeline

O meu casamento não é como nos meus sonhos.

Eu comprei um vestido de noiva em um brechó.

Ele é lindo, e o véu de noiva eu mesma fiz.

A maquiagem é delicada e elegante.

Ao invés de uma igreja lotada de gente, tem um juiz de paz, o meu futuro sogro e, claro, o meu amor me esperando na sala de visitas.

— Eva, você vai conseguir. Coragem.

Digo para o meu reflexo no espelho.

Me retiro do quarto e me dirijo para a sala.

Dou um sorriso para Danilo, e o que recebo em troca é um olhar gélido.

Respiro fundo.

— Você demorou. O meu tempo é valioso.

— Eu estava me arrumando para ficar bem bonita para você, meu amor.

Ele ri amargamente.

— Você aí, anda logo com isso.

Fala apontando para o homem que vai celebrar o nosso casamento.

— Danilo, não seja mal-educado. Respeite as pessoas.

Ele revira os olhos.

Eu e Danilo assinamos os documentos e, segundos depois, o juiz nos dá a certidão de casamento.

— Parabéns. Vocês agora são marido e mulher.

Choro de emoção e tento beijar Danilo, mas ele não deixa e eu acabo beijando sua bochecha.

— Meu amor, estamos casados...

Ele revira os olhos e some do meu campo de visão.

A indiferença dele dói mais que mil t***s.

— Eva, me desculpa. A culpa é minha de ele ser assim. Eu fui um péssimo pai.

Jorge diz, caminhando em minha direção.

— Está tudo bem, Jorge. A gente sabia que ia ser assim. Eu vou fazer de tudo para conquistar o seu filho. O ano está apenas começando.

Digo, tentando acreditar nas minhas palavras.

O juiz de paz vai embora e, após alguns minutos, meu sogro também vai.

Subo as escadas.

Procuro o quarto do Danilo.

Entro e tenho a maravilhosa visão do peitoral sarado do meu marido.

Lambo os lábios e mordo o lábio inferior.

Que homem gostoso!

Minha vontade é de passar a língua até chegar no...

Mas o que é isso, Eva? Você é uma moça de família.

Mas moças de família também pecam.

Sorrio por causa desses meus pensamentos doidos.

— O seu quarto não é esse. Escolha um quarto bem longe do meu.

— Ok. Vou escolher um ao lado desse. O que quer fazer na nossa lua de mel?

Danilo fecha a cara.

— Eu vou sair, e você pode gastar o meu dinheiro.

Danilo pega um cartão sem limites e o coloca em minhas mãos.

— Obrigada, mas eu me casei com você por amor e não pelo dinheiro.

Digo e jogo o cartão no chão.

Ele ri.

— Você é muito falsa. Saia do meu quarto.

Me aproximo e beijo sua bochecha.

— Vamos tomar um banho de piscina juntinhos?

Danilo me empurra com delicadeza.

— Eu já tenho planos para hoje. Não me espere. Só volto amanhã.

Fecho a cara.

— Vai passar a noite com aquela ordinária?

— Não é da sua conta. Saia de perto de mim.

Seguro as lágrimas e planto um sorriso nos lábios.

— Eu vou te esperar, meu amor.

Digo e saio do quarto, voltando para o meu.

Tiro o vestido e fico nua.

Olho meu reflexo no espelho.

Eu sempre me achei bonita, mas agora, com a rejeição do Danilo, sinto que tem algum defeito em mim.

Visto um vestido rosa delicado de renda, passo perfume, um batom rosa-claro nos lábios e um pouco de base, pó e rímel.

Já na cozinha, me deparo com um homem alto que usa óculos de grau um pouco grandes. Seus cabelos são todos brancos. Está vestido igual aos mordomos dos filmes e séries. Ele me encara com gentileza.

— Olá, mocinha. Você deve ser Evangeline, a esposa do senhor Cavalcanti.

Gostei dele!

— E você é?

Ele limpa as mãos sujas de farinha em um pano e estende a mão para mim.

— Sou Vicente Pereira, o mordomo da casa. É um prazer te conhecer. Gosta de bolo de amendoim?

— Eu amo bolo de amendoim. Quer ajuda?

— Nem pensar. A senhora é a dona da casa.

— Eu gosto de cozinhar. Deixa eu ajudar.

Ele sorri e concorda.

O ajudo, e ele me conta que trabalha para o meu marido há vários anos.

— Você tem filhos?

Vicente sorri com tristeza.

— Tenho dois filhos. Eles moram muito longe. Eu só consigo visitá-los nos fins de semana ou nas minhas folgas. Eles são maravilhosos.

— Posso conhecê-los algum dia?

— Claro. Emília e Antônio vão amar te conhecer.

Emília...

Eu já ouvi a Sílvia falando esse nome com raiva.

Deve ser alguma amiga dela...

Volto a minha atenção para Vicente.

— Vicente, eu posso contar com você para tudo?

— Claro, dona Evangeline. Vou ser seu amigo.

Sorrio.

— Pode me contar o que o meu marido gosta de comer?

Ele coloca o bolo no forno e olha para mim.

— O senhor Cavalcanti gosta de bolo de fubá. Todo dia de manhã, ele prefere tomar café sem uma gota de açúcar ou adoçante e ama estrogonofe de camarão com macarrão.

Anoto tudo o que meu novo amigo diz na minha mente.

— Obrigada, Vicente.

— De nada, dona Evangeline.

— Por favor, me chame apenas de Eva.

— Claro, como quiser, Eva.

Conversamos sobre receitas, filmes e novelas.

Vicente é um homem muito gentil e sensível.

O bolo logo fica pronto.

Assopro e levo um pedaço à boca.

— Hum... Que maravilha. É o bolo de amendoim mais gostoso que já comi na minha vida.

Como mais um pedaço e depois outro e, quando vejo, já estou no terceiro pedaço.

— Vicente, você tem mãos de fada. Com quem aprendeu a cozinhar tão bem?

— Com a minha mãezinha. Eva, pode me dar licença? Vou ao banheiro.

— Claro, amigo. Fique à vontade.

Ele sorri e se afasta.

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