Adrien Vince analisou o corpo do novo secretário como se passasse um raio-X completo.
Traje formal — ok.
Cabelos arrumados, penteados para trás e com gel — ok.
A aparência dele o acertou como um golpe direto no estômago. O rapaz era bonito. Bonito até demais para um simples beta.
OK, estava impressionado, não esperava por aquilo. A maioria dos betas com quem trabalhava tinha uma beleza relativamente considerável, mas nada que realmente chamasse sua atenção.
Mas aquele rapaz à sua frente era diferente.
Quando suas mãos se tocaram, Adrien levou outro choque — uma corrente de prazer percorreu todas as suas veias. Ele quase franziu o cenho, por um momento.
Ignorou completamente o cheiro estranho do rapaz — uma mistura de vinagre, mofo e terra úmida. Seria indelicado demais comentar sobre isso, porém o fato era quase irônico, considerando o tipo de empresa em que trabalhava.
— Pode ir, senhor Blake. Agora é comigo. — disse Adrien. — Muito obrigado.
— Tudo bem. — O outro alfa saiu do escritório, fechando a porta atrás de si e deixando-os sozinhos.
Adrien foi até a mesa, sentou-se e apontou para a cadeira à frente.
— Pode se sentar.
O secretário obedeceu e sentou-se em frente à mesa.
Ele pegou uma pequena caixa embrulhada e entregou ao outro homem, junto com uma planilha de regras rígidas.
— Aí tem o celular da empresa. Tudo o que você precisa saber sobre mim e o que exatamente tem que fazer está escrito na planilha. Como meu assistente pessoal, sugiro que decore. — Adrien o orientou, observando atentamente cada movimento do seu novo secretário. — Você, em hipótese alguma, deve…
— Chegar atrasado. — completou o beta antes dele. — Não se preocupe, entendi muito bem.
Por um instante, Adrien sentiu o canto da boca querer ceder em um sorriso. Aquele homem o surpreendia a cada resposta.
Os olhos escuros encontraram os seus, sem desviar, com um brilho destemido que o deixou mais surpreso do que já estava. Quase ninguém naquele lugar o olhava daquele jeito, ainda mais um assistente — que sempre estavam assustados e trêmulos.
— Sabe como a empresa funciona?
— Mais ou menos. — respondeu o homem com sinceridade, ainda o encarando com o olhar afiado e curioso.
Até parecia que ele também estava o avaliando.
Uma tensão se formou sobre os ombros de Adrien. Ele se mexeu na cadeira, levemente incomodado. Aquele olhar o atravessava como se o enxergasse por dentro — e, por algum motivo, isso o desestabilizava.
— Vou explicar brevemente, mas os detalhes estão todos aí. Como você sabe, nossa empresa é sobre fragrâncias. Aqui nós temos setores relacionados ao comércio, fabricação e produção, e a principal coisa que deve saber é que não gosto de misturar nossas hierarquias biológicas.
— Entendi, senhor. — disse ele, firme, ainda mantendo o olhar sobre ele.
— Tem alguma dúvida?
Simon fez uma breve careta com os lábios.
— Nenhuma, para falar a verdade. Já entendi tudo.
Adrien encostou as costas na cadeira, intrigado novamente. Aquele beta não tremia nem gaguejava; mantinha a linha com um profissionalismo impecável. Estava totalmente tranquilo, sem dúvidas ou desatenção. Havia algo errado nisso — ou certo demais.
— Você já trabalhou como secretário antes?
— É a minha primeira vez — admitiu Simon com franqueza e firmeza. — Eu aprendo tudo muito rápido, pode ficar tranquilo em relação a isso.
Os dois se olharam novamente.
— Disso eu tenho certeza. Helion teceu elogios a você. Disse que é ótimo em tudo o que faz. — Adrien ergueu uma sobrancelha, o desafio cru, sem rodeios. — Vamos ver se é verdade. Me prove isso.
Um sorriso de lado se formou nos lábios do rapaz, como se tivesse aceitado o desafio.
— Como o senhor quiser.
— A sua sala é aquela ali. — ele apontou para a parede de vidro ao lado da sala dele, onde havia uma entrada direta. — Bem ao meu lado. Uma coisa que preciso perguntar antes do senhor ir... — Adrien pausou, chegando mais perto da mesa e apoiando os cotovelos, unindo as mãos. — Por que escolheu a Kairós? E se candidatou ao emprego? Deve saber o quanto sou exigente.
O secretário riu pela primeira vez, sem temer o olhar penetrante dele.
— Acredito que isso seja óbvio. Dinheiro, senhor. — ele se levantou da cadeira. — Você me pagando o que está no contrato, eu faço tudo o que quiser — e impecavelmente. — completou o beta com um sorriso de canto.
O tom foi direto, mas o subtexto era outro — um fio de provocação e perigo. Adrien sentiu o sangue esquentar, um arrepio discreto subindo pela nuca. Novamente o prazer atingiu todas as suas veias.
Se antes tinha alguma dúvida de que aquele garoto era diferente, agora tinha certeza. Aquilo soou como uma malícia não implícita. E o pior de tudo? Ele havia gostado. E muito.
Aquele beta era único.
— Como eu disse, senhor Fox. — Adrien manteve o olhar. — Prove-me que está correto. Pode ir.
O rapaz o cumprimentou novamente e saiu do escritório, indo diretamente para a sala dele.
O ar carregado de tensão… não era nada do tipo que ele estava acostumado. Era algo que ele não conseguia identificar. Um tipo de energia que gruda na pele, doce e latente.
Sensual.
Então ele fez uma coisa que nunca havia feito.
No computador, foi até a seleção de recém-contratados e digitou o nome Simon Fox, analisando meticulosamente todo o currículo do beta.
Nome: Simon Fox.
Idade: 30 anos.
Origem: Beta.
Residência: Lumen.
Estado civil: Solteiro.
Formação: Químico pela Universidade de Saint Claire.
Aquilo fez Adrien abrir a boca. Agora realmente estava chocado. Então, aquele homem era um químico.
Por que um químico aceitaria trabalhar como secretário, se poderia estar em um laboratório?
O rapaz havia se formado na melhor universidade do país. Isso já o habilitava para qualquer empresa de Química. Dinheiro, certo? Ele entendia. Mas… será que ele não queria trabalhar na área?
A pergunta ficou martelando em sua cabeça, e com ela, o cheiro estranho — vinagre, mofo e terra molhada — voltou à memória, latejando como um mistério.
Adrien se recostou na cadeira. Ele precisava testar esse rapaz. Se realmente ele fosse um químico nato, por que estava parado?
Talvez o cheiro daquela manhã não fosse o único enigma que ele precisaria decifrar.
— • —
Antes de chegar perto do intervalo do almoço, Adrien resolveu dar uma passada no laboratório para fazer sua inspeção rotineira — e levou seu novo secretário junto. Seria uma boa oportunidade para o teste que queria. Era o primeiro dia, então costumava pegar mais leve; e, bom, agora estava curioso para ver a reação do rapaz dentro de um laboratório.
E, para sua surpresa, aquele beta não estava enlouquecendo ainda.
Enquanto andavam pela empresa, todos se moviam rapidamente ao vê-lo: alguns saíam do caminho, outros lançavam olhares curiosos ao homem ao seu lado. Os alfas mantinham a postura rígida, mas era impossível não notar o desagrado em seus rostos ao verem Simon acompanhando o CEO.
O homem, por outro lado, mantinha o rosto divertido, como se estivesse curtindo uma piada interna.
Adrien ignorou aquilo e nem perguntou o que ele estava pensando.
Quando chegaram ao laboratório, a equipe parecia completamente nervosa. Pelo canto do olho, notou as reações do assistente — agora parecia realmente maravilhado, os olhos escuros chegando a brilhar, deixando-o ainda mais bonito.
A expressão sanou todas as suas dúvidas. Com certeza, era um químico. Como ele.
Adrien se lembrou da sensação de entrar em um laboratório de verdade pela primeira vez — foi exatamente como aquela. Um sorriso quase se formou em seu rosto.
— Julie, e o perfume? — perguntou.
— Senhor, estamos tentando de tudo — ela respondeu, visivelmente cansada. — Fizemos várias misturas, mas algumas saíram iguais a outras fragrâncias que já temos.
Todos ali estavam exaustos e, perto do lançamento, o esgotamento era ainda maior. Mas ele não podia aliviar para ninguém — nem mesmo para Julie. O tempo de preparação do perfume já havia chegado ao limite.
— Mostre-me — ordenou, com um sorriso controlado.
A especialista explicou a nova combinação de essências. Adrien cheirou cada uma e depois passou a mão pelo rosto, totalmente irritado.
— Não!
— CEO, tentamos de tudo e… — a garota começou, hesitante.
— Não tentaram o suficiente — a voz dele soou ríspida. Pela primeira vez, ele viu a ômega se encolher à sua frente. Não queria ser grosso com ela… mas agora não havia mais tempo. O perfume deveria estar pronto para ser fabricado no dia seguinte.
— Desculpe — ela sussurrou. — Eu vou tentar.
— Esqueça! — vociferou.
Adrien saiu do laboratório em passos duros, rápidos e firmes — mais irritado do que nunca. A gravata que usava parecia sufocá-lo.
— CEO, preciso que… — um alfa apareceu com um papel na mão, mas se calou imediatamente.
Um olhar bastava para entender que não era o momento. Adrien entrou no elevador e apertou o botão do seu andar. O instinto alfa pulsava — raiva e frustração faziam as veias saltarem sob a pele.
Quando foi afrouxar a gravata, percebeu que não estava sozinho. O novato estava ao lado dele, quieto, observando tudo, com a expressão neutra.
Nenhum dos outros funcionários jamais o acompanhava quando estava assim. Nenhum se aproximava tanto. E, de repente, uma estranha calmaria o atingiu.
Quando seu olhar se encontrou com o dele novamente, Adrien sentiu uma tranquilidade ainda maior.
— Quando é o lançamento? — perguntou Simon, com voz calma.
— Em mais ou menos três semanas — respondeu, automático, como um comando.
O beta apenas assentiu, mantendo o olhar firme.
— Pode ir almoçar. Eu também vou.
— Está bem — respondeu o secretário, com uma voz simples. — Mas ficar irritado com todo mundo não vai te ajudar a conseguir o perfume.
Adrien lançou-lhe um olhar que, em qualquer outro caso, seria um aviso severo. Mas havia algo diferente ali — um certo reconhecimento. Ele sabia que o rapaz tinha razão. Um alfa tomado pela raiva não pensa com clareza.
Quando o elevador chegou, o andar inteiro estava em silêncio. Todos provavelmente já sabiam que o novo perfume não estava funcionando.
De volta ao escritório, ele fechou a porta, afrouxou a gravata e pegou o calendário, observando a data do lançamento e fazendo as contas.
Pela primeira vez, em vinte anos de carreira, pensou em cancelar um lançamento.
Adrien passou as mãos pelas têmporas, massageando.
— E se eu mesmo fizer o perfume dessa vez?
Afinal, ele começou assim.
A lembrança o fez sorrir. Sentia falta de estar no laboratório, criando suas próprias fragrâncias. Talvez fosse o caminho certo agora: voltar às origens, sair um pouco do lado CEO estressado.
Ficou ali por um tempo, considerando arduamente aquela ideia.
Talvez tudo isso estivesse acontecendo justamente para lembrá-lo do prazer de criar — com as próprias mãos — a essência perfeita.
— • —
Simon foi dispensado mais cedo do trabalho no seu primeiro dia. Bom, pelo menos aquilo nem contava como seu primeiro dia de verdade. Ainda estava aprendendo o funcionamento de tudo.
Conseguiu se familiarizar com tudo da empresa até o momento. Deu uma rápida lida no contrato inicial. Nada que não soubesse, apenas confirmou o que já julgava só de olhar para Hwang In-ho: controlador maníaco.
Mas a primeira impressão que teve do chefe era que ele não era o demônio que todos pintavam. Era só obsessivo com perfeição.
No horário do almoço, Helion ficou com ele, e almoçaram. A todo momento, sentia os olhares sobre si, mas não deu muita atenção. Na verdade, o que achava engraçado era quando o pessoal passava pela mesa deles e sempre ouvia algo e via o olhar de pena.
“— Coitado desse aí!”
“— Tadinho, ele não ficará tão bonito assim até o final da semana.”
“— Forças, novato, você consegue.”
Parecia que estavam o enviando para a pior pessoa do mundo. Quanto exagero!
No ônibus de volta para casa, ele lia a planilha com as regras rígidas.
Viu bem grifada a proibição sobre relacionamentos no trabalho.
— Poxa, senhor Vince… uma trepadinha gostosa no escritório é a fantasia de todo mundo — zombou ele, com um sorriso. — O que faremos agora?
Simon continuou lendo as regras e viu como funcionavam os relacionamentos entre alfas e ômegas. No Heat/Rut (cio de ômega e alfa), podiam tirar até duas semanas de folga.
— Será que isso se aplica a ele também? — perguntou, fazendo uma careta. — Como deve ser o rut desse alfa? Do jeito que ele parece sempre no controle… com certeza deve ser algo regrado, ou até mesmo retardado.
Ele seguiu lendo as regras, enquanto tentava pensar em uma boa desculpa para dar quando chegasse o seu Heat. Tinha que ser algo convincente — o suficiente para que o senhor Vince não desconfiasse.
A lembrança do cheiro do CEO o invadiu, deixando-o um pouco aceso demais… Pelo menos agora ele tinha alguém para aliviar o próprio calor — ou, no mínimo, comprar vibradores que achasse que combinassem com Adrien.
Ele riu dos próprios pensamentos depravados e balançou a cabeça. Se realmente usasse a imagem do seu chefe para aquilo, a culpa não era dele.
Mas até que seria bem interessante.
Voltou a ler toda a rotina do seu chefe e como deveria ser o seu secretário. Havia alguns absurdos ali que só alguém perfeccionista e rígido apreciaria. Parecia mais um manual de treinamento militar do que uma rotina de trabalho.
“Senhor Adrien acorda às 5 da manhã.”
“Seu almoço é feito com muita salada e boa parcela de proteínas, sempre no horário certo. Nunca atrasar; é proibido qualquer tipo de gordura e fritura.”
— Isso é porque ele nunca comeu minha lasanha. Essa frescura com comida acaba rapidinho — comentou, rindo.
“Não precisa de café e é extremamente proibido açúcar.”
— Ele não gosta de doces? — riu de novo. — Se ele sentisse meu cheiro de verdade…
Ele parou de ler, encarou o teto do ônibus por alguns segundos e pensou que talvez estivesse entrando numa empresa cheia de malucos.
Agora que tinha entrado naquela loucura, iria até o fim.
Os horários dele que não mudavam eram: acordar às 5 da manhã, tomar café e ir à academia, e depois ir ao trabalho, onde ficava até às 23h.
— Vinte e três horas? — Simon arregalou os olhos. — Esse homem vai para casa fazer o quê? Dar boa-noite para os móveis e voltar ao trabalho? Coitado, esse alfa não vive. Entendi por que é solteiro. Que vida sem graça… ele está precisando realmente de alguém para dar uma sacudida nisso.
E, pelo jeito, passaria mais tempo ao lado do senhor Vince do que imaginava.
E estava mais do que ansioso por aquilo — o que tornava tudo deliciosamente convidativo e perigoso.