Mundo de ficçãoIniciar sessãoA Armadilha do Banquete
O palácio Al-Mansour brilhava como um tesouro escondido no coração do deserto, a meia hora de Dubai. Cúpulas douradas refletiam a luz do entardecer, fontes de mármore fazendo o ar cheirar a jasmim, sândalo e poder absoluto. Sheik Khalid Al-Mansour não precisava de motivo para convocar a família. Ele mandava e eles atendiam. Ponto final. Naquela tarde, um único mensageiro percorreu os corredores com a ordem curta e seca: “Jantar familiar esta noite. Todos. Sem desculpas.” Não havia explicação e não precisava. Khalid já sabia de tudo. O relatório sobre Melina Petrova chegara horas antes: noiva de Ferith há seis meses, dançarina russa famosa, a mesma mulher que o confrontara em público duas noites atrás. Ele sorriu, um sorriso frio, quase imperceptível, e decidiu. Em vez de confrontar o filho, testaria. Contratou Melina para dançar naquela mesma noite, no salão privado da família, pagando o triplo do cachê normal. Uma armadilha perfeita. Três corações prestes a colidir sem que ninguém soubesse. Seu filho não confiava na família para apresentar sua segunda noiva, e Melina ia mostrar o quão durona ela seria ao descobrir. Khalid sabia que tinha outro caminho, mas Ferith teve tempo de sobra para fazer a coisa certa. Ferith chegou primeiro, o coração martelando como um derbak descontrolado. Vestia thobe branco impecável, barba aparada, mas os olhos castanhos carregavam sombras. Desde que Melina contara da bronca no show, ele não dormia. Sabia que o pai havia sido o alvo. Sabia que Khalid nunca perdoava afrontas. E agora essa convocação repentina? Ferith suava frio. “Ele descobriu”, pensou, apertando o envelope ainda fechado no bolso interno, a carta que nunca entregara. “Hoje ele vai me destruir.” No grande salão de jantar, uma mesa oval baixa de mármore negro ocupava o centro, cercada de almofadas de seda. No meio dela, um pequeno palco oval elevado, na verdade, uma extensão da própria mesa, e permitia que os convidados comessem e bebessem enquanto assistiam ao espetáculo. Velas perfumadas, pratos de cordeiro com açafrão, tâmaras recheadas e narguilés já estavam dispostos. A família começou a chegar. Primeira a entrar foi Soraya, a segunda esposa. Aos quarenta e oito anos, ainda bela, mas com uma amargura que endurecia cada traço. Olhos pretos estreitos, cabelos presos num coque severo sob o hijab bordado. Mãe de duas filhas já casadas, uma de vinte anos morando em Abu Dhabi, outra de dezessete recém-casada em Riad, Soraya carregava o peso de saber que nunca dera ao Sheik um filho homem. Ela implicava secretamente com a terceira esposa em cada oportunidade: um comentário velado aqui, um olhar de pena ali. Sentou-se à direita da almofada principal, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Que honra sermos chamados assim, de última hora — murmurou ela para ninguém em especial, a voz doce demais para ser sincera. Logo atrás veio Noor, a terceira esposa. Trinta e oito anos, pele morena suave, olhos castanhos gentis e um sorriso que aceitava o mundo como era. Mãe de Laila, a menina de dezesseis anos que entrava ao seu lado, prestes a ser noivada com o filho de um aliado importante. Noor nunca reclamava do seu lugar. Era doce, serena, e tratava Soraya com uma gentileza que só irritava mais a outra. — Que bom ver todos juntos — disse Noor baixinho, acomodando Laila ao seu lado. A garota era linda, cabelos longos ondulados, olhos brilhantes de expectativa pelo noivado iminente. Ferith sentou-se à esquerda da almofada vazia do pai, como sempre. Ao seu lado, quase colada, estava Jasmine, vinte e dois anos, filha de um ministro aliado, pele dourada, cabelos castanhos sedosos e um sorriso ensaiado. Soraya havia “casualmente” convidado a família dela para o jantar, insistindo que Jasmine se sentasse ali. A madrasta mais velha não perdia oportunidade de unir o herdeiro a uma “moça adequada”. Ferith mal a notava, mas Jasmine pousou a mão delicada no braço dele, rindo de algo que ninguém havia dito. — Você parece tenso, Ferith — sussurrou ela, inclinando-se perto demais. — Posso ajudar a relaxar depois do jantar? Ele forçou um sorriso educado, mas o estômago revirava. “Onde está meu pai? O que ele planeja?” Os amigos e primos próximos já enchiam as almofadas quando o mestre de cerimônias anunciou: — Para honrar esta noite familiar, o Sheik contratou a mais talentosa dançarina do momento. Direto de Moscou: Melina Petrova! Ferith sentiu o sangue congelar. Melina entrou pelo arco lateral, o coração leve. Achava que era apenas mais um contrato privado, o cachê altíssimo, família rica, nada de especial. Vestia o traje que reservava para shows íntimos: sutiã dourado cravejado de rubis, saia vermelha profunda com fendas até o alto da coxa, véu transparente e moedas tilintando na cintura fina. Cabelos pretos longos soltos como uma cascata de seda, olhos verdes realçados por kajal. A pele branca brilhava sob as luzes suaves. Ela subiu no palco oval no centro da mesa. Os convidados já comiam, bebiam, conversavam baixo. Quando seus olhos varreram o salão e encontraram Ferith… ela sorriu. Um sorriso íntimo, cheio de amor e cumplicidade, como quem diz “olha só onde eu vim parar”. Ferith não retribuiu. Seu rosto estava pálido, os olhos arregalados de puro terror. Ele não piscou, não sorriu. Apenas ficou ali, paralisado, enquanto Jasmine ria ao seu lado e tocava seu braço novamente. Melina franziu levemente a testa. “Estranho… deve ser estresse do trabalho. Depois conversamos.” E começou a dançar. A música iniciou suave, derbak lento, cítara sedutora. Melina ergueu os braços, quadris ondulando em círculos perfeitos. As moedas tilintavam no ritmo dos passos. Ela dançava para a família toda, sorrindo para Noor, ignorando os olhares afiados de Soraya, piscando para Laila que assistia fascinada. Mas algo no ar mudara. Então ele entrou. Sheik Khalid Al-Mansour surgiu pelo arco principal, alto, imponente, thobe branco bordado em ouro, kohl preto delineando os olhos castanhos esverdeados. A barba curta, os fios grisalhos nas têmporas, os ombros largos que pareciam carregar o peso de um emirado inteiro. Ele caminhou devagar, como se o tempo lhe pertencesse, e sentou-se na almofada central — exatamente de frente para o palco onde Melina dançava. No instante em que os olhos deles se encontraram, o mundo desapareceu.






