Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Serena
Dia seguinte… Abro os olhos. O sol invade o quarto. E, mais uma vez, adormeci conversando com Iron. Passo a mão no rosto. Isso está ficando perigoso. Levanto e vou até a sala. Aurora está sentada no sofá, notebook no colo. — Bom dia, prima! — Aurora… eu decidi. Vou aceitar o emprego na mansão do Senhor Enzo. Ela praticamente salta do sofá. — Isso aí, garota! Sua chance! — Não é isso… — balanço a cabeça — Eu vou aceitar porque ele ofereceu pagar os estudos da Olívia. Eu quero que ela estude em um lugar bom. Tenha oportunidades. Aurora se aproxima e segura minha mão. — Ela vai conseguir, prima. Nossa menina vai conquistar tudo que foi tirado de nós duas. Meus olhos ardem. — Vamos lutar pra isso acontecer… Não sei o que seria de mim sem você. Nos abraçamos forte. E então sinto dois bracinhos pequenos envolvendo nós duas. Rimos. — Alguém acordou? — Aurora provoca. — É abraço em família e não me chamaram! Soltamos o abraço e puxo Olívia para o meu colo. — Filha… precisamos conversar. Ela me olha curiosa. — A mamãe conseguiu um emprego… em uma mansão. E vamos precisar ficar lá durante a semana. Ela franze a testa. — Mas… e a Aurora? — Ela vai ficar aqui cuidando de tudo pra gente. E nos finais de semana voltamos. O que acha? Ela dá de ombros, tentando parecer corajosa. — É melhor pra nós, né mamãe? Meu coração aperta. — Você é muito madura pra sua idade, sabia? Ela sorri. — Só tem mais um detalhe… — Qual? Respiro fundo. — Você vai precisar mudar de escola. É um colégio melhor. Vai ser importante para o seu futuro. O sorriso dela desaparece. — Não, mamãe… eu amo meus amigos. Ela desce do meu colo e corre para o quarto. Vou atrás. — Querida… — Não quero ir! Sento na cama ao lado dela. — Filha, você pode vir pra vila quando quiser visitar seus amigos. E eu prometo… se você não gostar da escola nova, a gente volta. Sem discussão. Ela me olha desconfiada. — Promete? Seguro a mãozinha dela. — Prometo. E juro. Beijo os dedinhos dela. Ela sorri devagar. — Tá bom… Abraço minha menina forte. E então me levanto. — Agora preciso ir aceitar o emprego. Saio do quarto com o coração dividido. Mas decidida. Mais tarde… Estaciono meu carro em frente à mansão. Respiro fundo antes de descer. É oficial. Caminho até a entrada. O segurança que esteve na minha porta me reconhece e apenas faz um leve aceno com a cabeça, permitindo minha passagem. Assim que entro na sala principal… — Moça bonita da dispensa! Abro um sorriso automático. Joseph corre até mim. Me agacho para ficar na altura dele. — Bom dia, mocinho! — Trouxe sua filha hoje? — Ainda não… mas em breve estaremos aqui com você. Os olhos dele brilham. — Isso! Ele começa a fazer uma dancinha engraçada. Dou risada. E então… Uma tosse seca ecoa pela sala. Me viro. Não reconheço o homem. Bonito. Elegante. Sorriso fácil. Diferente do meu chefe. — Joseph, o motorista está esperando. Escola, garotinho. Joseph bufa e me dá tchau com as mãos antes de sair. Fico observando ele ir. Esse menino desperta algo em mim. Vontade de proteger. De cuidar. O homem se aproxima e estende a mão. — Peter Clain. Advogado e assistente pessoal da família. Seguro a mão dele firme. Ele me observa com curiosidade. Demais até. — E meu amigo. A voz grave interrompe. Meu corpo reage antes mesmo de eu virar. Enzo. Ele atravessa a sala com passos firmes. O olhar dele vai direto para nossas mãos ainda unidas. Peter solta imediatamente. — Estava me apresentando, Enzo. Enzo não responde. Apenas me encara. A intensidade daquele olhar me arrepia inteira. — Presumo que veio aceitar a proposta. — Sim. Mas queria conversar antes, se puder. Ele assente. — Vamos. O escritório é amplo. Silencioso. Assim que a porta se fecha, meu coração começa a bater mais rápido. Ele se aproxima. Não muito. Mas o suficiente para que eu sinta o perfume dele outra vez. — Sente-se. Quer algo? Água? Café? — Não, obrigada. Só quero alinhar os detalhes do contrato. Ele se senta. Cruza as mãos sobre a mesa. E me observa como se estivesse me estudando. — Como já disse… salário integral, escola para sua filha e acomodação durante a semana. — Apenas durante a semana. Finais de semana não estão inclusos. Ele ergue levemente o queixo. Coça a barba devagar. Extremamente devagar. Meu estômago aperta. — A senhorita é casada? Ou namora? Por isso precisa voltar? Engasgo. — Já fui casada. Hoje não mais. Mas minha prima mora conosco. Não vou abandonar minha casa. Ele sustenta meu olhar por alguns segundos. — Finais de semana liberada. Faz uma pausa. — Alguma exigência? — Acho que não… começo amanhã? Ele inclina o corpo para frente. — Não. Preciso de você hoje à noite. Meu coração tropeça. — Por quê? — Haverá um jantar. Joseph não pode participar. Quero que fique com ele no andar de cima. Assinto. — Tudo bem. Mas minha filha só vem amanhã. Preciso resolver a transferência escolar. — Eu resolvo isso. Ou melhor… o Peter. Respiro fundo. Antes que eu pense… — Você parece gostar de dar ordens. Silêncio. Meu Deus. Levo a mão à boca. Ele ri. Baixo. Controlado. — E você parece odiar obedecer. Meu corpo esquenta. Me levanto rapidamente. — Com licença. — Serena. Paro na porta. — Sim? — Conheça a casa antes de ir. E principalmente minha mãe. Ela está ansiosa. Meu estômago afunda. A mãe dele? Saio da sala tentando manter a postura. Peter se aproxima. — Posso te mostrar tudo. Por onde quer começar? Sorrio. — Você decide. Ele inclina a cabeça. — Então vou começar pela parte favorita minha e do Joseph. — Vocês são próximos? — Gosto dele. E ele de mim. Seguimos em direção à área externa. Mas antes de virar o corredor… Sinto. O olhar. Volto levemente o rosto. Enzo está parado na porta do escritório. Observando. A mandíbula tensa. E algo naquele olhar… Não é profissional. É territorial. E isso me arrepia inteira. POV Enzo Por que ela está rindo assim com o Peter? E ele… sorrindo daquele jeito? Era só o que faltava. Observo os dois atravessando o jardim, conversando como se já se conhecessem há anos. Ela simplesmente ignora minha presença. Sou seu chefe, mocinha. Fecho a porta do escritório com mais força do que deveria. Vou até a janela. Eles estão próximos à piscina. Ela ri. Solta. Leve. Nunca vi aquele sorriso dentro dessa casa. Peter sabe ser engraçado. Eu conheço aquele sorriso dele. Espero que não esteja flertando com a minha babá. Respiro fundo. A porta se abre. — Cadê a nova babá, querido? Minha mãe. Aponto para o jardim. Ela se aproxima da janela e observa Serena com atenção. — Minha nossa… que mulher linda. Cruzo os braços. — Nisso concordamos. — E parece que se deu muito bem com o Peter… Engulo seco. Me afasto da janela imediatamente. — Jamais vou permitir esse tipo de coisa aqui. Eles são funcionários. Ela me olha como se estivesse analisando um caso interessante. — Enzo… você não é dono deles. — Sou o chefe. E ela acabou de chegar. Não quero confusão. Minha mãe arqueia a sobrancelha. — Filho… eu poderia jurar que você está com ciúmes. Agora não sei se é dele… ou dela. Solto uma gargalhada. — Eu mal conheço essa mulher, mãe. É apenas a babá do Joseph. E Peter… que ele faça o que quiser. Ela sorri daquele jeito que me desarma desde criança. — Claro. Muda de assunto. — E hoje à noite? Ela poderá ajudar? — Sim. Ela começa hoje. A mudança definitiva será amanhã. Ela trará a filha. — Filha? — Sim. A menina parece encantadora. Vai fazer bem ao Joseph. Minha mãe assente, satisfeita. — Então quero conhecê-la. Ela sai. Volto para a janela. Agora os dois estão ainda mais próximos da piscina. O que estão conversando? Droga. Saio do escritório. Me aproximo deles. Peter sorri. — Enzo, estava contando para ela como você me ensinou a nadar quando éramos adolescentes. Ela me olha, levemente envergonhada. O rosto corado. Perigoso. — Não sabe nadar, senhorita? Ela hesita. — Digamos que não… nunca foi uma prioridade. — Morando em Miami? Ela baixa o olhar. Silêncio. Minha mãe se aproxima nesse momento. — Muito prazer, querida. Katherine Velmont. Serena aperta a mão dela com educação. — É um prazer, senhora. Minha mãe já está encantada. Percebo. Peter recebe uma ligação e se afasta. Aproveito. — Mãe, pode mostrar o restante da casa? Eu e Peter precisamos resolver algo. Elas saem juntas. Observo Serena desaparecer pelo corredor ao lado da minha mãe. Algo dentro de mim aperta. Peter volta. Me aproximo dele lentamente. — Está proibido de flertar com ela. Entendeu? Ele pisca, confuso. — O quê? — Eu te conheço. Ele segura o riso. — Está ficando paranoico. — A maioria das funcionárias daqui tem uma queda por você. — Engraçado… porque a queda sempre foi por você. Dou um passo à frente. — Não me irrita. Ele ri. — Relaxa. Não estou interessado na sua babá. “Minha babá.” Droga. Ele percebe o erro e sorri de lado. — Vou tentar me comportar, prometo. Avanço para cima dele. Ele sai correndo pelo jardim, rindo. — Estou brincando! Tenho uma concessionária para visitar. Nos vemos no jantar, amigo! Fico parado. Mãos na cintura. Respiração pesada. Esse infeliz não vale nada. Mas é meu melhor amigo. E o pior… Talvez ele esteja certo. Talvez eu esteja ficando paranoico. Ou talvez… Eu esteja começando a perceber que não quero dividir aquela mulher com ninguém.






