Preferência

POV: Cristian

Eu sempre fui bom em perceber padrões.

Não por intuição. Por observação.

Tudo na minha vida funciona assim: repetições, desvios, pequenas mudanças que a maioria ignora. Com Bárbara, isso ficou ainda mais evidente. Crianças são previsíveis quando você presta atenção suficiente.

Ou pelo menos eu achava que eram.

Naquela manhã, ela acordou irritada. Não chorando — irritada. Um estado intermediário que eu conhecia bem. Troquei a fralda, preparei a mamadeira do jeito exato que ela aceitava, sentei no sofá com ela no colo.

Nada.

Ela empurrou a mamadeira com a mão pequena e fez um som de reclamação, franzindo o rosto como se o mundo estivesse errado.

— Tá quente? — perguntei, mesmo sabendo que não estava. Testei no pulso de novo. — Não tá.

Ela virou o rosto, contrariada.

Rayana apareceu na sala ainda ajeitando o cabelo, claramente recém-acordada(ela tinha dormido aquino diaanterior). Parou ao me ver naquele estado meio travado.

— Bom dia — disse, num tom baixo.

— Bom — respondi.

Ela ficou ali, parada, sem se intrometer. Isso era algo que eu tinha notado desde o primeiro dia: Rayana nunca entrava em cena como se fosse dona do espaço. Observava antes. Esperava.

— Ela acordou meio… — comecei.

— De lua — completou Rayana, com um meio sorriso.

Eu ia responder que ela não costumava acordar assim, mas não cheguei a terminar o pensamento.

Bárbara esticou o braço na direção dela.

Não foi dramático. Não foi choro. Só um gesto simples, quase automático.

Rayana piscou, surpresa.

— Posso? — perguntou.

Eu hesitei. Não por desconfiança. Por reflexo.

— Pode — falei.

Ela pegou Bárbara com cuidado, ajustando o peso no quadril, sem aquele exagero inseguro que a maioria das pessoas tem. Bárbara resmungou uma vez… e relaxou.

Simples assim.

Aquilo me incomodou mais do que deveria.

Rayana balançava devagar, sem cantar, sem fazer graça, só andando pela sala como se aquilo fosse parte da rotina dela desde sempre.

— Ela costuma fazer isso? — Rayana perguntou.

— Não — respondi. — Normalmente ela se acalma comigo.

Ela assentiu, sem comentar.

E foi isso que me irritou.

Eu queria que ela dissesse alguma coisa. Uma explicação. Um truque. Alguma lógica que eu pudesse analisar.

Mas Rayana não ofereceu nada.

Nos dias seguintes, o padrão se repetiu.

Se Bárbara estava inquieta, Rayana resolvia mais rápido. Não sempre — mas o suficiente para eu perceber. Às vezes era só sentar perto. Às vezes pegar no colo. Às vezes falar quase nada.

Eu observava tudo.

O jeito como ela falava com Bárbara não era infantilizado. Não usava voz exagerada, não ficava repetindo palavras inúteis.

— Tá difícil hoje, né? — dizia, como se estivesse falando com alguém que realmente entendia.

E Bárbara respondia. Não com palavras, mas com o corpo. Relaxava. Encostava a cabeça. Parava de se debater.

Eu comecei a me sentir… deslocado.

Num fim de tarde, cheguei mais cedo de uma reunião que tinha dado errado. Terno ainda fechado, gravata frouxa, cabeça cheia.

Bárbara estava sentada no tapete, brincando com um brinquedo qualquer. Rayana ao lado, observando.

— Oi, papai — Rayana falou por ela, rindo de leve.

Bárbara bateu as mãos no chão quando me viu.

— Oi — respondi, abaixando ao lado dela.

Peguei minha filha no colo. Ela ficou alguns segundos… depois começou a se mexer.

— Ei — falei. — Calma.

Ela empurrou meu peito com a mão, incomodada.

Rayana ficou em silêncio.

Bárbara começou a reclamar, aquele som irritado que cresce rápido.

— O que foi agora? — murmurei, andando pela sala.

Nada.

Rayana se levantou devagar.

— Quer que eu tente? — perguntou.

Eu respirei fundo.

— Pode.

Assim que ela pegou Bárbara, o choro diminuiu. Não acabou na hora, mas perdeu força. Em menos de um minuto, minha filha estava com o rosto enterrado no ombro dela.

Eu fiquei parado.

— Isso tá virando rotina — falei, mais seco do que pretendia.

Rayana me olhou.

— Quer que eu pare?

— Não foi isso que eu disse.

— Então o que foi?

Fiquei em silêncio. Organizando a resposta na cabeça, tentando não falar besteira.

— Eu só… não esperava — disse por fim.

Ela assentiu.

— Nem eu.

Isso me desarmou.

À noite, depois que Bárbara dormiu, fiquei na cozinha lavando a mamadeira, repetindo o movimento automático.

Rayana entrou, encostou no balcão.

— Você tá chateado comigo?

— Não — respondi rápido demais.

Ela me olhou com aquele olhar direto que começava a me incomodar.

— Cristian.

Suspirei.

— Eu não gosto de perder controle — admiti.

— Você não perdeu.

— Perdi um pouco.

Ela ficou em silêncio.

— Não é sobre você substituir ninguém — continuei. — Eu sei disso. É só… estranho.

— Ela confiar em mim?

— Ela preferir você em alguns momentos.

Rayana pensou antes de responder.

— Isso não apaga você.

Eu sabia. Ainda assim, o sentimento estava lá.

— Você sente ciúmes da sua própria filha? — ela perguntou, sem ironia.

— Não — respondi. — Sinto medo de não ser suficiente.

Ela suavizou o olhar.

— Você é mais do que suficiente.

Não respondi.

No dia seguinte, percebi outra coisa.

Bárbara começou a procurar Rayana com o olhar quando acordava. Nada exagerado. Só uma busca rápida pelo quarto.

Aquilo doeu de um jeito silencioso.

No banho, enquanto eu segurava Bárbara na banheira, ela começou a chorar do nada.

— Ei — falei. — Tá tudo bem.

Nada.

Rayana apareceu na porta.

— Posso entrar?

— Pode.

Ela se ajoelhou ao lado da banheira.

— Água tá quentinha, hein — falou.

Bárbara esticou a mão molhada em direção a ela.

Eu senti o aperto no peito de novo.

— Você tá roubando minha filha — falei, meio sério, meio brincando.

Rayana levantou as sobrancelhas.

— Isso é uma acusação grave.

— Eu sei.

Ela sorriu de leve.

— Prometo devolver.

Depois que Bárbara dormiu naquela noite, fiquei sentado no quarto dela mais tempo do que o normal.

Eu sempre soube que criar alguém não era posse. Mas saber não impede sentir.

Rayana não estava errada.

Bárbara não estava errada.

O problema era eu, tentando encaixar um sentimento novo num sistema que sempre funcionou sem ele.

E pela primeira vez, percebi que talvez eu precisasse aprender algo que não vinha com regras, listas ou pastas organizadas.

Preferência não era rejeição.

Era vínculo.

E isso… eu ainda estava aprendendo a dividir.

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