Mundo de ficçãoIniciar sessão(Valentina)
Depois de algumas horas no apartamento da Ana, pela primeira vez desde que tudo começou, consegui respirar um pouco melhor.
Eu não contei tudo.
Não podia. Algumas verdades ainda não pertenciam só a mim.Mas contei o suficiente para ela entender que eu estava desmoronando.
Ana não tentou resolver minha vida.
Não fez perguntas que eu não podia responder. Apenas ficou ali. Ouvindo. Me lembrando que eu ainda tinha alguém ao meu lado.Quando saí do apartamento dela, percebi que conversar não diminuía o tamanho dos problemas.
Apenas impedia que eles pesassem sozinhos.E eu precisava exatamente disso.
Porque, quando voltei para a mansão Castellani, a realidade me esperava do outro lado da porta.
E, por mais que eu tentasse fingir que aquele encontro na cozinha não tinha significado nada, meu próprio cérebro insistia em revisitá-lo.
Um copo de água.
Algumas palavras.
Um silêncio que dizia muito mais do que qualquer discussão que já tivemos.
Eu ainda era casada com Dominic Castellani.
Ainda estava presa a um contrato.
Ainda precisava dividir minha vida com o homem que conseguia tirar minha paciência em poucos segundos.
Mas, pela primeira vez desde que tudo começou, eu não carregava aquilo completamente sozinha.
Ana tinha esse poder.
Ela conseguia arrancar um sorriso de mim quando tudo que eu queria era mandar o mundo inteiro para o inferno.
E talvez fosse exatamente por isso que eu amava tanto minha melhor amiga.
Respirei fundo antes de entrar no quarto.
Nosso quarto.
Ou melhor...
O quarto que existia para convencer o mundo de que éramos marido e mulher.
Mas bastava fechar a porta para lembrar que entre nós só existia um contrato.
A porta do lado dele estava fechada.
Por alguns segundos fiquei parada olhando para ela.
Não sei exatamente o que esperava.
Talvez nada.
Talvez que ele aparecesse e dissesse que aquilo tudo era uma loucura.
Mas Dominic Castellani nunca fazia o que eu esperava.
E talvez esse fosse um dos motivos pelos quais ele conseguia me irritar tanto.
Fui até meu lado do quarto.
Tirei os sapatos.
O vestido do casamento já estava guardado.
Mas a sensação de estar presa continuava ali.
Deitei na cama.
Ouvi alguns minutos de silêncio.
Até que minha mente decidiu me trair.
A lembrança daquela noite voltou.
O escuro.
A voz dele.
A proximidade.
O toque da minha mão contra o corpo dele quando nos esbarramos na cozinha.
Fechei os olhos imediatamente.
Não.
Não era para pensar nisso.
Era Dominic.
O homem que comprou minha empresa.
O homem que colocou um contrato na minha frente.
O homem que transformou minha vida em uma negociação.
Não um homem que deveria fazer meu coração acelerar.
Virei de lado na cama.
— Que droga, Valentina.
Murmurei sozinha.
Meu coração parecia esquecer tudo aquilo que minha razão repetia sem parar.
E eu odiava quando meu próprio corpo discordava de mim.
Depois daquela madrugada, fiz exatamente o que sabia fazer melhor.
Enterrei tudo debaixo do trabalho.
Ou pelo menos tentei.
As semanas seguintes passaram como um furacão.
A fusão foi aprovada oficialmente.
E, como Dominic havia prometido, a mudança começou.
A Valença deixaria o prédio onde funcionava há décadas e passaria a ocupar uma das alas da sede Castellani.
No papel, era apenas uma decisão empresarial.
Na prática...
Era mais uma invasão de Dominic na minha vida.
Quando cheguei ao novo prédio pela primeira vez, precisei admitir uma coisa.
Ele era bom no que fazia.
O prédio da Castellani parecia mais uma cidade do que uma empresa.
Funcionários andando de um lado para outro.
Salas de reuniões enormes.
Tecnologia em todos os lugares.
Tudo funcionava com uma precisão irritante.
Exatamente como ele.
— Odeio admitir isso.
Ana, que caminhava ao meu lado segurando uma pasta, olhou para mim.
— O quê?
Observei o ambiente.
— Ele fez um bom trabalho.
Ela abriu um sorriso.
— Vou guardar esse momento. Você finalmente admitiu uma qualidade do seu marido.
Revirei os olhos.
— Não exagera.
— Tina, você acabou de elogiar Dominic Castellani. Acho que precisamos marcar no calendário.
— Cala a boca.
Ela riu.
Era exatamente por isso que eu precisava dela por perto.
Porque se dependesse apenas de mim, eu passaria o dia inteiro lembrando que aquele homem era um arrogante convencido.
Mas infelizmente...
Ele também era inteligente.
E isso era extremamente irritante.
A cerimônia de apresentação da nova fase da empresa aconteceu na sexta-feira.
Um evento pequeno.
Pelo menos foi o que Dominic chamou.
Para mim, parecia uma apresentação de guerra.
Empresários importantes.
Investidores.
Funcionários.
Jornalistas.
Todos esperando para ver a nova parceria entre Castellani e Valença.
Eu estava nos bastidores olhando meu reflexo no espelho.
O vestido preto que eu escolhi era elegante, mas não exagerado.
Eu não queria parecer uma princesa.
Não era um conto de fadas.
Era uma batalha.
— Nervosa?
A voz de Ana apareceu atrás de mim.
Sorri pelo espelho.
— Talvez.
Ela se aproximou.
— Você nasceu para isso, Tina.
Balancei a cabeça.
— Meu pai nasceu para isso.
Ela segurou meu ombro.
— Não.
Olhei para ela.
— Você não está aqui porque Dominic permitiu. Você está aqui porque você conhece essa empresa melhor do que qualquer pessoa.
Suas palavras tocaram exatamente onde eu precisava.
Antes que eu pudesse responder, a porta abriu.
E, como sempre...
Ele estava lá.
Dominic.
Terno escuro.
Aquela postura impecável.
Aquele olhar que parecia analisar tudo.
Inclusive eu.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou.
Foi estranho.
Porque eu estava acostumada a sentir raiva quando ele aparecia.
Mas naquele momento...
A primeira coisa que senti não foi raiva.
E isso me deixou irritada comigo mesma.
Ele caminhou até nós.
— Está pronta?
A pergunta era simples.
Mas o jeito como ele disse fez meu coração bater um pouco mais rápido.
Ignorei.
Levantei o queixo.
— Eu nasci pronta.
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
Quase imperceptível.
Mas eu vi.
E aquilo foi pior do que qualquer provocação.
Porque Dominic Castellani sorrindo era uma arma perigosa.
— Então vamos, senhora Castellani.
O sobrenome ainda me incomodava.
Mas, dessa vez...
Não doeu tanto.
E eu odiei perceber isso.
Porque naquele instante comecei a entender uma coisa.
O contrato dizia que eu deveria ser esposa dele por dois anos.
Mas não dizia nada sobre o que aconteceria se, no meio desse tempo...
Eu começasse a esquecer que deveria odiá-lo.







