Ao entrar no táxi, informei o destino final. O motorista deu uma boa olhada para o conjunto habitacional decadente de onde eu saía e puxou assunto num tom descontraído:
— Nossa, moça, a senhora está dando um salto e tanto na vida com essa mudança.
Lancei um olhar indiferente pela janela antes de abaixar a cabeça para focar no celular.
— Pois é. Estou me mudando para organizar os preparativos do casamento com o meu noivo.
— Meus parabéns! O pessoal que mora naqueles condomínios fechados tem muito dinheiro.
Sem render conversa, dediquei minha atenção ao roteiro enviado pelo celebrante do casamento, ajustei uns detalhes e devolvi o arquivo. Ao descer do carro, caminhei por alguns minutos arrastando minha mala pelas calçadas do condomínio de luxo. De repente, o som agressivo de uma freada brusca cortou o ar, seguido por um grito furioso.
— Sabrina, como você descobriu onde eu moro? Andou me investigando? — Esbravejou Lucas, saindo do veículo com os olhos fixos na minha bagagem, bufando de raiva. — Você perdeu o juízo a ponto de bater na porta dos meus pais para exigir um compromisso oficial?
Balancei a cabeça com tranquilidade.
— Não viaja. Eu nem fazia ideia de que você morava por aqui.
O rosto dele assumiu uma expressão sombria. Ele agarrou o meu pulso com violência, arrastando-me em direção ao carro.
— Para de fingimento! Eu nunca tinha percebido o quanto você é calculista.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
— Antes eu era a idiota ingênua, agora sou a calculista. Afinal de contas, Lucas, o que eu sou para você?
Assim que a porta bateu, ele me imprensou contra o vidro e me beijou à força. Foi um ataque agressivo, rasgando meus lábios até que o gosto metálico de sangue inundasse as nossas bocas. Logo depois, ele abaixou o olhar e adotou um tom bem mais brando:
— Sabrina, você é a mulher que eu amo. Mas nós precisamos levar essa história de casamento com calma. Eu preciso, pelo menos, esperar a Iara casar primeiro e ter a certeza de que ela está feliz...
Dei uma risada abafada enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto e pingavam nas mãos dele.
— Eu não tenho mais tempo para esperar.
Assim que peguei os papéis, a primeira pessoa para quem contei foi a minha avó.
A saúde dela tinha até melhorado com a boa notícia, e ela contava os dias para me ver vestida de noiva. Como eu poderia chegar em casa agora e confessar que sua neta havia sido tratada como um cachorro de estimação durante sete anos inteiros?
Vendo que eu não ia ceder, a paciência do Lucas evaporou. Ele acertou um soco com toda a força a milímetros do meu rosto, fazendo a janela vibrar com o impacto assustador.
— É por isso que os seus próprios pais te abandonaram, Sabrina! Quem é que consegue suportar esse seu gênio impossível? Você quer tanto dar uma festa, mas tem sequer um convidado para chamar do seu lado?
Meu peito subia e descia em uma respiração ofegante e descontrolada. No passado, esse mesmo homem me abraçava com ternura e beijava cada uma das minhas cicatrizes. Ele costumava sussurrar que a culpa nunca foi minha, pedindo para eu esquecer as pessoas que me machucaram e focar apenas no nosso futuro maravilhoso.
Levantei a mão e acertei um tapa estalado no rosto dele.
— Vai para o inferno!
Com um olhar carregado de ódio, ele abriu a porta do passageiro e me empurrou para fora sem a menor cerimônia.
— Já que você não sabe valorizar o que tem, então está tudo acabado!
Caí estatelada no asfalto duro. O pneu do carro passou a um triz de esmagar meus dedos enquanto ele arrancava com o carro. Levantei aos tropeços, dei dois passos na tentativa inútil de alcançá-lo e caí de novo, gritando o nome dele a plenos pulmões.
Pelo espelho retrovisor, Lucas observou a cena com um sorriso de escárnio.
— Que mulher orgulhosa. Diz que não quer, mas corre atrás. — Murmurou ele para si mesmo.
O esportivo não diminuiu a velocidade em momento algum. Ele estava decidido a me dar uma lição, a me fazer rastejar de volta implorando por perdão.
O que aquele idiota nem imaginava era que a minha única intenção era recuperar a mala no porta-malas. Afinal, os meus documentos estavam lá dentro, e eu precisava deles para oficializar a união no cartório logo na manhã seguinte.