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Sinfonia das Sombras
Sinfonia das Sombras
Por: Rodrigo Borges
Capítulo 1 — A Investigação

POV: Clara Martins

“A verdade não se esconde nas sombras. Ela se esconde em quem controla a luz.”

A chuva caía fina sobre Ravenhold, desenhando reflexos dourados e tremidos no asfalto molhado. Lá do vigésimo andar da sede do jornal Ravenhold Herald, a cidade parecia bonita demais para esconder tanta coisa podre. Eu segurava uma caneca de café frio entre os dedos enquanto observava os carros cruzando lentamente as avenidas abaixo. O relógio na parede marcava quase duas da manhã, e eu ainda estava presa naquele maldito escritório.

Três pessoas desapareceram em menos de dois meses. Sem ligação aparente, sem suspeitos e sem corpos. A polícia chamava de coincidência, mas eu chamava de mentira. Suspirei profundamente, afastando algumas mechas rebeldes do cabelo do rosto antes de voltar a encarar o mural improvisado de cortiça preso na parede principal. Fotos, recortes de jornal, nomes escritos e linhas vermelhas de barbante ligavam os rostos daqueles perfeitos desconhecidos. Tudo levava exatamente para o mesmo lugar: o Baile de Inverno da Fundação Belmont.

Luxuoso, exclusivo e intocável. A elite de Ravenhold adorava fingir que aquele evento anual era apenas uma noite beneficente cheia de vestidos caros e discursos hipócritas sobre solidariedade. Eu não acreditava nisso nem por um único segundo. Dinheiro demais sempre escondia sujeira demais. Peguei a foto de Miguel Azevedo, de trinta e quatro anos. Ele trabalhava como segurança terceirizado e acabou desaparecido três dias depois do baile do ano anterior. A polícia logo alegou fuga voluntária, mas a família insistia que não. E eu acreditava de verdade neles.

Ao lado da foto de Miguel estava fixada a ficha de Beatriz Mello, uma garçonete temporária de vinte e dois anos desaparecida há duas semanas. Sua última localização conhecida foi a Fundação Belmont.

[CLARA MARTINS - Falando sozinha]

— Isso não pode ser coincidência…

Meu celular vibrou sobre a mesa.

[CAMILA - Mensagem de texto]

“Você ainda tá no jornal?”

A mensagem de Camila apareceu na tela e eu sorri de leve. Ela me conhecia bem demais.

[CLARA MARTINS - Mensagem de texto]

“Tô terminando.”

A resposta chegou imediatamente:

[CAMILA - Mensagem de texto]

“Mentira. Vai dormir.”

Soltei uma pequena risada cansada e apoiei a cabeça no encosto da cadeira por alguns segundos. Dormir parecia uma ideia maravilhosa, mas totalmente impossível no momento. Não enquanto aquilo continuasse incompleto.

Olhei novamente pela janela. Ravenhold brilhava lá fora como uma cidade perfeita, elegante, rica e viva. Mas eu sentia o cheiro da podridão escondida sob aquela beleza. Talvez fosse por isso que eu me tornei jornalista. Enquanto as outras pessoas aceitavam respostas fáceis, eu precisava cavar mais fundo. Precisava entender, mesmo quando a verdade machucava — e, principalmente, quando machucava.

Voltei para o notebook e comecei a revisar a lista de convidados confirmados para o baile daquele ano. Políticos, empresários e famílias tradicionais. Então, um nome me chamou a atenção: Ethan Vance. Franzi a testa imediatamente. Os Vance eram conhecidos em Ravenhold justamente porque ninguém sabia quase nada sobre eles. Ricos, extremamente discretos e estranhamente ausentes da vida pública.

Cliquei no perfil dele na busca. Pouquíssimas informações: empresário, investidor, solteiro. Nenhuma rede social, nenhuma entrevista, nenhum escânadalo. Nada. O que era estranho demais para alguém tão rico na era digital.

[CLARA MARTINS - Falando sozinha]

— Você é misterioso demais para o meu gosto.

Algo naquele nome me causou um desconforto estranho, como uma sensação persistente no fundo da mente. Peguei meu caderno e anotei a caneta: “Observar Ethan Vance durante o baile.” Seu celular vibrou novamente, mas dessa vez era uma ligação. Ela atendeu.

[CAMILA - Chamada de voz]

— Clara? Você ainda tá aí?

[CLARA MARTINS - Chamada de voz]

— Eu já tô indo embora, Cami.

[CAMILA - Chamada de voz]

— São quase duas da manhã, garota!

[CLARA MARTINS - Chamada de voz]

— O jornalismo investigativo não dorme com hora marcada.

[CAMILA - Chamada de voz]

— Pelo visto você também não, aparentemente.

Sorri de lado, encostando o aparelho na orelha.

[CLARA MARTINS - Chamada de voz]

— Falando sério, tô muito perto de descobrir alguma coisa grande.

[CAMILA - Chamada de voz]

— Você sempre fala exatamente isso antes de se meter em encrenca.

[CLARA MARTINS - Chamada de voz]

— Mas encrenca faz parte da minha profissão, você sabe bem.

Camila suspirou profundamente do outro lado da linha. Depois, falou em um tom bem mais sério que o habitual:

[CAMILA - Chamada de voz]

— Só toma cuidado de verdade com essa fundação, Clara.

Minha postura mudou imediatamente na cadeira, ficando alerta.

[CLARA MARTINS - Chamada de voz]

— Por que esse tom agora? O que você sabe?

Houve mais um silêncio curto e incômodo na ligação. Então, ela revelou:

[CAMILA - Chamada de voz]

— Gente poderosa demais costuma esconder coisas piores ainda.

Olhei novamente para o mural na parede. As fotos, os desaparecidos e as perguntas sem resposta.

[CLARA MARTINS - Chamada de voz]

— E isso deveria me deixar mais tranquila?

Camila soltou uma risada baixa, sem humor.

[CAMILA - Chamada de voz]

— Não. Deveria fazer você pensar duas vezes antes de entrar naquele baile sozinha.

Mas eu já tinha me decidido. Entraria naquele salão de festas nem que precisasse mentir para metade da cidade para conseguir um convite.

[CLARA MARTINS - Chamada de voz]

— Eu vou ficar bem, relaxa.

[CAMILA - Chamada de voz]

— Essa frase nunca termina bem em filmes de suspense.

[CLARA MARTINS - Chamada de voz]

— Ainda bem que isso não é um filme. Até amanhã.

Depois de desligar, fiquei alguns segundos olhando meu reflexo no vidro da janela. Eu parecia destruída pelo cansaço: olheiras leves, cabelo preso de qualquer jeito e uma expression tensa. O glamour do jornalismo investigativo definitivamente era propaganda enganosa.

A redação inteira estava silenciosa agora. Só restavam o som distante da chuva forte e o zumbido baixo das luzes do prédio. Então, ouvi um estalo no corredor. Meu corpo inteiro ficou rígido e tenso. Virei imediatamente na direção do corredor escuro do lado de fora da sala.

[CLARA MARTINS - Gritando para o corredor]

— Tem alguém aí? É o segurança?

Nenhuma resposta veio da recepção. Provavelmente era algum guarda noturno, ou pelo menos era isso que eu queria forçar a minha mente a acreditar. Levantei devagar da cadeira e caminhei até a porta aberta. As luzes automáticas do corredor haviam apagado fazia alguns minutos, deixando tudo mergulhado numa escuridão estranha e silenciosa demais.

Foi então que eu vi. Uma sombra atravessou o final do corredor principal. Era rápida, alta e impossivelmente silenciosa para o tamanho dela. Meu estômago gelou instantaneamente.

[CLARA MARTINS - Gritando para a sombra]

— Ei! Para aí!

Nada de resposta. Dei mais alguns passos rápidos para fora da sala, mas o corredor já estava completamente vazio. Mas o ar pareceu totalmente diferente agora: mais pesado, mais frio. Uma sensação desconfortável de arrepio percorreu minha nuca, exatamente como se alguém estivesse me observando na penumbra. Respirei fundo e tentei afastar a paranoia da cabeça. Eu estava exausta, só isso. Precisava dormir. Precisava ir para casa urgentemente.

Voltei rapidamente para a sala, recolhi minha bolsa, guardei o notebook e peguei a câmera profissional. Então, percebi algo estranho que me chamou a atenção no mural. Uma das fotografias havia caído no chão: a foto de Miguel Azevedo. Me abaixo lentamente para pegá-la do carpete e congelei no mesmo instante. No verso da fotografia, havia uma frase escrita à mão com uma tinta preta fresca. Uma frase ameaçadora que definitivamente não estava ali antes.

“Pare de procurar.”

Meu coração disparou violentamente contra as costelas. Virei imediatamente em direção ao corredor escuro e vazio, com a respiração curta e os dedos gelados de pavor. Porque, naquele instante, eu tive absoluta certeza de uma coisa: alguém esteve dentro daquela sala enquanto eu estava distraída ao telefone. E talvez essa pessoa ainda estivesse na escuridão, me observando.

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