Mundo de ficçãoIniciar sessãoADA
Ada se cansou do livro depois de algumas horas. Ela não gostava de ler as partes onde o mocinho não se encontrava. Era como se a história perdesse toda a emoção. Decidiu escrever alguns textos no diário para explicar o que sentia, mas acabou olhando para as cortinas da varanda. Normalmente era assim que se comportava: nada de festas e saídas nos finais de semana. A verdade era que Ada não gostava muito de ir para baladas. As músicas eram até legais para se dançar, se não fossem por aqueles caras chatos que não sabiam levar um "não". Bem, claro que Lilian, a melhor amiga, tentava lhe arrancar todos os fios de cabelo quando recusava os rapazes bonitos que tentavam alguma coisa. “Não é você quem vive dizendo que não é notada?”, Lilian reclamou um dia. “Isso não é ser notada, é ser aproveitada”, Ada rebateu. “Então aproveite junto”, era o que a amiga sempre respondia. Mas para Ada não havia sentido beijar caras que não conhecia, de ficar bêbada e fazer coisas que não queria. Qual a graça daquilo? Ela gostava muito mais de ler um bom livro, caminhar na praia, assistir filmes de comédia e escrever histórias esquisitas que sempre brotavam na mente. O sonho dela, aliás, era ter estabilidade financeira com as histórias que escrevia. Histórias aquelas que levavam palavras de conforto que não conseguia receber quando precisava. Ela queria mostrar a todos que ainda existia a bondade no coração das pessoas — e, acima de tudo isso, levar esperança para cada uma delas através da coisa que amava fazer. Olhou para o relógio que marcava dez da noite e suspirou. O sono não tinha chegado e não havia nada de interessante para fazer. Não estava tão inspirada naquela noite para se perder na própria fantasia, talvez por ainda pensar no novo vizinho. Ficou preocupada quando foi espiar novamente pela varanda e o viu sair correndo para dentro de um carro escuro que lhe esperava na frente da Mansão. Ele, a mulher loira e mais outro rapaz de cabelos compridos, tinham se enfurnado dentro do automóvel. Estavam vestidos de preto, com uma seriedade assustadora. Algo havia acontecido, caso contrário, não teria toda aquela correria. Ada estava curiosa, não podia negar, mas preferiu não dar tanta importância — afinal, não era da conta dela. O celular vibrou, indicando a mensagem da melhor amiga. “Dá para abrir a porta? ¬¬’ Estou repleta de sacolas.” Eu não acredito, pensou, num misto de frustração e alegria. Ada saiu da cama apressada, sem causar barulho, pois sabia que, àquela hora e várias sacolas nas mãos de Lilian, significava festinhas casuais — o que de fato não era uma boa ideia, porque detestava fazer as coisas sem que a mãe soubesse. Mas ela adorava a companhia da melhor amiga, não podia negar. Descendo as escadas, ela rumou para a porta, abrindo-a. Lilian usava óculos de grau de armação vermelha e o mais novo corte chanel. Os cabelos dela eram castanhos e ondulados. A altura da garota era de 1,75m, exatamente como uma modelo. O sorriso era composto de dentes alinhados e, apesar da felicidade alheia, Ada não estava gostando da ideia que pairava na expressão da amiga. — Não. — Sim. — Não. Ficou noiada? Minha mãe está cochilando e eu não avisei que vou sair — Ada espiou as inúmeras sacolas de roupas e sapatos de marca. — Melhor! Já imaginou? Vamos à inauguração da mais nova boate. Estou com ingressos VIP e Frank disse que vai! — Eu já disse que minha mãe está dormindo, Lilian. Pare de gritar! — entoou baixinho. — E que história é essa de Frank? Frank era o colega de trabalho. E Ada não queria se envolver com pessoas do trabalho — especialmente o Frank. Ela sabia que ele, apesar de ser bonito e educado, era um completo mulherengo. Não ia se envolver com uma pessoa sabendo que iria se machucar no final. — Você vai vir comigo ou vou espalhar seus poemas aos quatro cantos da universidade — Lilian cortou-lhe num tom menos altivo. — Você não ia se atrever... Lilian arqueou uma das sobrancelhas mostrando um olhar surpreso e cruel, mas Ada acabou suspirando em desistência. Ela sabia que quando a amiga era contrariada, coisas horríveis aconteciam... Como foi daquela vez em que teve que ler para todo mundo um texto sobre uma garota que buscava o amor... Então deixou a amiga entrar e rumar para o quarto sem que a mãe notasse. Ela não sabia o que fazer, embora sentisse que devia quebrar as “regras” impostas mais vezes. Talvez pelo motivo de tentar viver um pouco mais a vida, sem ter que ser grudada em livros e diários, perdendo tudo o que o universo lhe proporcionava. Perder? Estou mesmo perdendo de viver a minha vida?, Ada suspirou. Tudo bem que vivo na “maionese”, mas me sinto bem assim. Não era segredo para ninguém que partezinha do problema de Ada era a socialização. Ela nunca foi de interações por questões de timidez. Além do mais, as pessoas da idade dela a ignoravam. Vamos lá, vamos aos fatos: não era como se ela fosse uma das primeiras da lista. Ada só tinha uma amiga. Também não tinha muitos recursos financeiros, logo, não podia sair sempre, especialmente pros lugares caríssimos que os colegas de classe frequentavam. E, por último (e nada novo sob o sol), os homens que se diziam interessados por ela eram justamente aqueles que já tinham levado fora das outras garotas — na maioria das vezes, todas brancas. Por aqueles motivos, Ada preferiu focar no que realmente importava quando entrou na universidade: estudar. Se afastar de grupinhos descolados e baladinhas não estava exatamente no roteiro, mas foi assim que aconteceu. — Trouxe um vestido que vai mostrar as suas belas pernas, e sandálias altas que vão fazer você ficar um pouco maior. Quando Frank ver você... Ai, mal posso esperar! — Lilian falou toda animada. — Lili, você sabe que não posso e não quero sair. E por que você ainda insiste que eu devo dar chance ao novato do trabalho? — Porque é a oportunidade perfeita pra você desencalhar. Ada, você tem vinte e quatro anos, está no último período da faculdade e nunca beijou de língua na vida! Acorde! — Lilian estalou dos dedos. — O mundo está repleto de homens gostosos que você pode beijar e fazer tantas outras coisas. Frank é um deles! O mundo não gira apenas em torno de livros. Ada franziu o cenho completamente ofendida. — Qual o problema nisso? — Todos! Esses personagens fictícios que você lê não existem, então pare de bancar a sonhadora e caia na real! Não posso deixar minha melhor amiga na beira de um precipício. — Precipício? — Ada quase sibilou. — Não acho que sonhar com personagens me deixe na beira de um precipício. E nunca ter beijado desse jeito, ou não ter feito outras coisas também. — Lilian fez cara de escárnio, ao passo que Ada suspirou. — Tudo bem, só um pouco — confessou. — Mas isso acontece por causa de você, que não me deixa em paz. O que tem demais eu ainda não ter deixado ninguém enfiar a língua na minha garganta? Isso prova que não sou qualquer uma. Não fico com todos os caras que vejo por aí... — O que você está insinuando? — Lilian pareceu levar para o lado pessoal. Ada pensou rapidamente antes de falar de novo qualquer outra bobagem. — Que não nasci para ficar com homens que eu não sinto nada. Eu não me sinto confortável com isso, Lilian, e você sabe disso. Da última vez eu fiquei presa no banheiro vomitando por horas. Me senti enjoada e… suja. Lilian piscou, como se tivesse lembrado de uma cena que nunca tinha entendido. A expressão dela se suavizou. — Você pode tentar beijar garotas, se sentir mais confortável. Quer me beijar? Lilian soltou beijinhos para ela. Ada sentiu o rosto esquentar e abriu a boca como se não acreditasse em ouvir aquilo. Será que a melhor amiga não tinha entendido nada do que ela tinha falando ao longo dos anos? — Lilian, por que você não para um momento pra me ouvir? Claro que você é linda, e minha melhor amiga, mas eu não quero beijar você. Seria nojento. E eu sei que gosto de garotos, só não consigo me envolver com quem eu não sinto nada. Não é que eu não queira, é só que não… funciona pra mim. Você entende? Posso achar eles bonitos, mas não quer dizer que eu consiga sair beijando todos eles como você. Lilian pareceu pensar, mas logo negou com a cabeça. — Não, amiga. Me desculpa, mas não entendo. — Além do mais, se for pra me relacionar com alguém, eu gosto de saber onde estou pisando. Não tenho nada contra o Frank, mas... Você não o acha muito egocêntrico? Lilian pegou um vestido preto que estava dentro de uma das sacolas, jogou em cima da cama e olhou para ela. Por um momento, Ada se sentiu contrariada. Em situações assim, preferia não bater de frente, mas estava um pouco difícil se controlar. — Você vai à boate vestindo isso. Você vai dançar um pouco com Frank e beijá-lo assim que ele der a primeira investida, entendeu? Não pense em nada além dos seus personagens fictícios favoritos quando estiver beijando. Pense no Darcy, no Dong Hua, em quem você quiser, mas, pelo amor de Deus, só beije. Você precisa destravar. Tenho certeza que depois de hoje você só vai querer viver beijando por aí… — Você sabe que está se enganando com essas ideias, não sabe? Por favor, não fique me projetando em algo que não sou. Eu só sou assim e tudo bem, certo? — Errado! Você vai desencalhar hoje ou não me chamo Lilian Amorim! — Lili… — Ada ainda tentava argumentar, mas como na maioria das vezes acontecia, ela era vencida pelo cansaço. Talvez, algum dia, a melhor amiga entendesse que Ada não se sentia confortável quanto a beijar só por beijar... Enquanto isso, continuaria decepcionando-a sempre na mesma questão. — Te trago às três e meia. — Lilian a interrompeu. — Sei que sua mãe dorme com as galinhas e se acorda com os galos. Ada suspirou novamente, enquanto a amiga sorria, agora, com outro vestido em mãos.






