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Capítulo 1 - Verdades que você (não) precisa saber

IAN

ERA NOITE QUANDO ELE DESPERTOU.

A lua não estava presente, exceto os pontos brilhantes na imensidão escura. O barulho de carros infernizava os tímpanos do homem que, outrora, dormia, e a rebeldia e incerteza se apresentavam naquele lugar.

Aquela casa era diferente de todas as que existiam no bairro. O muro alto e uniforme, as cores claras e calmas escondiam a verdadeira história que a mesma continha. Algumas pessoas da vizinhança comentavam que aquela moradia era assombrada pelos fantasmas da família Vale, mas nenhum deles tiveram a audácia de verificar. A partir daí surgiram codinomes como “Mansão Mal-Assombrada”, “Mansão do Vale” ou somente “Mansão”. Ainda assim, mesmo com todos os boatos, um estrangeiro decidiu viver por lá.

Na realidade, era o mesmo estrangeiro que nunca deixou de ser dono daquela propriedade.

Ian Valadares estava no quarto. As asas, feitas da própria pele, eram esticadas para aliviar a tensão da viagem. As presas voltavam ao tamanho ideal, enquanto os membros distintos eram condensados de volta ao corpo para evitar rumores de vizinhos.

Um grunhido saiu dos lábios finos demonstrando impaciência. Odiava fazer mudanças e viajar de avião. Tinha que manter tudo de acordo com o tempo e pausas, quando necessárias. Tinha que tolerar Nano como piloto e as piadinhas sobre mecânica e robótica; Bina com as tentativas de cupido; e Ariane irritando todos os outros com deboche. Mas o que mais odiava era as malditas Marcas no corpo que andaram conturbadas nas últimas semanas. Marcas aquelas, de um passado sem futuro.

Um futuro sem fim.

— Belmonte! — claro que estava furioso, andava nu a procura de algo para vestir e tudo estava uma bagunça. O quarto repleto de caixas e poeira… Quando foi a última vez que estiveram ali? Não estavam pagando os funcionários?

Como resposta, o miserável do Lucas surgiu com roupas e vinho nas mãos.

Lucas Belmonte tinha cabelos lisos e negros que iam até os ombros, e se emolduravam no rosto. As sobrancelhas e cílios eram espessos de pelos destacando os olhos azuis. Ele usava com frequência a aparência e palavras tolas para ter mulheres na cama, embora, por outro lado, havia... Eu, é claro, pensou Ian, com o cenho franzido.

Bem, aí estava a primeira verdade: Ian era dotado de combinações perfeitas que transmitiam imperatividade por onde passava. Olhos negros, cabelos curtos e castanhos escuros, semblante sério e incalculável o fazia forte, belo, majestoso. Pessoas de todos os tipos rastejavam aos pés dele, e não era algo que pudesse evitar. Mesmo sendo vaidoso, Ian não utilizava a aparência ou conversas tolas para levá-las para cama. Bastava apenas direcionar o olhar, sentir se a pessoa em questão lhe desejava e...

Estava feito.

Embora não se considerasse nobre, Ian nunca prometia o que não podia cumprir. A sinceridade da palavra era a única coisa que lhe restara antes da Maldição. Então, claro que ele não fazia aquelas burrices de juras de amor para qualquer pessoa como o canalha do Lucas.

Ele vestiu as roupas e destampou a garrafa de vinho para dar um longo gole.

— Me perdoe, Chefe. Ainda não tive tempo de...

— Poupe-me dessas ladainhas, Belmonte, e chame os outros. Estou cansado dessas viagens. Quero uma reunião em quinze minutos. — Lucas assentiu e saiu apressado para cumprir a ordem.

Os olhos negros analisaram o ambiente escuso da luz a procura do celular. Ele precisava relaxar, e nada melhor do que acabar com a ânsia de uma das Marcas. Pensava que logo estaria diante de algumas pessoas. Seria bom, afinal, se manter entretido com algumas delas. Talvez aquilo aliviasse um pouco o ardor insuportável nas costas.

A visão dele parou nas cortinas movimentadas pela brisa agradável. Ao lado da varanda, podia ver o quarto do vizinho. Mas... Pertence a uma garota, ele notou, analisando as ações que a mesma articulava enquanto lia deitada.

Aparentava ser uma garota de no máximo vinte anos, embora algo lhe dissesse que não. Os dentes dela mordiam o lábio inferior na expectativa de não sorrir por completo. Os longos cabelos cacheados cobriam o travesseiro e as pernas jaziam expostas dobradas para cima.

A Marca do Porco nas costas ardeu, indicando que precisava ser saciada o quanto antes. Também não era para menos, passou quase dois dias sem sexo, então era óbvio que a Luxúria exigia atenção — especialmente quando a garota tinha uma aparência deliciosa, inocente e linda.

Pelo maldito inferno, Ian praguejou em pensamentos, ao se dar conta de que estava lá fora para observá-la melhor. Era óbvio que sentiu uma necessidade sufocante de voar até a varanda da frente, carregá-la e tê-la para si. Ele também não deixou de imaginar como seria ouvir os suspiros enquanto estivesse...

Maldição, a garota agora lhe observava. Ela primeiro pareceu surpresa e depois ruborizada, talvez por ter sido descoberta por ele primeiro. E Ian não conseguiu conter um pequeno sorriso malicioso nos lábios ao lhe cumprimentar com a garrafa de vinho.

Chame-a, a Marca do Porco pulsou nas costas e tentou sair da pele. Convide a garota para conhecer a casa. Faça logo a porra do convite e a chame para tomar vinho. Depois disso você pode tê-la!

Não, Ian rebateu. Não podia ficar justamente com ela. Sabia que haveria consequências: a começar por se envolver com uma vizinha que ficaria bisbilhotando tudo o que fizesse. E ele não podia ser descoberto por ela. Não enquanto não tivesse concluído as missões que o levaram até ali.

A garota acenou para ele também como um cumprimento. A Luxúria vibrou e Ian se sentiu tenso. Precisava voltar para o quarto antes que cometesse uma loucura. Se controlou de todas as formas possíveis para não conceder todo o desejo sujo que lhe consumia por dentro. Ele se inclinou numa reverência, como se despedisse.

NÃO!, A Marca da Luxúria ardeu como nunca, indicando que sairia da pele a qualquer momento para resolver aquele problema.

Ian observou a garota lhe dando outro aceno, e ele voltou para dentro do quarto, enquanto fechava a varanda no processo.

— Pela Sete Bestas infernais! — Ian tocava na região em que a Marca se encontrava. Ela parecia se remexer furiosamente, tentando encontrar maneiras de se libertar. — Belmonte! — chamou, enquanto tomava um longo gole de vinho para tentar manter a calma. Se a Marca da Ira que tinha na coxa fosse despertada, outro Pecado lhe importunaria. — Lucas!

Ian escutou a correria nas escadas e se deparou com o irmão ofegante na entrada do quarto.

— O que foi, Chefe?

— Vamos para qualquer lugar longe daqui. Seja rápido — respondeu, enquanto deixava o vinho em cima de uma caixa qualquer.

— Mas...

— Sem “mas”, Belmonte. Faça logo o que lhe pedi.

Lucas apenas assentiu apreensivo, e se retirou do quarto dele. Ian tentou respirar fundo, mas não conseguiu se concentrar para manter em ordem a agitação que a Marca Amaldiçoada lhe causara.

Bem, aí estava a segunda verdade: Ian era um Amaldiçoado. Tinha os Sete Pecados dentro do corpo e as Marcas eram a prova daquilo. Elas surgiram e permaneceram na pele. Sempre cobrando mais dos corpos que a carregavam, sempre cobrando mais daquele pecado que lhe concernia — exatamente agora, como a Luxúria, representada pelo Porco, que parecia grunhir deixando as costas arderem.

Ian esfregou o rosto com as mãos.

O que foi isso?, ele queria informações. Depois de ver e cumprimentar a nova vizinha, sentiu uma necessidade primitiva e sufocante. Talvez porque tivesse deixado de alimentar a Marca e então ao vê-la lhe causou algo que...

Um cheiro forte e peculiar chegou ao nariz, e o Porco simplesmente pareceu relaxar, como um alívio.

Madison, Ian pensou quase em lamento. Sabia que podia contar com ela sempre que pudesse para aquele tipo de situação, mas simplesmente não queria ter nada com ela.

Bem, aí estava a terceira verdade: Passou um bom tempo saciando aquelas necessidades com Ariane, mas simplesmente percebeu que estava causando dano demais para o Clã. Especialmente ao descobrir que ela era obsessiva. Sabia que precisava cortar o mal pela raiz, e não foi sutil quando decidiu afastá-la — e, para ser bastante sincero, ele desejava manter aquilo até o fim dos seus dias.

Agora, no entanto, a situação parecia ser de emergência. Não queria que a Luxúria saísse pelas ruas buscando aquilo que ele negava. Era perigoso demais e Clã inteiro corria risco de ser descoberto. Tudo o que menos precisava agora era ter a atenção de todos.

O forte aroma de desejo de Ariane o atingiu e a Marca ardeu.

Pelo menos faça com ela, ele podia sentir o Porco lhe implorar. Me alimente.

Ariane estava na entrada do quarto de Ian quando entrou e fechou a porta. Ela retirou o vestido, demonstrando algumas das mesmas Marcas no corpo que ele tinha, e sorriu.

— Estou aqui pronta para você.

Ian não pôde mais controlar a Luxúria dentro de si. Então simplesmente se rendeu àquele Pecado. Ele não levou em consideração a punição que tinha dado a ela, nem na escuridão que tomava conta de si toda vez que se rendia àqueles prazeres. Ele só pensava em como acabar com aquele inferno, na esperança de que algum dia se libertasse daquilo.

*

Ian se levantou da cama desarrumada. Estava nu, novamente, e não se preocupou em se vestir. Precisava tomar um banho para se livrar daquele cheiro que passara o último meio século evitando.

— Não quer fazer outra vez? — Ariane ainda estava deitada, com o sorriso de triunfo nos lábios.

Ian sabia que não devia dar esperanças a uma mulher vaidosa e vingativa, mesmo que tivesse gozado três vezes naquela noite. Por isso simplesmente falou em um tom seco:

— Não.

Ian realmente não estava de bom humor. Mesmo tendo saciado uma das Marcas, não podia controlar a Ira que começava a dar as caras. Estava cansado de ter que sempre servir àqueles Pecados como se não tivesse as próprias vontades e desejos. Tinha prometido a si mesmo nunca mais dormir com Ariane e, na primeira oportunidade, quebrava a palavra por causa da Maldição.

A única coisa dentro de si, que tentava preservar e que lhe pertencia de verdade, finalmente se perdeu. Agora a palavra dele não valia mais nada.

— Está me rejeitando novamente?

A coxa de Ian ardeu, indicando que o Javali tinha despertado.

— O que aconteceu foi apenas um caso de necessidade, Madison, não pense que temos algum tipo de relacionamento, por menor que seja.

— Mas...

— Você é apenas um membro do meu Clã e serve às minhas ordens. Além do mais, não é como se eu tivesse esquecido todas aquelas coisas desnecessárias que você causou. O que aconteceu aqui, morre aqui.

Ela fechou a cara e se colocou de pé num único movimento. Ariane também estava nua e Ian não podia negar que ela era muito atraente. Tinha seios fartos, cintura estreita e quadris largos. As pernas eram torneadas e o traseiro era uma coisa linda de se ver, mais um tipo de corpo que Ian adorava contemplar. E com todas aquelas Marcas na pele, a beleza dela se tornava admirável, mesmo que aqueles desenhos indicassem uma Maldição que odiava.

— Não pode simplesmente me usar e me descartar.

— Fora — Ian disse simplesmente.

Ele não ia ficar discutindo com Ariane, ainda mais quando não tinha paciência para aquele tipo de assunto e que já havia debatido milhares de vezes. Ela aparentou pensar em dizer alguma coisa, mas simplesmente franziu o cenho, pegou o vestido no chão e saiu do quarto.

Ian não se arrependeu da atitude. Sabia que aquilo era o melhor a ser feito e estava cansado de toda aquela merda. Quanto mais dias se passavam, mais ele se via longe de encontrar a liberdade. E, embora tivesse ciência de que faltava muito pouco para se livrar da Maldição, precisava descobrir o que o Clã inimigo tinha em mente antes de encontrar o último Malddos e matá-lo. Ele não queria cair numa armadilha que o manteria preso para sempre com aquelas Marcas.

Preferia a morte a ter que conviver com aquilo por mais meia década.

Ele ouviu o celular vibrar em algum lugar e encontrou-o perto da poltrona que tinha duas caixas em cima. Ian pegou e atendeu a ligação sem se dar ao trabalho de ver quem era.

— Alô?

— Chefe — era a voz de Bamby —, encontrei um dos batedores do Clã de Azira. Ele está se deslocando para o centro da cidade.

Um prazer imenso brotou dentro do coração de Ian e se espalhou pelo corpo inteiro. A Marca da Ira se remexeu, aparentando estar animada com a notícia. Agora era só capturar aquele miserável e fazê-lo falar todos os planos do maldito Líder.

— Maravilha, Bamby — respondeu eloquente.

— Bina vai estar aí em cinco minutos — avisou.

— Hm.

Ian desligou o celular e foi para o banheiro apressado. Não havia mais tempo a perder. Finalmente a liberdade estava perto de ser alcançada.

E ele esperava que pelo menos aquilo desse certo.

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