Mundo de ficçãoIniciar sessão(Valentina)
Depois do casamento, veio o coquetel.
Precisei encarar aquelas pessoas, sorrir para convidados, conversar com empresários, posar para fotografias e fingir que tudo estava exatamente como deveria estar.
Meu pai sorriu para mim o tempo inteiro, tentando esconder a culpa que carregava.
E cada sorriso dele fazia meu peito apertar.
Só nós três sabíamos a verdade.
Meu pai.
Dominic.
E eu.
Para o resto do mundo, era um casamento por amor.
Para mim, era um contrato.
Eu estava entregando minha liberdade a um homem que odiava pelos próximos dois anos.
Era uma penitência que mal havia começado.
Mas eu faria de tudo para salvar a empresa que meu avô construiu, meu pai levou a vida inteira para manter de pé e que, por orgulho, quase perdeu.
Viver de aparências fazia parte daquele contrato.
Mentir também.
Enquanto a água quente escorria pelo meu corpo, as lágrimas se misturavam ao vapor que tomava conta do banheiro.
Fechei os olhos.
Era inútil tentar fugir.
As lembranças sempre encontravam um jeito de voltar.
— Venha, minha pequena. É seu aniversário. Precisamos escolher o bolo.
A voz doce da minha mãe ainda morava em algum cantinho da minha memória.
Ela estava grávida naquela época.
Lembro que passava boa parte dos dias entre consultas e hospitais. Eu era pequena demais para entender por que ela sentia tantas dores. Só sabia que, mesmo sofrendo, ela sempre encontrava forças para sorrir quando me via.
Até o dia em que saiu de casa para mais uma consulta.
Ela nunca voltou.
Nem ela.
Nem o bebê.
Depois de tantos anos, ainda consigo lembrar do perfume que usava, do jeito delicado de prender os cabelos e do carinho que fazia no meu rosto antes de me colocar para dormir.
Existem lembranças que o tempo não apaga.
Existem feridas que simplesmente aprendem a doer em silêncio.
Como o dia do funeral.
Ainda consigo me ver parada diante daquele caixão.
Pequena demais para entender o que era a morte.
Grande o suficiente para sentir que minha vida nunca mais seria a mesma.
A barriga da minha mãe ainda estava marcada pela gravidez.
Os médicos não retiraram o bebê.
Talvez tenham achado que eu era nova demais para perceber.
Mas eu percebi.
E aquela imagem nunca saiu da minha cabeça.
Talvez tenha sido naquele dia que a menina dentro de mim cresceu antes da hora.
Meu pai também morreu um pouco ali.
Continuou respirando.
Continuou trabalhando.
Continuou vivendo.
Mas nunca mais voltou a ser o mesmo.
Durante meses, praticamente só bebia.
Quase não saía do quarto.
A empresa ficou em segundo plano.
Eu via um homem tentando sobreviver enquanto fingia que estava tudo bem.
Foi nessa época que Isabel apareceu em nossas vidas.
Ela trabalhava em uma empresa de cosméticos e, por acaso, acabou conhecendo meu pai durante um projeto em que as empresas fizeram uma parceria.
No começo aparecia apenas para entregar alguns documentos.
Depois passou a aparecer para saber como eu estava.
Trazia um chocolate.
Uma revista.
Um livro.
Às vezes nem trazia nada.
Só sentava comigo.
Conversava.
Brincava.
Fazia companhia para uma menina que sentia falta da mãe e para um homem que já não sabia mais como ser pai.
Sem perceber...
Ela foi juntando nossos pedaços.
Anos depois, fui eu quem disse:
— Acho que meu pai gosta de você.
Ela ficou vermelha.
Meu pai fingiu que não ouviu.
Mas ouviu.
Pouco tempo depois começaram a namorar.
Nunca senti que Isabel tentou ocupar o lugar da minha mãe.
Muito pelo contrário.
Ela sempre fazia questão de manter viva a memória dela.
Guardou fotografias, cartas, um lenço perfumado e alguns objetos em uma caixa.
Quando fiquei mais velha, colocou tudo nas minhas mãos.
— Sua mãe merece continuar sendo lembrada.
Nunca esqueci essas palavras.
Isabel não podia ter filhos.
Mesmo assim, foi a melhor mãe que a vida poderia colocar no meu caminho.
Ela ia às reuniões da escola.
Me ajudava nas tarefas.
Dava broncas quando eu fazia alguma besteira.
Comemorava cada conquista minha como se fosse a dela.
Amava sem precisar provar nada para ninguém.
Quando cresci, descobri que ela havia deixado muitos sonhos de lado para cuidar de mim e ajudar meu pai a reconstruir a própria vida.
Aquilo me incomodava.
Eu sabia o quanto ela era inteligente.
Sabia o quanto gostava de trabalhar.
Insisti durante meses até convencê-la a voltar para o mercado.
Hoje ela é diretora financeira da mesma empresa de cosméticos onde construiu sua carreira.
Sempre que a vejo feliz, sinto que fiz a escolha certa.
Mesmo que, às vezes, eu me pegue pensando...
E se ela tivesse escolhido outro caminho?
Será que nossa história teria sido diferente?
Ou o destino apenas encontraria outra forma de bagunçar nossas vidas?
A água já cobria parte do meu corpo quando me sentei na banheira.
Abracei os joelhos.
O vapor escondia o espelho.
Era como se até meu reflexo tivesse desistido de olhar para mim.
Respirei fundo.
Foi então que outra lembrança surgiu.
E, pela primeira vez naquela noite, um sorriso escapou entre as lágrimas.
— Como assim, Tina? Você não é mais virgem?
Bel quase deixou a xícara de café cair.
Comecei a rir de nervoso.
Ela começou a chorar.
Depois me abraçou tão forte que quase fiquei sem ar.
— Minha menina virou uma mulher...
Às vezes eu a chamava de Bel.
Outras vezes...
De mãe.
— Mãe... eu estou contando agora. Foi hoje.
Escondi o rosto em seu pescoço.
Ela me abraçou ainda mais.
Depois vieram os conselhos.
As perguntas.
O sermão.
A consulta com a ginecologista marcada para a semana seguinte.
Tudo exatamente como uma mãe faria.
Antes da faculdade, tive um relacionamento que achei que duraria para sempre. Não durou. Às vezes, as pessoas simplesmente seguem caminhos diferentes.
Eu ainda não sabia, mas meu maior encontro e minha maior guerra ainda estavam esperando por mim.
E foi lá, na faculdade que conheci Ana.
No primeiro semestre já parecíamos amigas de infância.
Ela falava pelos cotovelos.
Eu respondia na mesma moeda.
Era impossível dar errado.
Alguns meses depois, Bia entrou na nossa turma.
A caçula do nosso trio.
Eu e Ana tínhamos praticamente a mesma idade.
Bia era quase dois anos mais nova, mas compensava isso com uma inteligência que dava até raiva.
Respondia aos professores sem pensar duas vezes.
Sempre tinha uma opinião.
Sempre arrumava um jeito de convencer a gente a embarcar em alguma ideia maluca.
Em poucos meses já éramos inseparáveis.
Almoçávamos juntas.
Estudávamos juntas.
Dormíamos na casa umas das outras.
Passávamos mais tempo juntas do que com nossas próprias famílias.
Foi através de Bia que conheci a Mansão Castellani.
Passei finais de semana naquela casa.
Churrascos.
Piscina.
Aniversários.
Natal.
Parecia que eu fazia parte da família.
Até conhecer Dominic Castellani.
Ou melhor...
Até ele resolver cruzar meu caminho.
A primeira impressão que tive dele foi exatamente a pior possível.
Arrogante.
Mandão.
Convencido.
O típico cara que sabia que todas as mulheres olhavam para ele.
E fazia questão de lembrar isso para todo mundo.
Foi naquele campus...
Que começou a nossa guerra.
E, sem que eu pudesse imaginar...
Também foi lá que meu destino começou a mudar.
Eu ainda conseguia lembrar do primeiro dia em que aquele homem cruzou meu caminho.
O dia em que descobri que algumas pessoas não precisam fazer parte da nossa vida para deixar marcas nela.
Algumas deixam cicatrizes







