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A PRIMEIRA NOITE NO MORRO

A chuva voltou a cair quando a noite tomou conta da cidade.

Dentro da mansão Albuquerque, Valentina caminhava de um lado para o outro em seu quarto. A imagem de Dante não saía de sua cabeça.

O homem que seu pai mandara esquecer, o homem que havia arriscado a própria vida para salvá-la.

Alguém bateu à porta.

— Posso entrar? — perguntou Heloísa.

— Claro.

A amiga entrou trazendo duas canecas de chocolate quente.

— Achei que você fosse precisar.

— Obrigada. — sorriu pela primeira vez naquele dia.

Sentaram-se perto da janela.

— Você está pensando nele, não está? — Helô perguntou.

— Estou tentando entender por que ele me ajudou. — desviou o olhar.

— Talvez ele só tenha feito a coisa certa.

— Meu pai quase entrou em pânico quando ouviu o nome dele.

Heloísa permaneceu em silêncio.

— Você sabe quem ele é?

— Sei apenas o que todo mundo comenta.

— E o que comentam?

— Que ele manda na comunidade do Morro da Esperança, que ninguém entra ou sai sem que ele saiba. Uns dizem que é um criminoso cruel, outros juram que ele protege os moradores.

Valentina franziu a testa, duas versões completamente diferentes do mesmo homem.

-

Enquanto isso, no Morro da Esperança, Dante retornava para casa.

Jonas o acompanhava em silêncio até a varanda.

— Você sabe que o pessoal vai comentar o que aconteceu hoje.

— Deixe que comentem.

— Nunca vi você se meter em um problema da família Albuquerque.

— Aqueles homens não queriam assaltar ninguém. — Dante serviu um café.

— Eu também percebi.

— Eles foram preparados para executar alguém.

— A garota está marcada. — Jonas cruzou os braços.

— Eu sei. — Dante olhou para as luzes da cidade.

-

No mesmo instante, dois carros pretos subiam a estrada que levava ao morro.

Os vidros eram escuros, sem placas.

Assim que chegaram ao primeiro acesso, foram cercados por homens armados.

— Quem são vocês?

O motorista abaixou o vidro apenas o suficiente para mostrar um cartão.

— Temos um recado para o Dante.

Os homens trocaram olhares e minutos depois, Jonas entrou apressado na sala.

— Tem visita.

— Quem?

— Não disseram.

Dante caminhou até o portão, do carro desceu um homem de terno. Elegante, bem diferente dos visitantes habituais.

— Dante?

— Depende de quem pergunta.

— Meu patrão gostaria de conversar.

— Quem é seu patrão?

O homem sorriu discretamente.

— Alexandre Albuquerque.

O silêncio tomou conta do lugar.

Dante deu uma breve risada.

— Diga ao Alexandre que eu não faço reuniões marcadas por mensageiros.

O homem manteve a postura.

— Ele está disposto a pagar muito bem.

— Dinheiro nunca comprou minha palavra.

O visitante deu um passo à frente.

— A vida da sua filha pode depender disso.

Os olhos de Dante endureceram.

— Não tenho filha.

O homem percebeu o erro e corrigiu rapidamente.

— Perdão, quis dizer, da filha dele.

Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Volte e diga ao Alexandre que, se ele quer falar comigo, venha pessoalmente.

Sem esperar resposta, virou as costas.

-

Na mansão, Alexandre recebeu a ligação.

— E então?

— Ele recusou.

— Eu imaginei. — disse, fechando os olhos.

— O que faremos?

Ele caminhou até a janela do escritório.

Lá embaixo, Valentina conversava com Heloísa no jardim, completamente alheia ao que estava acontecendo.

— Se Dante entrou nessa história...

— Sim?

— Significa que o passado finalmente voltou para cobrar a conta.

Alexandre desligou sem dizer mais nada.

Pela primeira vez em muitos anos, percebeu que havia perdido o controle da situação.

E, naquela mesma noite, sem que Valentina soubesse, seu destino já começava a ser puxado para o alto do morro... onde segredos antigos e perigos ainda a aguardavam.

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