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Capítulo 4 - Odiar allo nem é crime

ADA

O PRIMEIRO EMBUSTE APARECEU DAS PROFUNDEZAS do inferno assim que Lilian foi atrás das bebidas.

— Você é deliciosa, já te disseram isso? — ele sorriu, enquanto ela revirava os olhos.

O homem era bonito, mas estava bagunçado e fedendo. Minha nossa, faz quanto tempo que ele não toma um banho? Assim que chegou na área VIP daquele jeito, Ada viu que ele levou fora de todas as mulheres que tinha dado em cima. Não bastou ter passado vergonha, estava mesmo atrás da humilhação quando os olhos dele a encontrou.

Foi bem triste.

— Sua boca é linda. Carnuda. Nossa… dá pra imaginar loucuras com ela.

Ada apenas ignorou e foi atrás da amiga. Não queria ficar ouvindo aquelas coisas ou possivelmente usaria o salto para que ele engolisse de goela abaixo. Quando ela deu as costas para seguir adiante, a primeira coisa que ele fez foi segurá-la pelo braço.

— Vamos lá, eu sei que você pode fazer horrores na cama. Por que não vamos até o meu carro, e de lá partimos para o meu apartamento?

Bem, uma coisa era falar coisas nojentas... mas lhe tocar quando ela não deu nenhum incentivo para isso…? Ada se voltou para ele completamente irritada. Nunca se sentiu daquela forma, mas estava muito indignada com aquele tipo de persistência.

— Me solte. — Ela não precisou falar muito alto, ele sabia exatamente o que ela tinha dito. Bastava apenas ler as expressões no rosto dela.

Quando ele não se moveu, Ada o forçou a fazê-lo. Num momento de desequilíbrio ele a soltou. Ela se aproveitou daquele segundo para empurrá-lo para longe. O homem caiu, praguejando vários palavrões que ela desconhecia.

Olhou para ele, bufou injuriada, e rumou para o banheiro para se recompor. Não deixaria que caras como aquele chegassem perto. Balançou a cabeça indignada, e se percebeu de frente ao espelho.

Estava diferente do que realmente costumava usar: não usava brincos enormes, não soltava completamente os cabelos cacheados, não sombreava os olhos negros e muito menos usava saltos tão altos e vestidos que ficavam lhe incomodando pelo curto tamanho. Aliás, Lilian fez questão de comprar um que não desse tanto realce nos seios pequenos — e, embora relutasse em aceitar, a roupa lhe deixava atraente.

O vestido tinha uma aplicação de babados na região do busto, era justo e curto, o que investia em outras regiões que Ada quase nunca se importou em mostrar: a cintura, quadril e pernas. Embora não desse muita bola pra aquilo, Ada tinha um corpo que lhe era agradável.

O barulho ensurdecedor pairava na pista de dança. A música eletrônica que fazia sucesso pelo mundo não deixava Ada se concentrar. Estava pensando em como passaria pelo cara chato sem que ele a visse. Foi então que, através do espelho, ela percebeu que havia uma saída de emergência ali perto. Talvez ele não a notasse quando saísse.

Sorriu completamente triunfante e não perdeu mais tempo. Saiu do banheiro apressadamente, passou pelo segurança que estava na porta de emergência e desceu alguns degraus. Viu que havia outro segurança no fim das escadas, por isso apenas escolheu ficar sentada no meio do caminho enquanto dava um tempo. Acreditava que quando voltasse, aquele cara já estivesse em outra.

Olhou para a rua escura, observando algumas pessoas passarem distraídas. Ficou assim por vários minutos, se perguntando qual era a dificuldade dos homens aceitarem um “não”. Como uma pessoa, ele devia entender e respeitar o espaço do outro, mas não era exatamente assim o que acontecia — não com mulheres, pelo menos.

Ela respirou fundo e se lembrou de Frank. Sorriu ao se dar conta que ele não tinha chegado. Não tinha como conversar com ele porque esqueceu o celular em casa, mas sabia que não apareceria por causa da hora. Já estava muito tarde.

Ouviu algumas coisas quebrando dentro da boate. O segurança que estava no fim das escadas logo subiu, passou por ela e entrou, deixando Ada sozinha. Se levantou, um pouco nervosa, porque a amiga ainda estava lá dentro. Se algo acontecesse a Lilian, ela nunca se perdoaria por tê-la deixado. Quando deu o primeiro passo para entrar, ela esbarrou em alguém que agora lhe arrastava com a mão na boca.

Ada se debateu, tentando escapar de ser levada à força para um beco escuro ali perto, e foi totalmente em vão. Se deu conta de que se tratava daquele embuste quando passou próximo a um poste. A raiva por ele cresceu. Ele a encostou na parede úmida, ainda mantendo a boca dela tapada para que não gritasse.

— Você vai me dizer exatamente onde posso encontrar o seu irmão.

Ada abriu os olhos em extrema surpresa. Não era ela quem ele queria, mas o irmão. O que Arthur poderia ter feito para que um babaca daqueles a prendesse no meio de um beco fedorento somente para lhe forçar a dizer o que não queria?

— Vou tirar a minha mão da sua boca, mas se você gritar... — ele lhe ameaçou.

Ada tentou manter o controle, antes de observá-lo afastar a mão. Foi questão de segundos, mas ela não se importou nenhum pouquinho com o que lhe aconteceria se não tentasse escapar. Por isso gritou em plenos pulmões pedindo por ajuda, somente para ter a boca tapada novamente, depois de ter levado um tapa na cara.

Os olhos involuntariamente se encheram de lágrimas e a cabeça rodou. Não sabia o que estava acontecendo para que aquele homem estivesse atrás de Arthur, mas fosse o que fosse, ela não diria sobre o paradeiro dele. Ada o amava demais para expô-lo daquela maneira. E algo dentro de si lhe dizia que ele não tinha feito nada de errado. Na verdade ele era uma boa pessoa, tinha entrado no exército, e agora estava viajando para ter mais treinamentos com armas. Sabia que o irmão tinha uma ótima mira, então claro que não foi difícil para ele se destacar.

— Não brinque comigo, sua vagabundinha. Onde está o maldito do seu irmão? — Ele a sacudiu.

A cabeça dela ainda rodava. Não conseguia focar na sombra do homem sem que girasse. Ainda assim, não ia desistir tão fácil. Mordeu a mão dele sem se importar se morreria depois. Sentiu gosto de sangue e cuspiu no momento em que o homem se afastou e praguejou maldições.

Aquele era o momento perfeito para fugir, se ela ainda não estivesse zonza. Percebeu que tinha perdido a chance quando ele voltou para ela xingando-a de todos os palavrões possíveis.

Ada sabia que estava perdida, e que talvez morresse num beco escuro fedendo a xixi velho. Tinha ciência de que ninguém escutaria os gritos por causa do som que estourava dentro da boate. E aquele beco em questão era impossível ser frequentado...

Quando o homem estava prestes a puxá-la pelos cabelos, um cara forte, alto e completamente furioso entrou em cena. Ele a tirou das mãos do outro e a empurrou de leve para afastá-la. Ela caiu, porque não conseguiu manter o equilíbrio. Então Ada se manteve no chão. E o mundo que girava simplesmente escureceu.

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