Capítulo 2
— Sabrina, será que você não pode deixar de ser tão cabeça-dura com essas bobagens? — Esbravejou Lucas, batendo a porta com força ao sair.

Fiquei sentada no sofá em um silêncio profundo, desenrolando as várias voltas da atadura antes de colar um curativo simples no machucado.

Eu já deveria ter percebido há muito tempo que nós dois pertencíamos a mundos completamente diferentes. Afinal, ele não sabia sequer fazer um curativo básico. O homem que conseguia arruinar até um macarrão instantâneo havia feito questão de preparar aquele jantar à luz de velas, prometendo me surpreender com pratos incríveis.

O bife ancho importado, o vinho de safra especial e o bolo feito sob encomenda por um chef particular vieram, com certeza, de algum restaurante sofisticado. Até as velas, que pareciam o detalhe mais insignificante, eram de uma marca caríssima de aromaterapia.

No entanto, bastou um acesso de raiva para que o Lucas virasse a mesa e destruísse num piscar de olhos o equivalente a três meses do meu salário, transformando tudo em lixo espalhado pelo chão.

As manchas de vinho tinto arruinaram a parede.

"A dona do apartamento jamais vai me devolver o depósito-caução depois do estrago de hoje", pensei com amargura.

Em meio àquele caos, comecei a juntar minhas coisas e mandei uma mensagem para a proprietária avisando que iria rescindir o contrato de aluguel.

Um aviso sonoro quebrou o silêncio atrás de mim assim que o texto foi enviado. Virei a cabeça e notei que o notebook do Lucas continuava ligado, pois a ideia inicial era assistirmos a um filme juntos. Na tela, em um grupo de mensagens com umas oito pessoas, a administradora Iara tinha acabado de mandar um print da minha mensagem de cancelamento do aluguel.

[Meu Deus, olha o nível de pobreza da garota! Ela ainda tem a cara de pau de perguntar sobre a caução. Esse é o pior imóvel que eu tenho no meu nome, e só de saber que ela morou lá já me dá nojo.]

Foi um baque descobrir que a Iara era a verdadeira proprietária para quem eu pagava aluguel. Rolei a tela para cima com o mouse, deparando-me com dezenas de capturas das minhas redes sociais.

O pijama de casal que comprei para o Lucas com o meu primeiro salário virou motivo de piada, taxado como lixo de camelô. O bolo de aniversário que ele me deu, na verdade, não passava das sobras que a cachorrinha de estimação da Iara se recusou a comer. Cada detalhe da minha vida havia se transformado em um joguinho sádico para aquele bando de herdeiros mimados.

Lembrei do meu primeiro dia no emprego novo, quando alguém enviou um buquê de rosas para o escritório. Sendo alérgica a pólen, tive uma crise respiratória grave e acabei no hospital. Com metade do rosto inchado, Lucas se aproximou de mim cheio de intimidade para tirar uma foto, jurando que eu continuava linda daquele jeito. Mas, ao clicar no áudio do grupo, a voz estridente da Iara soou acompanhada pelas risadas cruéis dos outros:

— Lucas, como você consegue beijar uma porca dessas? Você está se sacrificando demais por isso, juro!

— Poxa, Iara, essa aposta de vocês ferrou a vida do Lucas. — Comentou outro amigo da roda.

E ele respondeu com uma frieza cortante:

— Contanto que a Iara esteja feliz, por mim tudo bem.

A declaração foi seguida por um coro de exclamações maliciosas. Uma asfixia terrível tomou conta do meu peito, como se o pólen daquelas malditas rosas estivesse invadindo minhas narinas mais uma vez. E mesmo diante disso, a Iara ainda teve a audácia de fingir preocupação no nosso chat privado.

[Vai entregar o apartamento, querida? Já sabe onde vai morar? Eu tenho imóveis espalhados por todos os bairros, se precisar de ajuda...]

Digitei de volta.

[Não precisa se incomodar, mas não se esqueça de ir ao meu casamento na semana que vem.]

O grupo ferveu com diversas notificações assim que a minha resposta chegou lá. Iara não perdeu a chance de destilar seu veneno.

[Olha a audácia da garota! Ela com certeza acha que deu o golpe do baú e vai morar numa mansão! Lucas, cadê você? Por que tá calado? Vai mesmo casar com ela?]

Segundos depois, o Lucas iniciou uma chamada de vídeo.

— Já estou chegando. É óbvio que isso é uma grande mentira, eu jamais me casaria com ela. — Disse ele, dirigindo seu carro de luxo com uma mão no volante, os óculos escuros escondendo a expressão do rosto.

— Mas ela já cancelou o aluguel, hein. O próximo passo é ela invadir a sua casa! — Provocou Iara.

Lucas pisou no freio por instinto.

— Como é que é?

Um pressentimento ruim o atingiu, fazendo-o abrir na hora o aplicativo das câmeras de segurança. Na tela, a câmera da entrada mostrou a minha figura vestindo um casaco leve, arrastando uma mala em direção ao elevador. O que ele não sabia era que eu jamais iria para lá, até porque o Lucas nunca tinha me passado o endereço de onde morava de verdade.

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