❤️ Selena:
A escuridão me envolveu por um instante, seguida por uma sensação leve de deslocamento, como se meu corpo tivesse sido desmontado e remontado em outro lugar. Quando abri os olhos, já não estava diante das muralhas que dividem os reinos.
O cheiro de fumaça e aço e sangue da batalha foi substituído pelo aroma de terra úmida, pinheiros e o frio característico da floresta que marca a fronteira entre o domínio do fogo e o do gelo. O ar aqui era mais puro, mas ao mesmo tempo carregado de uma solidão que não me acalmava.
Caio de joelhos no chão, minhas mãos cravando-se na relva molhada pelo orvalho da manhã. Meu peito arfa, não por cansaço, algo que para mim é quase impossível, mas por uma confusão que turva minha mente como uma névoa espessa.
Sinto uma agitação interna que não consigo controlar, como se pensamentos diferentes lutassem entre si para tomar conta da minha razão. Nunca havia sentido algo assim, e isso só aumentava a minha inquietação.
Fecho os olhos com força, tentando afastar a imagem que não para de se repetir: os dois alfas, com seus cabelos claros e um com olhos da cor da floresta profunda, o outro com olhos da cor do oceano. Lembro também do aroma deles que parecia ter grudado em minha pele, em meu sangue, em cada parte de mim, como uma marca que não podia ser lavada com água ou pelo tempo.
O que foi aquilo?
Sou Selena Rougefort, líder da Ordem Vampira, serva leal do Rei Klaus do Fogo. Há séculos, treino para não sentir nada além da estratégia, da força e da frieza necessárias para manter a ordem e cumprir minhas missões. A disciplina faz parte de mim há tanto tempo que já não sabia mais como era deixar que as emoções tomassem o controle de qualquer situação.
Meus sentidos são aguçados, minha mente é afiada como a lâmina que carrego e nada, absolutamente nada, consegue me fazer hesitar diante de um inimigo. Sempre soube exatamente o que fazer, sem dúvidas, sem medo. Mas hoje… hoje eu hesitei. E essa hesitação parecia ter aberto uma porta que eu não sabia que existia.
A lembrança do momento em que minha espada parou a poucos centímetros do pescoço de um deles faz meu estômago se revirar de uma forma que não reconheço. Sinto uma mistura de raiva por ter falhado e de estranhamento por não ter conseguido cumprir o que era minha obrigação. Era como se uma força invisível tivesse segurado o meu braço, mais forte do que qualquer ordem ou desejo que eu tivesse.
Minha mão tremeu. Eu, que já decapitei dezenas de lobos em batalhas passadas, que nunca vacilei diante de nenhuma ameaça, não consegui desferir o golpe final. O silêncio que se fez naquele instante, antes de eu recuar, parecia ter durado uma eternidade, gravando-se na minha memória de um jeito que eu não conseguia apagar.
E pior do que a falha no meu dever é o que senti. Era algo que não cabia nas regras que aprendi, algo que ia contra tudo o que eu sempre acreditei ser certo e natural.
Ainda posso sentir o sangue correndo em minhas veias com uma intensidade que não experimentava há séculos. Meu coração, que por muito tempo bateu devagar e fraco, como se estivesse adormecido, parecia ter despertado, batendo forte e acelerado, aquecendo todo o meu corpo de dentro para fora. Era uma sensação nova, que ao mesmo tempo que me assustava, trazia uma estranha sensação de vida.
Uma energia nova percorreu meus músculos, tornando-me mais forte, mais ágil, como se a presença daqueles dois homens tivesse despertado algo adormecido em minha própria essência. Agora que estou longe deles e da confusão que me causam consigo sentir, minha força está muito maior. É como se eu tivesse recuperado um poder que não sabia que havia perdido, e isso tornava tudo ainda mais difícil de entender.
E as presas… elas ainda latejam, doloridas e cheias de um desejo que me envergonha só de admitir. Uma vontade primitiva e incontrolável de chegar perto, de sentir a pele deles, de provar o sabor do sangue que corre em suas veias, não como uma inimiga que quer matar, mas como algo que não consigo nomear. Esse desejo me causava repulsa, pois ia contra tudo o que eu havia construído durante séculos.
— Isso é uma maldição — sussurro para mim mesma, passando as mãos pelos cabelos, tentando me acalmar. Tentei convencer a mim mesma de que era apenas um efeito momentâneo, algo que passaria assim que eu me afastasse completamente.
— Deve ser um truque. Eles devem ter recorrido a uma das feiticeiras aliadas da Rainha do Gelo para lançar algum feitiço sobre mim, algo para confundir meus sentidos e me impedir de lutar. Era a explicação que fazia mais sentido dentro do que eu conhecia sobre as guerras e as artimanhas dos inimigos.
Quero muito acreditar nisso. Faz sentido. São criaturas ardilosas, capazes de qualquer coisa para vencer uma batalha. Mas então, uma palavra ressoa de novo na minha memória, trazida pela voz mais calma dos dois alfas, antes que a confusão tomasse conta de tudo: Companheira. A palavra ecoava dentro de mim, estranha e antiga, como se despertasse algo muito profundo.
Me lembro deles dizendo algo como, Laço de Fogo e Ferro. É foi isso mesmo que ouvi. Repeti o nome baixinho, como se ao pronunciá-lo pudesse entender melhor o que significava, mas a sensação de estranhamento só aumentava.