Início / Romance / O Coração que Ele Ainda Amava / Capítulo 7 — Perto Demais Para Ser Coincidência
Capítulo 7 — Perto Demais Para Ser Coincidência

"Algumas decisões parecem simples até o momento em que percebemos que já não existe uma forma de voltar atrás."

Irina entrou no vestiário repetindo mentalmente que precisava parar de pensar no que havia acontecido no dia anterior.

Precisava esquecer o olhar de Nikolai Romanov, a forma estranha como ele a observou e, principalmente, a sensação absurda de que aquele encontro havia deixado alguma marca dentro dela.

Porque nada daquilo fazia sentido.

Ela era apenas uma funcionária da limpeza.

Ele era o presidente da empresa.

E a vida real não funcionava como sua imaginação insistia em sugerir desde que saiu daquele escritório.

Foi tentando se agarrar a essa lógica que Irina empurrou a porta do vestiário naquela manhã. A intenção era simples: trocar de roupa, iniciar o expediente e convencer a si mesma de que tudo havia voltado ao normal.

A tentativa durou menos de três segundos.

Porque, assim que seus olhos encontraram o uniforme perfeitamente dobrado sobre um dos bancos, seus passos pararam.

O estômago apertou imediatamente.

Não precisou se aproximar para entender que aquela peça não pertencia ao setor onde trabalhava. O tecido era diferente, mais refinado e elegante, com uma qualidade que o tornava visivelmente mais caro do que os uniformes que costumava usar todos os dias.

Irina franziu a testa.

Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, encarando o conjunto como se pudesse encontrar alguma explicação lógica apenas observando-o.

Talvez tivesse sido colocado ali por engano.

Talvez pertencesse a alguma supervisora.

Talvez alguém tivesse deixado o uniforme no banco errado.

Qualquer possibilidade parecia melhor do que a primeira resposta que surgiu em sua mente.

Porque a primeira resposta tinha um nome.

Nikolai Romanov.

E ela não queria pensar nele novamente.

Não depois da noite que teve. Não depois de passar horas virando de um lado para o outro, tentando convencer a si mesma de que aquele encontro não significava nada. Não depois daquela sensação estranha, daquela paz desconhecida, daquela impressão impossível de ter se lembrado de algo que nunca viveu.

Então percebeu o envelope repousando ao lado do uniforme.

E, naquele instante, uma sensação fria percorreu sua nuca.

Porque, depois de tudo o que havia acontecido, Irina já não tinha tanta certeza se acreditava em coincidências.

— O que aconteceu?

A voz surgiu atrás dela e fez Irina se virar rapidamente.

Stelvania, uma das suas colegas de trabalho, acabava de entrar no vestiário carregando uma garrafa de água e uma pequena bolsa presa ao ombro.

Os olhos da mulher seguiram a direção do olhar dela.

Então pararam sobre o uniforme.

— Ah.

O silêncio durou alguns segundos.

— Isso é seu?

Irina demorou um instante para responder.

— Acho que sim.

— Você acha?

Irina apontou para o envelope.

— Tem meu nome.

Stelvania franziu a testa.

— Estranho.

Muito estranho.

A observação não ajudou em absolutamente nada.

Irina se aproximou do banco e pegou o envelope. Os dedos pareciam mais tensos do que deveriam quando ela deslizou a unha por baixo da aba e abriu o papel com cuidado.

Leu.

Uma vez.

Depois outra.

Na terceira, o coração já batia rápido demais.

— Irina?

Ela ergueu os olhos.

Stelvania observava seu rosto com atenção.

— O que foi?

Sem responder, Irina entregou o bilhete.

A colega leu rapidamente. Depois releu. Então ergueu as sobrancelhas.

— Isso não é normal.

— Eu sei.

— Foi o presidente?

— O nome dele está aí.

Stelvania voltou a observar a assinatura.

— Você conhece Nikolai Romanov?

— Não.

A resposta saiu rápida demais.

Porque tecnicamente era verdade.

Alguns minutos dentro daquele escritório não significavam conhecer alguém. Mas aquilo só tornava tudo mais estranho.

Stelvania devolveu o papel, ainda olhando para ela como se esperasse uma explicação melhor.

— Você fez alguma coisa?

Irina piscou.

— O quê?

— Chamou atenção de alguém importante? Disse alguma coisa? Entregou algum documento? Aconteceu alguma coisa ontem que eu não saiba?

Irina abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu de imediato.

Porque, sim, algo havia acontecido.

Só que ela não sabia explicar.

Não podia dizer que o presidente da empresa havia olhado para ela como se a reconhecesse. Não podia dizer que o nome dela pareceu afetá-lo de um jeito estranho. Muito menos podia confessar que passara a madrugada inteira inquieta por causa de uma sensação que não parecia pertencer a ela.

Então apenas balançou a cabeça.

— Não fiz nada.

Stelvania olhou novamente para o uniforme.

— Então por que Nikolai Romanov colocaria você para trabalhar diretamente para ele?

Irina apertou o bilhete entre os dedos.

— Eu não sei.

E essa era justamente a parte mais assustadora.

Porque, pela primeira vez desde o transplante, Irina estava diante de uma situação para a qual não conseguia encontrar nenhuma explicação racional.

Alguns minutos depois, já vestida com o novo uniforme, ela caminhou em direção ao elevador sentindo todos os olhares sobre si, mesmo que ninguém estivesse realmente olhando.

O tecido parecia estranho contra sua pele, não por desconforto, mas porque carregava um peso que não deveria ter. Aquele uniforme a separava das outras funcionárias de um jeito silencioso, quase constrangedor, como se anunciasse algo que ela mesma ainda não compreendia.

Quando entrou no elevador, Irina manteve os olhos fixos nos números acima da porta.

Décimo andar.

Décimo quinto.

Décimo oitavo.

Vigésimo.

Quanto mais alto subia, mais o estômago se contraía.

Funcionários do setor operacional raramente tinham motivos para ir até a presidência. Aquele andar parecia pertencer a outro mundo, a uma realidade onde pessoas como ela não entravam sem autorização, sem motivo e sem serem notadas.

Mas agora ela estava indo para lá.

Diretamente para ele.

Quando as portas se abriram, o silêncio do último andar pareceu diferente de todos os outros silêncios da empresa. Mais pesado. Mais controlado. Como se até o ar obedecesse a regras que ela ainda não conhecia.

Irina deu um passo para fora.

E, antes que conseguisse decidir para onde ir, Dmitri Morozov apareceu no corredor.

Ele parou ao vê-la.

Por um instante breve demais para ser comentado, seus olhos passaram pelo uniforme, depois pelo rosto dela.

— Irina Petrova?

Ela assentiu.

— Sim.

Dmitri a observou por mais um segundo.

Não havia hostilidade em seu olhar, mas também não havia tranquilidade.

— Venha comigo.

Irina respirou fundo e o seguiu pelo corredor, tentando ignorar a sensação de que cada passo a aproximava de uma resposta que talvez fosse pior do que a dúvida.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App