Mundo de ficçãoIniciar sessãoEvangeline
O meu casamento não é como nos meus sonhos. Eu comprei um vestido de noiva em um brechó. Ele é lindo, e o véu de noiva eu mesma fiz. A maquiagem é delicada e elegante. Ao invés de uma igreja lotada de gente, tem um juiz de paz, o meu futuro sogro e, claro, o meu amor me esperando na sala de visitas. — Eva, você vai conseguir. Coragem. Digo para o meu reflexo no espelho. Me retiro do quarto e me dirijo para a sala. Dou um sorriso para Danilo, e o que recebo em troca é um olhar gélido. Respiro fundo. — Você demorou. O meu tempo é valioso. — Eu estava me arrumando para ficar bem bonita para você, meu amor. Ele ri amargamente. — Você aí, anda logo com isso. Fala apontando para o homem que vai celebrar o nosso casamento. — Danilo, não seja mal-educado. Respeite as pessoas. Ele revira os olhos. Eu e Danilo assinamos os documentos e, segundos depois, o juiz nos dá a certidão de casamento. — Parabéns. Vocês agora são marido e mulher. Choro de emoção e tento beijar Danilo, mas ele não deixa e eu acabo beijando sua bochecha. — Meu amor, estamos casados... Ele revira os olhos e some do meu campo de visão. A indiferença dele dói mais que mil t***s. — Eva, me desculpa. A culpa é minha de ele ser assim. Eu fui um péssimo pai. Jorge diz, caminhando em minha direção. — Está tudo bem, Jorge. A gente sabia que ia ser assim. Eu vou fazer de tudo para conquistar o seu filho. O ano está apenas começando. Digo, tentando acreditar nas minhas palavras. O juiz de paz vai embora e, após alguns minutos, meu sogro também vai. Subo as escadas. Procuro o quarto do Danilo. Entro e tenho a maravilhosa visão do peitoral sarado do meu marido. Lambo os lábios e mordo o lábio inferior. Que homem gostoso! Minha vontade é de passar a língua até chegar no... Mas o que é isso, Eva? Você é uma moça de família. Mas moças de família também pecam. Sorrio por causa desses meus pensamentos doidos. — O seu quarto não é esse. Escolha um quarto bem longe do meu. — Ok. Vou escolher um ao lado desse. O que quer fazer na nossa lua de mel? Danilo fecha a cara. — Eu vou sair, e você pode gastar o meu dinheiro. Danilo pega um cartão sem limites e o coloca em minhas mãos. — Obrigada, mas eu me casei com você por amor e não pelo dinheiro. Digo e jogo o cartão no chão. Ele ri. — Você é muito falsa. Saia do meu quarto. Me aproximo e beijo sua bochecha. — Vamos tomar um banho de piscina juntinhos? Danilo me empurra com delicadeza. — Eu já tenho planos para hoje. Não me espere. Só volto amanhã. Fecho a cara. — Vai passar a noite com aquela ordinária? — Não é da sua conta. Saia de perto de mim. Seguro as lágrimas e planto um sorriso nos lábios. — Eu vou te esperar, meu amor. Digo e saio do quarto, voltando para o meu. Tiro o vestido e fico nua. Olho meu reflexo no espelho. Eu sempre me achei bonita, mas agora, com a rejeição do Danilo, sinto que tem algum defeito em mim. Visto um vestido rosa delicado de renda, passo perfume, um batom rosa-claro nos lábios e um pouco de base, pó e rímel. Já na cozinha, me deparo com um homem alto que usa óculos de grau um pouco grandes. Seus cabelos são todos brancos. Está vestido igual aos mordomos dos filmes e séries. Ele me encara com gentileza. — Olá, mocinha. Você deve ser Evangeline, a esposa do senhor Cavalcanti. Gostei dele! — E você é? Ele limpa as mãos sujas de farinha em um pano e estende a mão para mim. — Sou Vicente Pereira, o mordomo da casa. É um prazer te conhecer. Gosta de bolo de amendoim? — Eu amo bolo de amendoim. Quer ajuda? — Nem pensar. A senhora é a dona da casa. — Eu gosto de cozinhar. Deixa eu ajudar. Ele sorri e concorda. O ajudo, e ele me conta que trabalha para o meu marido há vários anos. — Você tem filhos? Vicente sorri com tristeza. — Tenho dois filhos. Eles moram muito longe. Eu só consigo visitá-los nos fins de semana ou nas minhas folgas. Eles são maravilhosos. — Posso conhecê-los algum dia? — Claro. Emília e Antônio vão amar te conhecer. Emília... Eu já ouvi a Sílvia falando esse nome com raiva. Deve ser alguma amiga dela... Volto a minha atenção para Vicente. — Vicente, eu posso contar com você para tudo? — Claro, dona Evangeline. Vou ser seu amigo. Sorrio. — Pode me contar o que o meu marido gosta de comer? Ele coloca o bolo no forno e olha para mim. — O senhor Cavalcanti gosta de bolo de fubá. Todo dia de manhã, ele prefere tomar café sem uma gota de açúcar ou adoçante e ama estrogonofe de camarão com macarrão. Anoto tudo o que meu novo amigo diz na minha mente. — Obrigada, Vicente. — De nada, dona Evangeline. — Por favor, me chame apenas de Eva. — Claro, como quiser, Eva. Conversamos sobre receitas, filmes e novelas. Vicente é um homem muito gentil e sensível. O bolo logo fica pronto. Assopro e levo um pedaço à boca. — Hum... Que maravilha. É o bolo de amendoim mais gostoso que já comi na minha vida. Como mais um pedaço e depois outro e, quando vejo, já estou no terceiro pedaço. — Vicente, você tem mãos de fada. Com quem aprendeu a cozinhar tão bem? — Com a minha mãezinha. Eva, pode me dar licença? Vou ao banheiro. — Claro, amigo. Fique à vontade. Ele sorri e se afasta.






