Mundo de ficçãoIniciar sessão~~ Giovanne ~~
Eu não me levantei. Permaneci sentado atrás da imensa mesa da sala da presidência. Aquele prédio inteiro parecia pequeno demais para a quantidade de problemas que desabavam sobre a minha cabeça.
Apenas observei a Dra. Jade Vasconcelos caminhar até o centro da minha sala. Cada passo dos seus saltos ecoava no mármore como uma provocação direta à minha autoridade. Ela estava pálida, com olheiras sutis que denunciavam uma noite em claro, mas não trazia os ombros caídos. Havia um ar de superioridade nela que me irritava profunda e instintivamente.
O silêncio que se instalou entre nós era tão denso, tão sufocante, que o tique-taque do relógio parecia martelar as paredes. Eu a estudei por alguns segundos, aquela maldita mulher era a responsável pelo vazamento que poderia sepultar a Vance Neuro-Genetics de uma vez por todas.
Com um movimento lento, joguei o tablet sobre a superfície da mesa. O aparelho deslizou e parou a poucos centímetros dela, exibindo o relatório de auditoria digital com o nome dela em letras garrafais vermelhas. O carimbo que comprovava a quebra de sigilo.
— Você tem poucos segundos para me dizer para onde foi o restante dos códigos de estabilização da Fórmula Phoenix, Dra. Vasconcelos — minha voz saiu baixa, perfeitamente calibrada, mas carregada de uma ira contida. — E sugiro que não minta. Minha paciência acabou no exato momento em que o meu jato tocou a pista deste país. Eu não cruzei o oceano para ouvir desculpas esfarrapadas.
Jade sustentou meu olhar. Eu esperava ver uma criminosa trêmula, uma funcionária desmascarada implorando por clemência ou chorando lágrimas falsas de crocodilo, como tantas que já vi no mundo corporativo. Em vez disso, seus olhos escuros faiscaram com uma intensidade que me pegou desprevenido. Ela engoliu em seco, mas não recuou.
— Eu não sei onde estão os códigos finais, Sr. Vance, porque ainda não os criei. E eu não vendi nada para a Apex, não fui eu! — a voz dela ecoou, firme, embora houvesse uma nota de desespero que ela tentava a todo custo sufocar.
Soltei um riso curto, um som seco e desprovido de qualquer resquício de humor. Aquela negação era o roteiro padrão de qualquer traidor. Apoiei as palmas das mãos na mesa e me levantei, usando minha altura para intimidá-la. Dei a volta na mesa de vidro e parei a poucos centímetros dela. A proximidade me permitiu notar o tremor quase imperceptível em sua respiração e a rigidez defensiva do seu corpo, mas, para a minha surpresa, ela não recuou um único milímetro, manteve o queixo erguido, encarando-me de igual para igual.
— Uma linha de defesa patética — desdenhei, estreitando os olhos, permitindo que todo o meu desprezo transparecesse. — O Dr. Renato Mendes, que eu soube que se relaciona com a senhorita, está neste exato momento em Boston, contratado com status de ouro pela Apex Biologics. Vocês planejaram isso juntos? É esse o golpe? Você finge ser a cientista injustiçada, a funcionária de bancada sacrificada no Brasil, enquanto ele colhe os bilhões e prepara o terreno no exterior para quando você se juntar a ele? Confesse, e talvez eu não destrua o resto da sua vida!
A menção ao namorado pareceu acender um vulcão adormecido dentro dela. O choque inicial deu lugar a uma indignação tão violenta que Jade deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós de um jeito que ninguém jamais ousou fazer desde que assumi a presidência.
— Escute aqui, Sr. Vance! — ela sibilou, a voz vibrando de uma fúria legítima, os punhos cerrados ao lado do corpo. — Você pode ser o dono deste prédio, da empresa, do império que quiser, mas não tem o direito de me acusar! Eu fui a maior vítima dessa história! O Renato e eu estávamos juntos sim, há alguns meses, e aquele desgraçado usou a minha confiança, as minhas horas de sono e o meu sentimento para roubar os relatórios parciais do servidor. Eu não tive participação nisso! Eu fui passada para trás! Mas ele não tem a fórmula completa, ele tem apenas o esqueleto do projeto. Ele não sabe como fazer a Phoenix funcionar no cérebro humano porque o projeto é meu!
Minha máscara de controle, polida por anos de diplomacia de mercado, mostrou uma rachadura profunda. O desespero, o ódio direcionado ao tal Renato e a raiva crua naqueles olhos escuros eram reais demais para ser uma atuação de bastidores. Aquela mulher não estava encenando.
— E por que eu deveria acreditar em você? — perguntei. Minha voz baixou um tom, tornando-se um sussurro perigoso. Mantive a guarda alta, os olhos fixos nos dela. — Cientistas vendem pesquisas por ganância todos os dias, Doutora. Por que você seria diferente?
— Porque essa fórmula não é sobre dinheiro para mim! É sobre a vida do meu irmão! — a voz dela quebrou e, finalmente, as lágrimas de pura revolta e dor transbordaram, rolando livres pelas suas bochechas. Ela deu um meio passo para trás, como se o peso daquela verdade a esmagasse. — O João Pedro tem vinte e três anos, Sr. Vance. Ele está vegetativo em uma cama de hospital há três anos por causa de um acidente! A Fórmula Phoenix não é um ativo financeiro para mim, é a única esperança de trazer o meu irmão de volta para a minha mãe e para mim! Você acha mesmo que eu venderia a vida do meu irmão por alguns dólares na conta de um canalha?
As palavras dela me atingiram com a força de um soco no estômago.
Eu paralisei por uns segundos, o ar pareceu sumir da sala da presidência. Olhei para aquela mulher encurralada, chorando de dor, desarmada de qualquer arrogância, e a realidade se distorceu diante dos meus olhos. Subitamente, não era o rosto de Jade que eu via, mas a imagem do caixão do meu pai.
Eu conhecia aquela dor. Conhecia o peso esmagador de carregar a culpa pela tragédia de quem amamos, o fantasma de pensar que poderíamos ter feito algo diferente. Eu me culpava pela morte do meu pai todos os dias e Jade se culpava pelo estado do irmão, éramos dois sobreviventes de naufrágios parecidos.
Dei um passo para trás, afastando-me do calor da sua dor e recompondo, peça por peça, a minha armadura de gelo. Eu não podia amolecer, não ali, não nesse momento. O fantasma do meu pai exigia justiça, e a realidade do mercado era cruel: meu tio e meu primo estavam usando esse exato escândalo nos bastidores em Boston para tentar me destituir da presidência, alegando que eu não tinha capacidade de liderar. Se a Apex decifrasse os dados e lançasse aquela fórmula antes de nós, a Vance estaria destruída por completo e eu perderia o legado do meu pai.
Processei a situação rapidamente, calculando as variáveis. Se ela era a única que sabia como finalizar o projeto, eu precisava dela, mas precisava dela onde eu pudesse ver e sob o meu controle total.
Virei-me para ela, o rosto novamente transformado em uma máscara ilegível de frieza corporativa.
— Vou te dar uma segunda chance, Dra. Vasconcelos. Não porque confio em você, longe disso, mas porque preciso da sua mente.
Jade engoliu em seco, nitidamente assustada com a minha mudança brusca de postura. Ela ergueu a mão trêmula e limpou o rosto úmido com as costas da mão.
— Então… eu não estou demitida? — perguntou, a voz frágil, um fio de esperança surgindo em seus olhos.
— Está sim. O compliance exige a sua demissão deste prédio por justa causa — respondi, vendo o choque empalidecer ainda mais o seu rosto, então dei um passo em sua direção, ditando as regras do que imaginei ser uma possível solução. — Mas tenho uma nova proposta… Você vai sair do Brasil, vai arrumar suas malas e me acompanhar para Boston, onde trabalhará no laboratório da minha sede principal, sob a minha supervisão total e o meu monitoramento de vinte e quatro horas. Eu serei a sua sombra, Dra. Vasconcelos, cada passo, cada e-mail e cada linha de código que você escrever passará por mim.
Jade abriu a boca, ultrajada, mas eu a cortei com um gesto de mão.
— Não há espaço para negociação. Te darei vinte e quatro horas para pensar. Esteja aqui amanhã, neste mesmo horário. Se aceitar, assinará um novo contrato sob os meus estritos termos e o tratamento do seu irmão será totalmente custeado pela Vance. Se recusar, eu mesmo faço a ligação e os meus advogados colocam você na cadeia ainda amanhã de manhã. A escolha é sua, Jade, sugiro que pense bem.







