Mundo de ficçãoIniciar sessãoTodo mundo olha para mim e pensa que eu tenho tudo. Dinheiro, casa boa, conforto, estudo… realmente, a vida me deu facilidades que muita gente não tem, isso é ruim? Claro que não. Mas tem uma coisa que faz tudo parecer meio vazio: sinto como se faltasse uma parte de mim, como se eu estivesse só passando pela vida sem realmente pertencer a lugar nenhum.
Eu sou assim: não faço distinção de ninguém. Tenho amigos de todo tipo: Uns ricos, outros pobres, uns que erram e buscam acertar, outros que vivem em situação difícil, cada um com a sua história. Não julgo ninguém, porque sei que cada um carrega uma luta que não é a minha. Claro que não me meto em nada que não me cabe, não participo de coisas erradas, só aceito as pessoas como elas são. Não me meto nas coisas erradas delas, só nas minhas coisas erradas. Tudo que eu faço eu escolho.Amo festas uso drogas quase nunca, tenho medo de virar zumbi. Moro aqui em São Paulo com a minha mãe, uma mulher doce e dedicada que cuida de mim com todo o carinho do mundo. Meu pai está lá nos Estados Unidos cuidando dos negócios, planejando voltar em breve para se instalar em Minas Gerais,mas por enquanto, somos só nós dois aqui. E todo dia, quando vou ao colégio, ou quando encontro os amigos nos fins de semana, eu vejo ela: Leona. Nós estamos sempre nos mesmos lugares, temos exatamente os mesmos amigos. É o grupo todo junto: ela, eu, o Lucas, a Lorena, o Pedro… todo mundo anda junto, mas parece que entre nós dois existe um muro enorme. Ela nunca olha para mim, nunca fala comigo, nem sequer me dirige um olhar — só fala e ri com os outros, como se eu nem existisse ali. E dói, porque eu sou completamente apaixonado por ela, vidrado nela há anos, desde que nos vimos pela primeira vez na escola. Estudamos sempre na mesma instituição,na mesma sala, e eu nunca tive coragem de chegar direito perto dela, porque um dia ela me chingou do nada, só porque encostei nela. Um dia desses, o Pedro ficou ao meu lado, batendo papo, e acabou falando logo sobre isso: — Você viu como ela passa por você e nem parece que te vê, Miguel? Dá uma dó de ver você olhando pra ela desse jeito todo apaixonado, e ela te tratando como se fosse um desconhecido… ou pior, como se fosse algo que não quer por perto. Eu suspirei, olhando de longe para Leona, que ria de uma piada da Lorena:As vezes os meninos rir de mim, talvez realmente sente compaixão. — Eu sei, Pedro. Mas não entendo por quê. Nunca fiz mal a ela. Queria só ter uma chance de conversar, de mostrar quem sou de verdade. — Talvez ela só tenha medo — disse ele, dando um tapinha no meu ombro, um dia eu te ajudarei. — Ou talvez ela veja as coisas de um jeito bem diferente do nosso. Mas não desiste não, viu? Um dia ela percebe. Eu só acenei com a cabeça, mas no fundo sentia que não era só medo. Era como se ela carregasse um ódio pronto, e eu tivesse sido o escolhido para receber ele. Mesmo assim, não consigo parar de olhar. Mesmo ela me ignorando, mesmo estando sempre ao lado sem nunca falar comigo, eu continuo ali, esperando um sinal.






