Enquanto eu terminava de arrumar as coisas, o celular tocou alto.
Leonardo ligou: — Fausta, abre a porta. Você até mudou a senha, qual é o seu problema?
Fiquei em silêncio por um instante antes de responder: — Problema nenhum. Leonardo, vamos terminar.
A pessoa do outro lado da linha pareceu não ter escutado uma palavra do que eu disse. A voz dele carregava uma raiva contida:
— A Norah lembrou que você queria comer a comida desse restaurante. Como você não foi, ela fez questão de trazer uma quentinha para você. E o que você faz? Muda a senha e não atende a porta. Fausta, para de fazer birra!
Eu não tinha certeza se ele não tinha escutado eu pedir para terminar,
ou se estava tão acostumado que já considerava meu término como parte da minha birra e das minhas exigências.
Quando abri a boca para repetir, ele já havia desligado na minha cara.
Dei uma risada amarga.
A culpa era minha. Eu amei Leonardo de forma tão escancarada que o mundo inteiro sabia.
Nem ele mesmo acreditava que eu pudesse deixá-lo.
No dia seguinte, fui ao shopping comprar coisas para o apartamento novo. Ao virar no corredor das prateleiras, dei de cara com duas pessoas.
Leonardo carregava várias sacolas, com Norah caminhando ao seu lado.
O sorriso no rosto dos dois congelou no mesmo instante em que me viram.
— Fausta, não entenda mal. O Leonardo veio me ajudar a comprar umas coisas, ele ficou com medo de que eu não conseguisse carregar tudo sozinha.
Norah explicava enquanto tentava se aproximar para pegar na minha mão.
Mas Leonardo a puxou para trás bruscamente:
— Explicar o quê para ela? Ela ainda nem pediu desculpas pelo que fez ontem.
— Norah, você mima demais essa garota. É por isso que ela é tão ingrata.
Norah me olhou com uma expressão de preocupação, mas seguiu obedientemente atrás de Leonardo até o caixa.
Observando as costas deles, senti como se um buraco enorme tivesse se aberto no meu peito.
Leonardo nunca me acompanhava nas compras, dizia que andar pelo shopping era cansativo e problemático demais.
— Se você precisa de algo, é só pedir por delivery, para que ir até lá sofrer?
Mas agora ele estava lá, carregando um monte de sacolas para Norah, sem a menor queixa.
Ao sairmos do shopping, Leonardo guardou tudo no porta-malas.
Norah já estava sentada no banco do passageiro e abaixou o vidro para acenar para mim.
Leonardo falou com naturalidade: — Entra no carro, vou levar vocês para casa.
Quando ele notou meu olhar fixo no adesivo de "Exclusivo da Namorada" colado no painel do banco do passageiro, franziu a testa, impaciente:
— A Norah tem problema na lombar, e o banco da frente é mais espaçoso. Senta lá atrás hoje.
Olha só. Ele se lembrava de todos os hábitos da Norah, lembrava da lombar ruim, lembrava das cólicas.
Mas curiosamente nunca conseguia se lembrar da lesão crônica que eu adquiri por carregar peso sozinha na minha mudança.
Meu nariz ardeu, e forcei a voz para não chorar: — Não precisa. Não é meu caminho.
Norah esticou a mão, tentando soltar o cinto de segurança: — Fausta, que bobagem é essa que você está falando por raiva? Você não quer que eu sente na frente, é isso? Eu saio agora mesmo.
Mas Leonardo colocou a mão sobre o braço dela primeiro, impedindo-a, e soltou uma risada fria:
— Se não é o caminho dela, deixa para lá. Vamos embora.
Assim que as palavras saíram da sua boca, o carro deu a partida e sumiu da minha vista num piscar de olhos.
Comigo, Leonardo parecia nunca ter paciência sobrando.