05- Uma Voltinha Pela Praia

Agora sim começava o primeiro dia absolutamente sem nenhum tipo de compromisso e, por isso, resolvi que não haveria despertador e nem cortinas abertas, ou muito menos qualquer outra coisa que pudesse me fazer acordar antes das 09h da manhã. Falando assim parece que não tenho vida há muito tempo, mas na verdade não é que não tenha tido os meus lazeres e dias de folga, a questão é apenas que aquele sentimento era novo e um tanto quanto interessante.

Normalmente, como trabalho a semana inteira, incluindo o sábado, o único dia que tenho tanto para fazer coisas ou descansar é o domingo, então sempre priorizei a opção de fazer alguma coisa, pois me fizeram acreditar que dormir é algo que posso fazer quando morrer, só não me avisaram alguns problemas de saúde que a falta de noites bem dormidas podem nos causar.

Acordei por volta das 10h da manhã. Foi o mais longe que consegui ir, mas foi uma delicia, embora conturbado. Primeiro acordei um pouco assustada, sentando bruscamente sobre a cama, como se estivesse atrasada pra alguma coisa, mas logo me lembrei que estava de férias, então permiti que meu corpo desabasse novamente enquanto sentia meu coração se acalmar e foi aí que tive uma das melhores sensações.

Sabe quando você não tem compromisso e acorda em um ambiente aconchegante e silencioso? Pois é, aquele meu segundo dia de férias estava começando assim, muito aconchegante e muito preguiçoso. Me senti um pouco culpada por estar descansando, mas depois de repetir algumas vezes que estava tudo bem e que era necessário, meu psicológico começou a me permitir desfrutar daquele momento.

Minha vontade de ir ao banheiro e uma fome avassaladora me obrigaram a sair da cama. Fui ao banheiro primeiro e em seguida fui até a janela abrir as cortinas. Depois que a claridade parou de agredir meus olhos, pude apreciar aquela vista, ainda do quarto, que era uma das coisas mais lindas.

Respirei fundo e, a mim mesma, disse:

– Você tava precisando disso, Letícia.

Tomei um banho bem gostoso, escovei meus dentes, coloquei uma roupa mais simples e leve, calcei meus chinelos, belisquei algumas frutas na cozinha e saí. O dia estava lindo, o céu estava azul e o calor nem parecia tão forte, provavelmente pela época do ano, já que não estávamos no verão.

– Bom dia, Dona Letícia. – Me cumprimentou o Sr. Luís.

– Bom dia. – Respondi sorrindo. – Vou aproveitar e lhe fazer uma pergunta, posso?

– Claro. Em quê posso ajudar?

– Eu vou dar uma volta e queria já aproveitar pra almoçar, mas não conheço nada por aqui. O Sr. teria algum restaurante pra me indicar?

O Sr. Luís ficou pensativo por um momento, então respirou fundo e disse:

– Olha, Dona Leticia, não conheço muito os restaurantes daqui, mas já ouvi as madames elogiarem vários aqui de perto, só sei que tem um que é onde uns famosos iam também... deixa eu só confirmar onde é.

Sr. Luís fez uma busca no computador, anotou o nome do restaurante em um papel, me entregou e disse:

– Este, dizem que é muito bom, mas de qualquer forma o que não falta é restaurante por aqui. – Sorriu. – Dá uma voltinha pela praia, lá tem alguns também.

– Vou fazer isso. Obrigada. – Sorri.

E realmente fiz, mas fiz no meu tempo, sem pressa, afinal, eu não tinha mais nada pra fazer, então tinha que aproveitar enquanto o tédio ainda não conseguia dominar a minha mente e me fazer surtar. A praia era a coisa mais linda, realmente, e estar diante daquela visão enchia a minha mente de uma sensação diferente. Eu me sentia conectada com aquilo e isso me fazia sentir uma paz que há muito tempo não sentia.

Eu não estava de biquíni ou maiô, mas estava de short e chinelos, então resolvi caminhar pela areia, pra poder sentir aqueles pequenos graus massagearem os meus pés enquanto exauriam toda energia contida nas minhas panturrilhas pelo esforço que é se movimentar sobre algo tão irregular.

Não era a primeira vez que via o mar, ou que pisava na areia, não era mesmo, mas devo concordar que aquele lugar era muito bonito, chegando a ser até mesmo mais do que muitos outros lugares e todos em que já havia estado. Sobre a areia, bom, pra mim é engraçado, pois não gosto da sensação dela grudada no meu corpo, mas ao mesmo tempo parecia relaxante, por mais cansativo que fosse caminhar e senti-la pelos meus pés.

Existem estudos a respeito de depressão, pressão alta e mais outras coisas onde o contato com a natureza faz total diferença em nossa qualidade de vida. Muitas das vezes, mesmo que por pouco tempo, qualquer contato que possamos ter já nos ajuda, seja caminhar num campo, jardim, praia, pegar um pouco de sol em determinado horário, ou então brincar com animais como cães e gatos. Essas atividades são consideradas terapêuticas e realmente parecem aliviar muita coisa.

Enfim. Eu estava caminhando de volta ao calçadão, pois minha fome continuava, embora estivesse mais abrandada por causa das frutas que havia comido antes de sair, mas o horário do almoço já se aproximava e estava curiosa em conhecer as comidas que se ofereciam naqueles restaurantes à beira mar. Ia deixar a indicação do Sr. Luís para outro dia, com certeza.

Estava prestes a atravessar a rua quando meu telefone tocou e fiz a burrice de pegá-lo para ver o que era. Era uma mensagem da minha ex, Bianca, com a qual eu não falava há quase 6 meses, ou seja, desde que a havia pego transando com outra mulher em nosso antigo apartamento. Paralisei, fiquei em choque enquanto uma enorme mistura de sentimentos e emoções tomavam posse de mim, tanto que só despertei ao ouvir uma buzina estrondosa e um grito que dizia:

– Olha o carro!

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