Capítulo 6
— Criança não entende, fala sem pensar, não leve tão a sério. Por que ficar brigando com uma criança? — Ele evitou o olhar dela, e seu tom voltou a suavizar.

O favoritismo instintivo que transparecia em suas palavras foi como um tapa no rosto de Melina.

Quantas vezes, no passado, ela simplesmente ignorou esse tipo de parcialidade?

Mas agora ela tinha vontade de se estapear por ter demorado tanto tempo a perceber.

— Leonardo, me diz a verdade, você ainda me ama? — Sua voz saiu leve, quase como um suspiro.

O coração dele deu um solavanco. Ele a puxou para um abraço apertado, apoiando o queixo no topo de sua cabeça.

— Claro que amo! O que você está pensando? Como eu poderia não te amar? Eu sempre te amei.

Com o rosto pressionado contra o peito dele, Melina sentiu aquele cheiro familiar, mas seu estômago se revirou violentamente, uma náusea intensa subiu pela sua garganta.

Ela estava prestes a se desvencilhar daquele abraço sufocante, quando, do lado de fora, a voz suave, mas ansiosa, de Débora atravessou a porta:

— Sr. Leonardo! Pode vir aqui um instante? A Clarinha está fazendo birra no banheiro, não quer tomar banho de jeito nenhum. Eu sozinha não estou conseguindo lidar com ela...

O braço de Leonardo ao redor de Melina se soltou como se tivesse levado um choque.

— Tudo bem, já estou indo. — Quase por reflexo, ele a afastou.

Só quando sua mão já estava na maçaneta ele pareceu hesitar por um segundo, virando levemente a cabeça e lançando um olhar rápido para Melina:

— Melina, eu... vou lá dar uma olhada, está bem?

Melina ainda ia responder, quando o choro alto de Clara veio do outro lado. Leonardo saiu imediatamente, batendo a porta.

Melina esboçou um riso amargo. Ela apertou as mãos com força, a frieza dentro de si só aumentava.

Depois de comer o mingau e os acompanhamentos que Leonardo havia trazido, ela recuperou um pouco das forças e começou a se desfazer de tudo. Jogando fora, antecipadamente, tudo o que não tinha mais utilidade. Assim, quando fosse embora, seria mais fácil.

Tudo no quarto que lhe causava incômodo foi parar no lixo. Até o vestido de noiva e o traje tradicional que usou no casamento, ela embalou tudo e pediu para a Dona Lúcia levar para o lixo.

Quando Leonardo voltou ao quarto, deu de cara com a cena.

Um pedaço de tecido branco escapando do saco de lixo preto fez seu coração se apertar com uma estranha inquietação.

— Melina, para onde você mandou a Dona Lúcia levar esse vestido de noiva e essas roupas do casamento?

— Cansei desses vestidos. Pode jogar fora, assim libera espaço. — Melina encontrou o olhar dele com calma e indiferença.

"Leonardo, não é você que me pediu espaço, sou eu que não te quero mais.", ela pensou.

Ao vê-la tão tranquila, o coração de Leonardo pareceu ser puxado com força.

— Mas você disse que ia guardar esses vestidos para sempre, que, quando envelhecêssemos, ainda queria usá-los para tirarmos fotos juntos. Por que de repente quer jogar fora? — Ele não entendia.

— Depois compramos novos. Esses estão velhos, fora de moda. — Melina sorriu levemente.

Sim, antes ela os valorizava porque acreditava ser a única. A única mulher de Leonardo, a única a vestir aquele vestido por ele.

Mas agora havia outras pessoas ocupando tanto o coração dele quanto aquela casa.

Assim como aqueles vestidos, ela era apenas um fardo desnecessário naquela casa.

Eles já tinham se mudado para lá com a filha, e ainda havia outro filho a caminho. Ela não tinha motivo para não abrir espaço para eles.

A Dona Lúcia ergueu o saco de lixo para sair, mas Leonardo estendeu a mão para impedir, relutante.

— Não precisa jogar fora, pode guardar no depósito lá embaixo.

— Joga fora. É só lixo. — Melina foi firme.

O rosto de Leonardo ficou rígido.

Melina se virou e entrou no quarto.

Um aperto estranho surgiu no peito dele, só então lembrou que ainda devia a ela a comemoração do aniversário de cinco anos de casamento.

— Me desculpa. — Ele correu atrás, abraçando-a por trás. — Naquele dia eu não pude voltar para ficar com você. O projeto era muito importante, então eu e a Débora passamos a noite discutindo soluções.

Melina sabia que não deveria imaginar coisas, mas, maldição, a imaginação de um adulto é fértil.

— Não tem problema. Já passou. — Suas unhas cravaram novamente na carne. E, como se estivesse evitando uma doença contagiosa, ela se afastou dele.

Um traço de culpa passou pelos olhos de Leonardo. Ele ergueu a manga dela e viu uma marca de mordida bem visível no braço branco.

— O que é isso? — A raiva subiu dentro dele e ele franziu a testa, perguntando.

— A Clarinha me mordeu. — Melina baixou os olhos.

O peito de Leonardo apertou, mas, por instinto, ele ainda defendeu a menina:

— Crianças não têm noção de força. Ela está trocando os dentes, talvez esteja coçando.

— Uhum. — O peito de Melina ficou pesado.

— O médico disse que sua anemia está pior do que antes. Você precisa ficar em casa descansando, não sair para lugar nenhum, nem fazer tarefas domésticas. — Leonardo soprou levemente o ferimento.

— Vou descansar uns vinte dias, já deve dar. — Melina piscou, seu tom era calmo, sem qualquer traço de queixa.

— Vinte dias não é suficiente. Descansa direito. — Leonardo franziu a testa. — Até porque a Débora está morando aqui. Depois do trabalho, ela pode cozinhar e fazer sopas para você.

Ela achou que ele finalmente estava se preocupando com ela. Mas não, no fim, era isso.

Melina ergueu o olhar para ele e uma tristeza profunda atravessou seu coração.

Ela o amava tanto, tinha tanta certeza de que ele era o homem com quem passaria o resto da vida. Por isso desafiou o avô que tanto a amava, recusou o casamento arranjado entre famílias, abriu mão de toda a sua fortuna. Tudo isso só para ficar ao lado dele quando ele não tinha nada.

Ela esperava envelhecer ao lado dele. Mas mal sabia ela que esse relacionamento sempre foi a três.

Depois de um tempo em silêncio, ela reprimiu à força a dor em seu coração.

— Não é inconveniente dar tanto trabalho para Débora?

— Que trabalho? Ela não é uma estranha. — Ele desviou o olhar, a garganta se movendo.

Melina sentiu uma pontada repentina no coração. Seu corpo vacilou, quase caindo.

Percebendo sua angústia, Leonardo a segurou rapidamente e a deitou na cama.

No momento em que se deitou, ao encarar aqueles olhos ternos, seu coração apertou. Ela não conseguiu evitar e disse, em voz baixa:

— Leonardo, eu queria jantar só nós dois. Faz tanto tempo que não comemos juntos, pode ser?

Realmente fazia muito tempo.

A última vez que jantaram só os dois tinha sido quase um ano atrás, na véspera de Ano Novo.

E mesmo naquela noite, ele foi embora no meio do jantar, quando foi chamado por Débora com a desculpa de ser trabalho. Na verdade, Clara queria que ele fosse com ela na queima de fogos.

Melina sempre foi compreensiva. Nunca reclamou dessas coisas. Mas, justamente por ser tão compreensiva, ele não deveria tê-la feito sofrer desse jeito.

— Tudo bem, vou providenciar isso, está bem? — A garganta de Leonardo deu um nó, uma profunda sensação de culpa o invadiu.

— Está bem. — Melina assentiu.

"Leonardo, esse jantar será nossa despedida. Depois, cada um seguirá o seu próprio caminho."

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