Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando chegaram ao prédio, Kira levantou o olhar.
A construção parecia ainda maior de perto. As luzes refletiam nos vidros das janelas, deixando o lugar com uma aparência quase distante da realidade dela. Ela ficou alguns segundos parada, observando. — Uau… Vincent, ao lado dela, acompanhou o olhar. — O quê? Ela soltou uma pequena risada. — Nada. Mas ele percebeu que não era nada. Kira apontou discretamente para o alto. — É estranho pensar que alguém consegue se acostumar a morar em um lugar assim. Vincent ficou em silêncio por um instante. — Com o tempo, tudo deixa de parecer estranho. Ela olhou para ele. A resposta parecia simples, mas tinha algo por trás. Como se ele não estivesse falando apenas do prédio. Antes que ela perguntasse qualquer coisa, eles entraram. O saguão era silencioso. Muito diferente do bar cheio de pessoas, música e risadas. Kira sentiu a mudança imediatamente. Ali parecia outro mundo. Um mundo onde Vincent pertencia. O elevador chegou. As portas se abriram e eles entraram. Kira encostou na parede enquanto os números começaram a subir. Primeiro alguns andares. Depois muitos. Ela acompanhava os números passando rápido demais. Talvez fosse a bebida. Talvez fosse a altura. Ou talvez fosse só a sensação estranha de estar entrando em um lugar completamente diferente. Vincent percebeu quando ela fechou os olhos por alguns segundos. Sem dizer nada, colocou uma mão na cintura dela. O gesto foi firme, mas cuidadoso. Apenas para garantir que ela não perdesse o equilíbrio. Kira abriu os olhos e olhou para ele. — Eu consigo ficar em pé. Vincent olhou para ela com calma. — Eu sei. Ele não tirou a mão imediatamente. — Só estou ajudando. Ela ficou alguns segundos sem responder. Porque esperava uma provocação. Alguma frase convencida. Mas não veio. Ele simplesmente estava ali. E aquilo era mais difícil de ignorar. O elevador continuou subindo. O silêncio entre eles não era desconfortável. Era diferente. Kira percebeu que não precisava falar o tempo inteiro. Ela não precisava fazer piada. Não precisava fingir que estava completamente bem. Quando a porta finalmente abriu, Vincent deu espaço para ela sair primeiro. Outro detalhe pequeno. Mas ela percebeu. O apartamento era exatamente o que esperava. Grande. Elegante. Organizado. Tudo parecia estar no lugar certo. Até demais. Kira caminhou devagar, olhando ao redor. — Você sempre deixa tudo assim? Vincent tirou o casaco e colocou sobre uma cadeira. — Assim como? Ela olhou para os móveis perfeitamente alinhados. — Como se ninguém pudesse mexer em nada. Um pequeno sorriso apareceu. — Talvez eu goste de organização. — Ou talvez você goste de controle. A frase saiu antes que ela pensasse. Vincent levantou o olhar para ela. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Então ele sorriu de leve. — Talvez os dois. Kira não esperava aquela resposta. Ela esperava que ele negasse. Mas ele não negou. Isso chamou sua atenção. Vincent foi até a cozinha e pegou um copo de água. Entregou para ela. — Bebe. Ela pegou o copo. — Você sabe que eu não sou criança, né? — Eu sei. Ele respondeu tranquilo. — Mas mesmo assim você precisa cuidar de você. A frase mexeu com ela mais do que deveria. Porque era exatamente o tipo de coisa que ela fazia pelos outros. Mas quase nunca recebia. Kira sentou no sofá. Por alguns segundos, ficou olhando o copo nas mãos. — É estranho. Vincent encostou no balcão. — O quê? Ela olhou ao redor. — Estar aqui. Ele não interrompeu. Ela continuou: — Parece que a sua vida inteira está em outro nível. Vincent observou o rosto dela. — Você acha isso? Kira deu de ombros. — É difícil não achar. Ele ficou em silêncio. E depois respondeu: — As pessoas costumam olhar para o que eu tenho. Ele desviou o olhar. — Poucas tentam entender quem eu sou. Kira ficou olhando para ele. E pela primeira vez naquela noite, viu uma pequena rachadura naquela postura sempre controlada. Não era fraqueza. Era algo mais raro. Vulnerabilidade. E talvez fosse isso que mais chamava atenção nela. Porque por trás de tudo que parecia perfeito, Vincent também carregava coisas que escondia






