Capítulo 7

A dança e a revelação.

Para Melina, as vozes sumiram. As almofadas, os pratos, as pessoas, tudo evaporou. Só existia ele. O homem que a encarara no show anterior. O mesmo olhar que queimara sua pele. Agora, a centímetros de distância, mais perto, sentado como um rei enquanto ela dançava sobre a mesa onde ele comia. O coração dela acelerou de forma selvagem. Uma onda de desafio e desejo puro a invadiu. Não sabia se era coincidência ou armado. Ela não sabia por quê. Só sabia que precisava dançar para ele. Somente para ele.

E a dança mudou.

Os quadris dela ganharam um ritmo mais lento, mais profundo, quase provocante. Cada ondulação parecia uma pergunta: “Você me ignora agora?” Os braços traçavam arcos sensuais, o véu voava como uma promessa. Ela girou devagar, a saia vermelha abrindo-se como pétalas, revelando flashes de pele clara. Os olhos verdes fixaram-se nos dele, desafiando, seduzindo, hipnotizando. Um leve sorriso nos lábios vermelhos, como quem diz “eu parei seu salão uma vez… e posso fazer pior”.

Khalid manteve o rosto de pedra. Mandíbula rígida. Mãos firmes segurando a taça de chá. Mas por dentro… ele queimava. A mesma avalanche de desejo que sentira no show agora era mil vezes mais forte. Ver aquela mulher, a noiva do próprio filho, dançando para ele, na mesa da sua família, com aquele olhar de fogo russo… Era uma tortura deliciosa. Ele queria se levantar, queria tocá-la, queria possuí-la ali mesmo. Mas Khalid Al-Mansour não demonstrava fraqueza. Apenas inclinou a cabeça quase imperceptivelmente, os olhos esverdeados brilhando com algo escuro e perigoso.

Ferith assistia tudo, o suor escorrendo pelas costas. Via a dança da noiva mudar. Via o pai entrar e o ar mudar junto. Via Melina dançando como nunca dançou para ele, com fome, com desafio, com sedução pura. E via Jasmine ao seu lado, sorrindo, enquanto Soraya observava tudo com um olhar calculista.

— Que dançarina… exótica — murmurou Soraya para Noor, a voz carregada de veneno disfarçado. — Tão… ousada. Não acha, querida?

Noor apenas sorriu doce:

— Ela é talentosa. Laila está encantada.

Laila batia palmas baixinho, fascinada.

Melina continuava. Cada giro era uma flecha dirigida ao Sheik. Ela arqueou as costas, os cabelos negros chicoteando o ar, o corpo inteiro respondendo à presença dele como um instrumento afinado. O desafio estava no quadril que ondulava e descia mais perto da borda do palco, quase tocando a taça dele. A sedução, no olhar que não desviava. Parecia que os dois travavam uma batalha silenciosa no meio do banquete.

Quando a música chegou ao clímax e Melina terminou com um giro dramático, ajoelhando-se bem diante da almofada do Sheik, o salão aplaudiu educadamente. Mas os três, Melina, Ferith e Khalid, estavam presos num triângulo invisível.

Melina ergueu o olhar. Encontrou os olhos de Khalid. O mundo voltou devagar, só então percebeu Ferith ao lado, ainda sem sorrir. E Jasmine colada nele.

Ferith sentiu o chão abrir. O pai sabia. Claro que sabia. E tinha armado tudo.

Khalid ergueu a taça num brinde silencioso, só para ela. Um gesto mínimo. Ninguém mais notou. Mas Melina sentiu o calor daquele olhar atravessá-la como fogo do deserto.

Ela desceu do palco, o coração em disparada, sem entender por que aquele homem, cujo nome ainda não sabia, havia roubado todo o oxigênio do salão. Ferith finalmente se levantou, forçando um sorriso rígido, e foi até ela.

— Melina… que surpresa — disse ele, a voz rouca.

Ela riu, ainda ofegante, tocando o braço dele.

— Surpresa boa, espero. Depois explico tudo. Mas… você está bem? Parece que viu um fantasma.

Ferith não respondeu. Porque o fantasma era real. E estava sentado a três metros, observando cada movimento deles com olhos de predador paciente.

Soraya sussurrou para Jasmine:

— Fique perto dele esta noite, querida. Dançarinas vêm e vão. Uma esposa de verdade… fica.

Noor apenas observava tudo com serenidade, alheia à tempestade.

E Khalid Al-Mansour, pela primeira vez em décadas, sentiu o peito apertar de algo que não era dever nem poder.

Era desejo, puro, perigoso, irreversível.

O banquete mal começara. Mas o destino dos três já estava selado naquela mesa oval, entre pratos de ouro e uma dança que nunca mais seria esquecida.

Os aplausos educados ainda ecoavam no salão quando Melina desceu do palco oval com o coração acelerado. O suor brilhava na pele clara do colo, os cabelos pretos longos grudavam levemente nas costas, mas os olhos verdes faiscavam de adrenalina. Ela sentiu o olhar do Sheik queimando em sua nuca, aquele homem misterioso, sentado como um rei, que parecia sugar todo o ar do ambiente. Ferith estava ao lado dela agora, o toque na sua cintura rígido, quase possessivo. Mas se afastou quando Jasmine, a jovem bonita de cabelos castanhos sedosos, observava tudo com um sorriso falso, colando demais ao noivo.

— Foi… incrível — murmurou Ferith, a voz baixa e tensa. — Mas precisamos conversar depois.

Melina sorriu, ainda ofegante, achando que era apenas o estresse habitual e que ele estava trabalhando.

— Depois do jantar, amor. Agora vem a segunda dança. O contrato pedia 3. E eu quero que seja ainda melhor.

Antes que ele pudesse responder, a música mudou. O derbak acelerou, a cítara ganhou ritmo alegre e pulsante, uma melodia mais animada, quase festiva, com toques de flauta que convidavam ao movimento. Melina subiu novamente no palco oval, aquela mesa elevada onde todos comiam e bebiam e ergueu os braços. Os quadris começaram a ondular rápido, os pés descalços batendo no mármore com precisão. As moedas do sutiã dourado tilintavam como sinos de festa, a saia vermelha rodopiava, revelando flashes das pernas torneadas. Era uma dança de celebração, cheia de energia, sorrisos e giros rápidos que faziam os cabelos negros voarem como um chicote de seda.

Os convidados batiam palmas no ritmo. Laila, a menina de dezesseis anos sentada ao lado de Noor, assistia com olhos brilhantes de admiração, os pés mexendo discretamente sob a mesa.

Melina percebeu. Parou por um segundo no meio de um giro, estendeu a mão para a garota e sorriu com cumplicidade.

— Vem, moça alegre! Dança comigo! Uma mulher deve aprender a se mover com liberdade.

O salão inteiro silenciou por um instante. Laila corou, olhou imediatamente para o pai, o Sheik Khalid Al-Mansour, pedindo permissão com o olhar. Era tradição: nenhuma filha dançava em público sem aprovação do patriarca.

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