coração aos cacos

Capítulo 4

Leonardo Valek

Após Karla sair, guardei os papéis do divórcio cuidadosamente na minha pasta. Caminhei até o quarto, retirei a roupa e entrei no banheiro. Precisava de um banho quente na banheira, algo que ao menos aliviasse a tensão dos músculos, mesmo que não fosse capaz de acalmar a mente.

A água escorria sobre mim, mas não levava embora o peso que carregava. Ao sair, fui até o frigobar, peguei uma dose de vodka e virei de uma vez. O líquido queimou minha garganta, mas não foi suficiente para apagar a dor que me consumia.

Nunca pensei que pudesse doer tanto ser traído. Sempre ouvi histórias, comentários de outros homens, mas viver isso na pele era diferente. Era como ter o coração arrancado sem piedade.

Deitei-me na cama, tentando dormir, mas o sono não vinha. As imagens dos vídeos, das fotos, da traição de Karla estavam gravadas na minha mente como cicatrizes abertas. Cada detalhe me atormentava.

— Como fui burro… — murmurei para mim mesmo. — Eu poderia ter evitado.

Mas já era tarde. A verdade havia sido revelada, e agora restava apenas o silêncio da noite e a dor de um homem que perdeu não só uma esposa, mas também a confiança no amor.

O amanhecer trouxe consigo uma ressaca brutal. Até mexer os olhos doía. Levantei-me com esforço e fui direto para o banheiro. Um banho quente era a única esperança de relaxar, ou pelo menos tentar aliviar o peso da noite anterior.

Depois, vesti-me com precisão: terno preto impecável, camisa branca, sapatos engraxados, relógio no pulso e perfume discreto. A imagem de um homem sério e poderoso precisava ser mantida, mesmo que por dentro eu estivesse em pedaços. Hoje eu tinha que ir à empresa. E também precisava chamar a detetive Korine Mille para acertar o pagamento pelo trabalho brilhante que ela havia feito.

Ao chegar à cozinha, o mordomo já me esperava. Serviu uma sopa quente, receita antiga para curar ressacas, e colocou ao lado um comprimido. Tomei tudo em silêncio, seguido de um café forte. O sabor amargo parecia combinar com o meu estado de espírito.

Sem perder tempo, caminhei até o carro. O motorista já aguardava. Entrei, fechei a porta e respirei fundo. A cidade começava a despertar, mas para mim, aquele dia já carregava o peso de uma nova realidade: o divórcio, a traição e a certeza de que nada seria como antes.

O carro deslizou pelas ruas até chegar ao prédio da empresa. A fachada imponente refletia o poder que eu precisava manter, mesmo com o coração em pedaços.

Assim que entrei, os funcionários se levantaram em respeito. Cumprimentei com um aceno breve, mantendo a postura fria e séria. Ninguém poderia perceber o caos que me consumia por dentro.

No elevador, respirei fundo. A cada andar que subia, reforçava para mim mesmo: sou o CEO, não posso demonstrar fraqueza.

Ao chegar ao meu escritório, sentei-me diante da mesa de madeira maciça. Pilhas de documentos aguardavam minha assinatura, relatórios precisavam de revisão. A rotina corporativa era implacável, e eu sabia que não havia espaço para distrações.

No fim da manhã, pedi que chamassem Korine Mille até minha empresa. Ela chegou pontual, com a mesma postura profissional que havia demonstrado desde o início.

— Senhor Valek — disse ela, entrando no escritório. — Vim acertar os detalhes finais.

Levantei-me, peguei o envelope preparado e entreguei a ela.

— Você fez um trabalho brilhante, Korine. Descobriu a verdade que eu precisava, mesmo que tenha me destruído por dentro.

Ela recebeu o pagamento com discrição, sem qualquer gesto de vaidade. Apenas assentiu, mantendo o olhar firme.

— Meu papel é revelar a verdade, senhor Valek. O que fazer com ela… é sempre decisão do cliente.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, refletindo sobre suas palavras. A verdade havia me libertado, mas também me condenado a uma dor que eu jamais imaginara.

— Agora é comigo — respondi, sério. — O divórcio já está em andamento. Mas ainda resta uma questão: Alex Valek.

Korine me encarou, como quem entende que a história ainda não terminou.

Korine se levantou, pronta para sair, mas antes de alcançar a porta, virou-se para mim. Seu olhar era firme, mas carregava uma compreensão silenciosa.

— Eu sei que nada que eu disse vai fazer sua dor passar — falou com calma. — Mas, se quer mesmo um conselho de quem já viveu isso… a melhor forma de fazer aqueles dois pagarem é dar a volta por cima e ser feliz. Aí, senhor Valek, você verá eles infelizes.

As palavras ecoaram dentro de mim como um golpe inesperado. Eu, que estava tomado pela raiva e pelo rancor, não havia pensado nessa possibilidade. Talvez a verdadeira vingança não fosse destruir, mas reconstruir.

Fiquei em silêncio, apenas observando Korine sair. O som da porta se fechando deixou o escritório mergulhado em quietude.

Peguei a pasta com os documentos do divórcio e a coloquei sobre a mesa. Respirei fundo. A dor ainda queimava, mas o conselho dela plantava uma semente: a ideia de que minha vitória seria seguir em frente, mais forte, mais feliz, enquanto eles se afundariam na própria miséria.

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