O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE
O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE
Por: Mavi
1 - A CHUVA

A chuva castigava a cidade de Maple North City. A tempestade transformava as ruas em espelhos d’água, refletindo os faróis dos carros como vultos desfocados. Dante Owen estava preso com o trânsito a sua frente e bastante impaciente com a situação. Se a reunião tivesse acabado no horário, poderia ter saído antes da chuva.

Seu celular vibrou no console.

Dante hesitou antes de atender.

- Senhor Owen, disse a governanta, a voz baixa, controlada, mas tensa. - A babá pediu demissão.

Ele fechou os olhos por um breve instante.

- Outra? - Murmurou.

- Sim. E… Olie está chorando muito. Teve mais um episódio de pânico noturno. Não conseguiu se acalmar sem o senhor.

O maxilar de Dante se contraiu.

- Ela está bem agora?

- Está exausta, respondeu a governanta. - Mas continua acordada. Chamando pelo pai.

Ele respirou fundo, sentindo o peso familiar da culpa pressionar o peito. Olie havia perdido a mãe assim que veio ao mundo, e Dante se cobrava para ser um pai presente.

- Estou a caminho - disse apenas, encerrando a ligação.

A poucos quarteirões dali, Melissa Cross enfrentava a mesma tempestade, mas sem carro, sem abrigo e sem emprego. Ainda assim, havia esperança. Mesmo depois de tantos nãos.

Ela apertou a mochila contra o peito enquanto corria pela avenida iluminada apenas pelos faróis borrados dos carros. Minutos antes, havia perdido a sua carteira com os documentos e o pouco dinheiro que lhe restava. Tinha caído no chão, no escuro, e a chuva tornou impossível encontrá-la.

Melissa estava exausta. Passou por várias entrevistas naquele dia e, mais uma vez, ouviu o educado e vazio:

“Qualquer coisa, entraremos em contato. ”

Ela já sabia o que aquilo significava.

Seus pés estavam encharcados, o corpo cansado e o coração apertado ao pensar nos pais tão longe, tão frágeis… especialmente o pai, preso a exames constantes, remédios e à fila interminável para um transplante de coração.

Melissa respirou fundo, tentando afastar o nó na garganta.

Ela não podia voltar para casa sem nada.

Não podia preocupar ninguém.

Precisava dar certo sua tentativa na cidade grande.

A chuva continuava a cair pesada e constante. Os carros aceleravam, e os faróis viravam manchas líquidas refletidas no asfalto.

Melissa apressou o passo ao ver o sinal mudar. Atravessou a rua com pressa, sentindo o frio queimar a pele, o vento empurrar os cabelos molhados contra o rosto.

No mesmo instante, o trânsito à frente de Dante finalmente cedeu, e ele aproveitou a brecha, apertando o pé no acelerador. Calculava mentalmente quanto tempo ainda levaria até chegar em casa. Já era tarde, e ele havia falhado mais uma vez com Olie.

O celular vibrou novamente no console. Uma mensagem curta da governanta:

“Ela ainda está chorando.”

Dante desviou o olhar por um único segundo.

Foi o suficiente.

Um vulto surgiu no meio da pista.

Ele pisou no freio com força, sentindo o carro perder aderência no asfalto molhado. O barulho das rodas tentando frear não minimizou o impacto.

Foi Seco.

Inegável.

Por um breve instante, o mundo pareceu estar em pausa. O som da chuva ficou distante, abafado. Um silêncio estranho tomou conta de tudo.

Dante desligou o motor, respirou fundo e saiu do carro.

A jovem estava caída sob a luz do poste, imóvel. A água escorria ao redor do corpo, misturando-se a um fio de sangue que descia de sua têmpora com constância.

Ele se aproximou com cuidado e ajoelhou-se ao lado dela.

Ela respirava.

O alívio dele foi imediato.

- Consegue me ouvir? - perguntou, a voz firme, apesar do nó no peito.

Os olhos dela se abriram por um instante, confusos e sem foco. Ouviu a voz de Dante distante e em sons desconexos.

Ela sentiu frio.

Depois dor.

Uma dor espalhada, como se o corpo não fosse mais inteiro.

A sensação súbita de que não deveria estar ali.

De que estava atrasada na própria vida.

O pensamento não se completou.

O escuro veio antes. Melissa apagou.

Dante sentiu o coração acelerar. Deu tapinhas em seu rosto com cuidado, chamando-a com voz firme.

- Moça, não, não apague. Não agora. Aguenta mais um pouco.

Ligou para a emergência com as mãos trêmulas, o pensamento desordenado, a respiração curta. Ainda assim, forneceu as informações necessárias.

Permaneceu ali até a ambulância chegar, tomado por uma sensação sufocante de que aquilo não deveria ter acontecido.

Quando os paramédicos chegaram, trabalharam com rapidez, imobilizando-a antes de colocá-la na maca. Dante deu um passo para trás, observando em silêncio.

- Vai acompanhá-la? - perguntou um deles.

- Eu sigo atrás, respondeu, já caminhando em direção ao carro.

Antes de entrar, lançou o olhar ao capô amassado e se deu conta, com um aperto no peito, do tamanho do impacto. A frente de seu carro estava significativamente amassada.

Olhou em volta e viu a mochila da jovem caída no asfalto molhado.

Ele a apanhou, com a intenção simples de devolvê-la quando ela acordasse. Por um instante, um pensamento atravessou sua mente "e se ela não acordar"? Mas ele afastou a ideia com frieza calculada.

A ambulância partiu com a sirene ligada, cortando a chuva. Dante entrou no carro e seguiu logo atrás, atento ao trajeto até o hospital.

No pronto-socorro, acompanhou os médicos até onde foi permitido. Quando o fizeram parar na recepção, uma atendente se aproximou.

- Qual é o nome da paciente?

Dante hesitou.

- Eu não sei, respondeu. — Não a conheço.

Lembrou-se da mochila e foi até o carro buscá-la. Colocou-a sobre o balcão da recepção do hospital.

- Talvez haja documentos aí dentro,  sugeriu a recepcionista.

Dante abriu o zíper com cuidado. Havia apenas uma chave solta presa a um chaveiro que identificava o número 8, um livro e um celular. Tentou ligar o celular. Mas a tela estava completamente destruída, estraçalhada.

- Não há como contatar familiares, disse ele.  - Não há nenhum dado útil aqui.

Dante respirou fundo antes de completar:

- Eu fui o responsável pelo acidente. Vou cobrir todas as despesas médicas.

Coloquem a paciente sob meus cuidados até que possamos localizar a família.

A recepcionista concordou.

O médico da emergência, Dr. Richard, voltou à recepção com passos rápidos, o semblante sério tentando não chamar atenção.

Dante se levantou no mesmo instante, antes mesmo de ser chamado.

- Senhor Owen, disse o médico, conferindo o nome no prontuário. - Precisamos falar com urgência.

Dante assentiu, atento.

- A paciente perdeu muito sangue. Disse o médico, direto, sem rodeios. - O sangramento interno foi controlado, mas o nível de hemoglobina caiu perigosamente. Ela precisa de uma transfusão imediata. O problema é que o tipo sanguíneo dela é raro, e não temos bolsas compatíveis no estoque. Já acionamos o banco de sangue, mas isso pode levar horas… e, nesse caso - ele hesitou por um breve instante, a espera pode ser fatal.

Dante sentiu o estômago contrair.

- Qual é o tipo sanguíneo dela?

- AB negativo, respondeu o médico. É extremamente raro.

- Eu sou O negativo. Meu sangue é compatível. Eu faço a doação!

O médico o olhou com mais atenção.

- O senhor tem certeza de que é O negativo?

- Tenho.

Dante já retirava o paletó molhado, jogando-o sobre a cadeira.

- Se for compatível, isso pode ser decisivo, disse o médico.  - Vamos economizar um tempo precioso.

- Eu sou O negativo. Tenho certeza.

O médico respirou fundo antes de continuar.

- O problema, Dante, é que vamos precisar de mais de uma bolsa de sangue… e você só pode doar uma com segurança.

Dante sustentou o olhar dele.

- Que tipo de complicações eu poderia ter?

- Tontura, vertigem, vômito, desmaios… e, em casos mais graves, um choque hipovolêmico. Sua vida também pode ficar em risco.

Dante passou a mão pelo rosto, tenso, mas firme.

- Doutor… eu tenho 1,85, massa muscular significativa, peso… eu aguento!

Dante respirou fundo, o olhar firme.

- Ela não vai aguentar.

Um segundo de silêncio.

- Tire de mim o que for preciso.

O médico hesitou por um segundo.

Então tomou sua decisão.

- Enfermeira, chamou, com firmeza.  - Prepare o senhor Owen para doação. Retire 800 ml de sangue.

A enfermeira assentiu, já se movendo.

- E preparem a sala de emergência, acrescentou ele. - É possível que tenhamos dois pacientes esta noite.

Dante engoliu seco.

Mas não recuou.

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