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Capítulo Três — Antes do Baile...

Diana Cross

Três dias antes...

O dia parecia que seria arrastado e pesado.

O clima aqui no escritório da Valmont & Co. estava sufocante, carregado demais.

Saí de casa e o estresse já havia começado com o atraso da condução que quase me fez perder a hora.

Chegar atrasada hoje, especificamente hoje, poderia significar o meu fim.

Ajeitei a gola da minha blusa com os dedos trêmulos e olhei ao redor, todos concentrados em seu trabalho.

— O que está acontecendo por aqui, Beatriz? — perguntei em um sussurro tenso, aproximando-me da mesa dela.

Beatriz, a secretária executiva de quem sou auxiliar, ergueu os olhos preocupada.

Vozes alteradas ecoavam abafadas, vindo direto da sala da diretoria. 

Havia uma discussão pesada ali dentro.

— Ainda bem que você chegou, Diana! 

Exclamou em um tom de voz baixo e quase desesperado.

Beatriz juntou as mãos sobre a mesa, gesticulando freneticamente, olhava de relance para a porta de madeira maciça.

— Se o Sr. Francesco sai daquela sala e não te vê aqui, seria o nosso fim definitivo — ela desabafou, limpando o suor frio da testa.

— Já foi uma batalha complicada convencê-lo de que eu realmente precisava de uma auxiliar para me ajudar.

Bea é minha amiga desde os tempos de faculdade e foi meu anjo da guarda quando cheguei a Florença.

Foi ela quem estendeu a mão e me conseguiu essa vaga, sabendo o quanto eu precisava recomeçar longe do meu passado.

— Já deu para notar que o clima está pesadíssimo, não é? — continuou ela, organizando a mesa

Ela bateu um maço de papéis contra a madeira da mesa, separando os documentos que eu precisaria levar ao jurídico.

— Quem está aí dentro com ele que o deixou tão furioso? O homem está literalmente gritando!

Abri minha bolsa com pressa, guardando meus pertences pessoais enquanto tentava acalmar as batidas do meu coração.

— É aquela filha antipática dele e a esposa. Elas quase não aparecem aqui. Deve ser algo muito sério.

Retirei meu casaco pesado, pendurando-o no encosto da cadeira com as mãos ainda instáveis pelo susto.

— A tal da Antonella azeda como limão? — rimos do meu comentário.

Passei os dedos pelos meus cabelos, frustrada, sentindo-me completamente descabelada e desorganizada após a corrida no frio.

O eco de um soco forte batendo contra uma mesa ecoou de dentro da sala principal, fazendo-nos pular de susto.

O tom autoritário e implacável que vinha dali de dentro deixava claro: o universo dos homens poderosos daquela empresa era perigoso.

A porta da diretoria se abriu de repente com um estrondo, cortando o silêncio tenso do ambiente.

Antonella saiu dali furiosa, com passos duros e o rosto vermelho, enquanto sua mãe a seguia de perto.

Vittória gesticulava no ar, com uma expressão aflita, tentando em vão acalmar os ânimos da filha.

— Eu não vou admitir que aquele idiota fique me ignorando! 

Antonella disparou, a voz embargada pelo ódio.

Ela limpou uma lágrima borrada de maquiagem com as unhas longas, virando-se abruptamente para a mãe.

— Ele está me tratando como se eu fosse uma qualquer, mamma! — completou, a voz trêmula de humilhação.

Eu e a Bea encolhemos os ombros imediatamente, focando os olhos nos papéis sobre a mesa.

Bancamos a "pedra cinza", fingindo demência como se fôssemos invisíveis diante daquela cena trágica.

— Calma, minha filha! Tenha modos — Vittória sussurrou, segurando a jovem pelo braço com firmeza.

A mulher olhou de relance para nós, visivelmente constrangida, antes de voltar a tentar convencer a filha.

— Agora não tem mais volta. Você precisa acompanhá-lo no baile e não podemos quebrar o compromisso com os pais dele.

Ouvir aquelas palavras disparou um gatilho violento no fundo do meu peito, fazendo meu estômago revirar. 

Ser obrigada a fazer o que os outros querem não é nada fácil ou agradável.

Era praticamente o espelho da minha própria realidade sufocante, o fantasma do qual eu tentava fugir.

— Eu não vou a esse baile coisa nenhuma! — Antonella esbravejou, soltando-se do toque da mãe com violência.

Com um gesto dramático, ela ergueu um envelope preto com detalhes em dourado reluzente que trazia nas mãos.

— Ele vai ter que rastejar atrás de mim! Vai ter que me procurar e me pedir em casamento, como vocês prometeram!

Em um ataque de fúria, ela arremessou o envelope luxuoso direto na lixeira de inox ao lado da mesa da Bea.

— Não faz isso, Antonella! Ficou louca? — Vittória exclamou, dando um passo à frente com os olhos arregalados.

A senhora esticou a mão bem-cuidada em direção ao cesto, mas recuou no mesmo instante, fazendo uma careta de nojo.

— Deixa essa porcaria aí, mamma! — Antonella desdenhou, cruzando os braços e empinando o queixo.

— Se ele quiser mesmo me levar, que use o convite dele! Eu não dou a mínima.

— O que vocês duas ainda estão fazendo aqui fora? — uma voz grossa e autoritária ecoou, cortando o b**e-boca.

O Sr. Francesco surgiu no batente da porta de sua sala, com o cenho franzido e o rosto completamente contrariado.

A aura de homem poderoso e controlador emanava dele, fazendo o ar do corredor parecer ainda mais rarefeito.

— Vittória, tire a sua filha daqui agora mesmo — ele ordenou, ajeitando o nó da gravata com impaciência.

— Ela já me deu aborrecimento demais por um único dia. Vá e cuide para que tudo esteja seguindo os planos.

Vittória segurou a filha pelo braço com força e saiu a rebocando em direção aos elevadores de alta velocidade.

Antonella marchava pisando duro sobre o piso de mármore, reclamando alto e gesticulando com indignação.

— E vocês duas, tratem de trabalhar! O show acabou — ralhou o nosso chefe, apontando o dedo em nossa direção.

A voz autoritária e cortante dele ecoou pelo corredor, fazendo-nos dar um sobressalto na cadeira pelo susto.

Ele girou nos calcanhares, entrou em seu escritório e bateu a porta com tanta força que as paredes pareceram tremer.

Um silêncio caótico e desconfortável tomou conta de todo o andar no mesmo instante.

Os outros funcionários ao redor, que assistiam à cena disfarçadamente, voltaram às pressas para os seus afazeres.

— Nossa... Que loucura de gente rica! — murmurou Bea, soltando o ar que prendia nos pulmões.

Eu, no entanto, mal conseguia desviar os olhos do cesto de inox, morrendo de curiosidade para saber o que havia ali dentro.

— O que será que tem de tão importante nesse envelope? — perguntei, inclinando o corpo para a frente.

Nós duas encaramos a lixeira ao mesmo tempo, como se o papel ali dentro estivesse nos chamando.

Não resisti. Levantei-me da cadeira, caminhei até o cesto e, com cuidado, pesquei o envelope luxuoso de lá de dentro.

O papel escuro tinha uma textura pesada, acetinada, revelando um acabamento de extremo bom gosto e ostentação.

Girei o lacre de cera dourada entre os dedos, abri a aba e puxei o cartão rígido que estava guardado ali dentro.

Bea largou a caneta sobre a mesa e correu até mim, esticando o pescoço para ler por cima do meu ombro.

— Menina... Isso é um convite VIP para o Baile Anual da Associação do Comércio aqui de Florença! — ela exclamou com os olhos brilhando.

Ela praticamente arrancou o cartão da minha mão, passando os dedos pelas letras em alto-relevo com fascínio.

— Um baile? Daqueles à fantasia, com máscaras luxuosas, vestidos de gala e tudo mais? — perguntei, sentindo meu coração acelerar.

— Exatamente! Tem gente da alta sociedade que daria o próprio fígado e uma fortuna por um convite desses, Diana.

— E nós acabamos de achar um jogado direto no lixo... — ela comentou, soltando uma risada desacreditada, misturada com frustração.

— Quem me dera ser solteira e livre para pegar esse convite... Eu iria sem pensar, só para transitar no meio daqueles granfinos.

Ela suspirou fundo, abraçando o próprio corpo, enquanto deixava a mente viajar longe da realidade do escritório.

— Imagina só? Tomar o melhor champanhe do mundo de graça e comer caviar a noite toda... — completou, sonhadora.

Fiquei em silêncio, ouvindo o desabafo da minha amiga, conhecendo bem a rotina desgastante e fria que ela enfrentava em seu casamento.

Uma onda amarga de lembranças me atingiu em cheio, fazendo minha espinha congelar com o peso do passado.

Eu já havia sido exatamente assim: casada, submissa, dedicando cada segundo da minha vida a um homem que achei que me amava.

Um canalha que, no fim das contas, me traiu da pior forma com a minha própria melhor amiga, roubando minha dignidade e me deixando na lama.

Fechei as mãos em punho, sentindo uma revolta antiga queimar de forma intensa no fundo do meu peito.

Fazia muito tempo — tempo até demais — que eu não fazia absolutamente nada por mim mesma, nada que me tirasse daquela rotina cinza.

Estava sozinha há um ano em Florença, sobrevivendo um dia de cada vez, sem amigos íntimos, sem diversão e sem nenhum romance.

Olhei fixamente para o cartão dourado na mão dela, uma ideia audaciosa e perigosa começando a tomar forma na minha mente.

— Será que... eles ainda vão dar falta ou querer esse convite de volta? — sussurrei, estreitando os olhos.

Bea congelou por um segundo, absorvendo o tom da minha voz e a ousadia que brilhava nos meus olhos.

— Que convite? — ela perguntou, abrindo um sorriso cúmplice e piscando o olho para mim de forma maliciosa.

Ela deu as costas, caminhou calmamente de volta para a sua mesa e se sentou com uma postura impecável.

— A equipe de limpeza acabou de passar por aqui e retirou todo o lixo do corredor. Não sobrou nada no cesto.

Ela leu os meus pensamentos mais profundos e sombrios, dando-me a carta branca que eu precisava para agir.

Era uma loucura sem tamanho, um risco enorme que poderia colocar meu emprego em xeque.

Mas apertei o papel contra o peito, decidida. 

Eu iria àquele baile de máscaras.

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