Capítulo 05

POV Serena

Dia seguinte…

Abro os olhos.

O sol invade o quarto.

E, mais uma vez, adormeci conversando com Iron.

Passo a mão no rosto.

Isso está ficando perigoso.

Levanto e vou até a sala.

Aurora está sentada no sofá, notebook no colo.

— Bom dia, prima!

— Aurora… eu decidi. Vou aceitar o emprego na mansão do Senhor Enzo.

Ela praticamente salta do sofá.

— Isso aí, garota! Sua chance!

— Não é isso… — balanço a cabeça — Eu vou aceitar porque ele ofereceu pagar os estudos da Olívia. Eu quero que ela estude em um lugar bom. Tenha oportunidades.

Aurora se aproxima e segura minha mão.

— Ela vai conseguir, prima. Nossa menina vai conquistar tudo que foi tirado de nós duas.

Meus olhos ardem.

— Vamos lutar pra isso acontecer… Não sei o que seria de mim sem você.

Nos abraçamos forte.

E então sinto dois bracinhos pequenos envolvendo nós duas.

Rimos.

— Alguém acordou? — Aurora provoca.

— É abraço em família e não me chamaram!

Soltamos o abraço e puxo Olívia para o meu colo.

— Filha… precisamos conversar.

Ela me olha curiosa.

— A mamãe conseguiu um emprego… em uma mansão. E vamos precisar ficar lá durante a semana.

Ela franze a testa.

— Mas… e a Aurora?

— Ela vai ficar aqui cuidando de tudo pra gente. E nos finais de semana voltamos. O que acha?

Ela dá de ombros, tentando parecer corajosa.

— É melhor pra nós, né mamãe?

Meu coração aperta.

— Você é muito madura pra sua idade, sabia?

Ela sorri.

— Só tem mais um detalhe…

— Qual?

Respiro fundo.

— Você vai precisar mudar de escola. É um colégio melhor. Vai ser importante para o seu futuro.

O sorriso dela desaparece.

— Não, mamãe… eu amo meus amigos.

Ela desce do meu colo e corre para o quarto.

Vou atrás.

— Querida…

— Não quero ir!

Sento na cama ao lado dela.

— Filha, você pode vir pra vila quando quiser visitar seus amigos. E eu prometo… se você não gostar da escola nova, a gente volta. Sem discussão.

Ela me olha desconfiada.

— Promete?

Seguro a mãozinha dela.

— Prometo. E juro.

Beijo os dedinhos dela.

Ela sorri devagar.

— Tá bom…

Abraço minha menina forte.

E então me levanto.

— Agora preciso ir aceitar o emprego.

Saio do quarto com o coração dividido.

Mas decidida.

Mais tarde…

Estaciono meu carro em frente à mansão.

Respiro fundo antes de descer.

É oficial.

Caminho até a entrada.

O segurança que esteve na minha porta me reconhece e apenas faz um leve aceno com a cabeça, permitindo minha passagem.

Assim que entro na sala principal…

— Moça bonita da dispensa!

Abro um sorriso automático.

Joseph corre até mim.

Me agacho para ficar na altura dele.

— Bom dia, mocinho!

— Trouxe sua filha hoje?

— Ainda não… mas em breve estaremos aqui com você.

Os olhos dele brilham.

— Isso!

Ele começa a fazer uma dancinha engraçada.

Dou risada.

E então…

Uma tosse seca ecoa pela sala.

Me viro.

Não reconheço o homem.

Bonito. Elegante. Sorriso fácil.

Diferente do meu chefe.

— Joseph, o motorista está esperando. Escola, garotinho.

Joseph bufa e me dá tchau com as mãos antes de sair.

Fico observando ele ir.

Esse menino desperta algo em mim.

Vontade de proteger.

De cuidar.

O homem se aproxima e estende a mão.

— Peter Clain. Advogado e assistente pessoal da família.

Seguro a mão dele firme.

Ele me observa com curiosidade.

Demais até.

— E meu amigo.

A voz grave interrompe.

Meu corpo reage antes mesmo de eu virar.

Enzo.

Ele atravessa a sala com passos firmes.

O olhar dele vai direto para nossas mãos ainda unidas.

Peter solta imediatamente.

— Estava me apresentando, Enzo.

Enzo não responde.

Apenas me encara.

A intensidade daquele olhar me arrepia inteira.

— Presumo que veio aceitar a proposta.

— Sim. Mas queria conversar antes, se puder.

Ele assente.

— Vamos.

O escritório é amplo. Silencioso.

Assim que a porta se fecha, meu coração começa a bater mais rápido.

Ele se aproxima.

Não muito.

Mas o suficiente para que eu sinta o perfume dele outra vez.

— Sente-se. Quer algo? Água? Café?

— Não, obrigada. Só quero alinhar os detalhes do contrato.

Ele se senta.

Cruza as mãos sobre a mesa.

E me observa como se estivesse me estudando.

— Como já disse… salário integral, escola para sua filha e acomodação durante a semana.

— Apenas durante a semana. Finais de semana não estão inclusos.

Ele ergue levemente o queixo.

Coça a barba devagar.

Extremamente devagar.

Meu estômago aperta.

— A senhorita é casada? Ou namora? Por isso precisa voltar?

Engasgo.

— Já fui casada. Hoje não mais. Mas minha prima mora conosco. Não vou abandonar minha casa.

Ele sustenta meu olhar por alguns segundos.

— Finais de semana liberada.

Faz uma pausa.

— Alguma exigência?

— Acho que não… começo amanhã?

Ele inclina o corpo para frente.

— Não. Preciso de você hoje à noite.

Meu coração tropeça.

— Por quê?

— Haverá um jantar. Joseph não pode participar. Quero que fique com ele no andar de cima.

Assinto.

— Tudo bem. Mas minha filha só vem amanhã. Preciso resolver a transferência escolar.

— Eu resolvo isso. Ou melhor… o Peter.

Respiro fundo.

Antes que eu pense…

— Você parece gostar de dar ordens.

Silêncio.

Meu Deus.

Levo a mão à boca.

Ele ri.

Baixo. Controlado.

— E você parece odiar obedecer.

Meu corpo esquenta.

Me levanto rapidamente.

— Com licença.

— Serena.

Paro na porta.

— Sim?

— Conheça a casa antes de ir. E principalmente minha mãe. Ela está ansiosa.

Meu estômago afunda.

A mãe dele?

Saio da sala tentando manter a postura.

Peter se aproxima.

— Posso te mostrar tudo. Por onde quer começar?

Sorrio.

— Você decide.

Ele inclina a cabeça.

— Então vou começar pela parte favorita minha e do Joseph.

— Vocês são próximos?

— Gosto dele. E ele de mim.

Seguimos em direção à área externa.

Mas antes de virar o corredor…

Sinto.

O olhar.

Volto levemente o rosto.

Enzo está parado na porta do escritório.

Observando.

A mandíbula tensa.

E algo naquele olhar…

Não é profissional.

É territorial.

E isso me arrepia inteira.

POV Enzo

Por que ela está rindo assim com o Peter?

E ele… sorrindo daquele jeito?

Era só o que faltava.

Observo os dois atravessando o jardim, conversando como se já se conhecessem há anos.

Ela simplesmente ignora minha presença.

Sou seu chefe, mocinha.

Fecho a porta do escritório com mais força do que deveria.

Vou até a janela.

Eles estão próximos à piscina.

Ela ri.

Solta.

Leve.

Nunca vi aquele sorriso dentro dessa casa.

Peter sabe ser engraçado. Eu conheço aquele sorriso dele.

Espero que não esteja flertando com a minha babá.

Respiro fundo.

A porta se abre.

— Cadê a nova babá, querido?

Minha mãe.

Aponto para o jardim.

Ela se aproxima da janela e observa Serena com atenção.

— Minha nossa… que mulher linda.

Cruzo os braços.

— Nisso concordamos.

— E parece que se deu muito bem com o Peter…

Engulo seco.

Me afasto da janela imediatamente.

— Jamais vou permitir esse tipo de coisa aqui. Eles são funcionários.

Ela me olha como se estivesse analisando um caso interessante.

— Enzo… você não é dono deles.

— Sou o chefe. E ela acabou de chegar. Não quero confusão.

Minha mãe arqueia a sobrancelha.

— Filho… eu poderia jurar que você está com ciúmes. Agora não sei se é dele… ou dela.

Solto uma gargalhada.

— Eu mal conheço essa mulher, mãe. É apenas a babá do Joseph. E Peter… que ele faça o que quiser.

Ela sorri daquele jeito que me desarma desde criança.

— Claro.

Muda de assunto.

— E hoje à noite? Ela poderá ajudar?

— Sim. Ela começa hoje. A mudança definitiva será amanhã. Ela trará a filha.

— Filha?

— Sim. A menina parece encantadora. Vai fazer bem ao Joseph.

Minha mãe assente, satisfeita.

— Então quero conhecê-la.

Ela sai.

Volto para a janela.

Agora os dois estão ainda mais próximos da piscina.

O que estão conversando?

Droga.

Saio do escritório.

Me aproximo deles.

Peter sorri.

— Enzo, estava contando para ela como você me ensinou a nadar quando éramos adolescentes.

Ela me olha, levemente envergonhada.

O rosto corado.

Perigoso.

— Não sabe nadar, senhorita?

Ela hesita.

— Digamos que não… nunca foi uma prioridade.

— Morando em Miami?

Ela baixa o olhar.

Silêncio.

Minha mãe se aproxima nesse momento.

— Muito prazer, querida. Katherine Velmont.

Serena aperta a mão dela com educação.

— É um prazer, senhora.

Minha mãe já está encantada.

Percebo.

Peter recebe uma ligação e se afasta.

Aproveito.

— Mãe, pode mostrar o restante da casa? Eu e Peter precisamos resolver algo.

Elas saem juntas.

Observo Serena desaparecer pelo corredor ao lado da minha mãe.

Algo dentro de mim aperta.

Peter volta.

Me aproximo dele lentamente.

— Está proibido de flertar com ela. Entendeu?

Ele pisca, confuso.

— O quê?

— Eu te conheço.

Ele segura o riso.

— Está ficando paranoico.

— A maioria das funcionárias daqui tem uma queda por você.

— Engraçado… porque a queda sempre foi por você.

Dou um passo à frente.

— Não me irrita.

Ele ri.

— Relaxa. Não estou interessado na sua babá.

“Minha babá.”

Droga.

Ele percebe o erro e sorri de lado.

— Vou tentar me comportar, prometo.

Avanço para cima dele.

Ele sai correndo pelo jardim, rindo.

— Estou brincando! Tenho uma concessionária para visitar. Nos vemos no jantar, amigo!

Fico parado.

Mãos na cintura.

Respiração pesada.

Esse infeliz não vale nada.

Mas é meu melhor amigo.

E o pior…

Talvez ele esteja certo.

Talvez eu esteja ficando paranoico.

Ou talvez…

Eu esteja começando a perceber que não quero dividir aquela mulher com ninguém.

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