Mundo de ficçãoIniciar sessão|| VALERIA ||
O resto do dia passou mais depressa do que eu esperava… ou talvez tenha sido apenas a quantidade absurda de trabalho que me fez perder a noção do tempo. Mal voltei ao meu escritório, deparei-me com uma nova tarefa em cima da secretária. Porque ao grande senhor Montenegro ocorreu a brilhante ideia de me atribuir pessoalmente a revisão de certos dados financeiros que, para ser sincera, poderiam perfeitamente ter sido delegados a qualquer outra pessoa do departamento. Mas não. Tinha de ser para mim. Nem sequer é a minha área... De certeza que o faz para me irritar. Mesmo assim, fiz o meu trabalho; também não é como se pudesse queixar-me abertamente. Quando finalmente terminei, eram cerca das quatro da tarde, e deitei-me apenas por um momento para relaxar. Silêncio, finalmente. Mas durou pouco. O telemóvel vibrou em cima da secretária. Ao ver que era o Cris, atendi quase de imediato. Não foi uma chamada longa, apenas o suficiente para ele me explicar que tinha uma reunião que se iria prolongar mais do que o previsto e que não poderia passar a buscar os miúdos nessa tarde. Acenei com a cabeça, embora ele não me pudesse ver. Não era um problema. Nunca era, quando se tratava deles. Desliguei e olhei para as horas. Já era tarde. Arrumei as minhas coisas sem pensar muito nisso, desliguei o computador e saí do escritório. ⪻ ......⪼ Fiz o trajeto até à escola mais depressa do que o habitual. Não sabia exatamente porquê, mas tinha aquela sensação desconfortável no peito que não desaparecia desde a reunião. Como se algo não estivesse bem. Quando cheguei, já não havia tantos pais na entrada. Apenas alguns retardatários. Saí do carro e caminhei diretamente em direção ao portão, procurando com o olhar as crianças entre as que ainda lá estavam. Mas elas não estavam lá. —Boa tarde, menina Valéria — ouvi dizer; levantei os olhos e vi a professora da Sofía e do Mateo a sair ao lado da diretora, ambas com uma expressão serena. —Boa tarde —respondi, tentando não parecer apressada—. Sim… vim buscar as crianças. Onde estão elas? —perguntei, olhando para trás delas, à espera de as ver aparecer a qualquer momento. Mas não. Ambas trocaram um breve olhar. Não foi nada exagerado… mas foi o suficiente para que algo dentro de mim ficasse tenso. —Acabaram de os levar —respondeu a professora com total naturalidade. Pisquei os olhos… —Como assim… levaram-nos? —perguntei, confusa; assim que a diretora percebeu, o seu sorriso vacilou. —Sim… há alguns minutos. Pensávamos que já estivesse a par da situação. —Quem os levou?! — perguntei, desta vez sem conseguir esconder a tensão na minha voz. A professora franziu ligeiramente o sobrolho, aparentemente confusa com a minha reação. —Um senhor… bastante elegante — respondeu ela —. Disse que era o pai deles. —O… pai dela? —repeti, sentindo a palavra soar estranha na minha boca—. Diretora, estará a confundir-se?… Por acaso está a referir-se ao tio Cristopher? Ambas negaram quase ao mesmo tempo. —Não, não era o senhor Hale —interveio a diretora—. Era outro senhor. Ah, sim. Chama-se Adrian. Muito simpático, aliás. Ao ouvir isso, o meu pulso começou a acelerar. —E vocês simplesmente… entregaram-lhes?! — perguntei, dando um passo em frente —. Assim, sem mais nem menos? O desconforto nos seus rostos foi imediato. —Ele apresentou documentação — acrescentou a professora rapidamente —. Identificou-se… e disse ser o seu marido. —O meu… o quê? — a minha mente ficou em branco por um instante. —Achámos que era a coisa certa a fazer — continuou a diretora, agora claramente preocupada —. As crianças reconheceram-no… não pareciam incomodadas. Foram embora tranquilamente com ele. Senti um arrepio a percorrer-me as costas. —Meu Deus… —murmurei, levando a mão à cabeça —. Há quanto tempo é que partiram? —Não há mais de cinco minutos. Acabaram de sair. Cinco minutos, ainda conseguia alcançá-los. —Em que é que eles partiram? —perguntei imediatamente. —Num carro preto… —disse a diretora, tentando lembrar-se—. Um… Rolls Royce, acho eu. Não esperei para ouvir mais nada. Virei-me sem perder um segundo e comecei a correr. O coração batia-me com força e a minha mente já estava acelerada, a tentar encaixar tudo. Acelerei o passo. Se ainda estivessem por perto… tinha de os alcançar. Felizmente, não demorei muito a vê-lo. O carro preto avançava alguns metros à minha frente; acelerei o passo, ignorando o barulho à minha volta, concentrando-me apenas em alcançá-lo. — Espere! — gritei, embora a minha voz se perdesse no meio do trânsito. E o veículo abrandou. Por um segundo, pensei que fosse coincidência… até que finalmente parou. A minha respiração estava ofegante quando cheguei, mas isso agora não importava e aproximei-me da porta traseira. Mas a janela baixou antes de eu conseguir tocá-la, e foi então que o vi. O Adrian estava ali sentado, com a mesma calma de sempre, como se não tivesse acabado de levar os meus filhos sem dizer uma única palavra. Os nossos olhares cruzaram-se… seis anos… e lá estava ele. —O que raio estás a fazer?! — soltei imediatamente, sem rodeios —. Pretendes raptar os meus filhos em plena luz do dia?! —Raptar? — repetiu ele, num tom baixo, quase indiferente — São os meus filhos, Valeria. De que rapto estás a falar? —Não te atrevas —respondi, apertando a mandíbula enquanto dava mais um passo na sua direção —. Não apareces durante seis anos e, de repente, decides levá-los como se tivesses algum direito. —Tenho todo o direito —disse ele simplesmente. Soltei uma risada curta, sem humor, perante a sua descarada atitude. —Claro… agora é isso… sai do carro — acrescentei, apontando para o interior —. Agora. —É suposto eu dar-te ouvidos? — perguntou ele, com indiferença. — Não mudaste nada. —O que é que isso quer dizer? —perguntei, mantendo a voz baixa, controlada… embora, por dentro, tudo estivesse longe de o estar. —Significa exatamente o que estás a pensar —respondeu ele com total tranquilidade. Soltei uma risada curta e incrédula. — Ah, é? Porque eu estou a pensar que perdeste completamente a cabeça. — Entra — disse ele, mas aquilo parecia mais uma ordem do que um pedido. — Desculpa? —Não vou repetir —acrescentou, sem alterar o tom de voz—. Ou entras… ou levo as crianças e nunca mais as voltas a ver. A decisão é tua. Apertei os dentes. Por um segundo, pensei em recusar. Em exigir. Em gritar-lhe tudo o que tinha guardado. Mas não podia fazê-lo, muito menos na frente das crianças. —Mãe, olha! O papá comprou-nos doces! —gritou a Sofía, com um pequeno sorriso. E o Mateo estava mesmo ao lado dela. —Não vou discutir isto aqui —continuou ele, calmo—. Ou entras… ou vou-me embora, a decisão é tua. —Estás a ameaçar-me? —Interpreta como quiseres. Olhei para o interior do carro. A Sofía e o Mateo continuavam lá, tranquilos. Contornei o veículo com passos rápidos, abri a porta do outro lado e entrei sem dizer mais uma palavra. ….






