Mundo de ficçãoIniciar sessão
O cheiro de couro novo e o silêncio pesado dentro do sedã blindado eram sufocantes. Eu olhava para a janela, onde a paisagem urbana de Milão se transformava rapidamente em muros altos e vegetação densa. Minhas mãos, frias e trêmulas, estavam apertadas no colo, amassando o tecido do vestido simples que eu usava.
Eu não sabia para onde estava indo. Na verdade, eu sabia o nome do lugar, mas meu cérebro se recusava a processar a realidade, a Mansão Rossi. O motorista, um homem de terno preto e expressão de pedra, não disse uma palavra durante todo o trajeto. Ele apenas me buscou na porta da minha casa ou o que restava dela com uma ordem direta: "Vim buscar a garantia da dívida de Marco Galli". Meu pai. Uma onda de náusea subiu pela minha garganta. Marco Galli não era apenas um jogador compulsivo; ele era um idiota que tinha acabado de vender a própria filha para o homem mais temido da Itália, eu sabia que ele estava devendo para a máfia, mas nunca imaginei que eu seria a moeda de troca. O carro parou. Os portões de ferro maciço se abriram devagar, revelando uma propriedade que parecia um forte. A mansão no final da avenida era escura e assustadora, um lembrete visual de que, uma vez lá dentro, eu nunca mais sairia. Quando o motorista abriu a porta para mim, minhas pernas quase falharam. O ar lá fora era mais frio. Eu fui guiada por corredores longos e silenciosos, decorados com arte cara e armas antigas expostas em vitrines. Tudo ali gritava poder e morte. — Espere aqui. O Senhor Rossi irá vê-la em breve — disse o motorista, me deixando em uma sala de estar gigante que parecia mais um tribunal do que um lar. Eu fiquei de pé, sozinha a adrenalina estava começando a ser substituída por uma raiva surda. Eu não era um objeto. Eu não era uma garantia. Eu era Chloe Galli. E se aquele mafioso achava que eu ia me ajoelhar e implorar, ele estava muito enganado. Eu caminhei até a janela, observando o pátio. Eu precisava de um plano de fuga, mesmo sabendo que era impossível. De repente, a porta atrás de mim se abriu com um estrondo. O som me fez saltar. Eu me virei lentamente. A silhueta dele preenchia o portal. Dante Rossi. Eu já tinha visto fotos dele nos jornais, geralmente saindo de tribunais com um sorriso cínico ou em eventos de caridade onde todos pareciam ter medo de respirar perto dele. Mas nenhuma foto capturava a presença esmagadora dele. Ele era alto, mais do que eu imaginava. O terno italiano sob medida parecia moldado em músculos de aço. Seus cabelos escuros estavam perfeitamente penteados, mas eram os seus olhos que me paralisavam, eram frios da cor de um céu de inverno antes da tempestade. Dante deu um passo para dentro da sala, a porta se fechou atrás dele, nos isolando do mundo, o silêncio voltou, mas agora ele vibrava com perigo. Ele não disse nada, ele apenas me estudou. Seus olhos percorreram cada detalhe do meu rosto, descendo pelo meu corpo, parando nos meus sapatos desgastados, e subindo novamente até meus olhos. Foi um exame clínico, degradante. Como se ele estivesse avaliando um cavalo ou uma obra de arte que acabou de comprar. A raiva me deu coragem. Eu não desviei o olhar. — Você deve ser o "capo" — eu disse, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — O homem que gosta de colecionar as dívidas dos outros em forma de pessoas. Dante arqueou uma sobrancelha, Um lampejo de algo que parecia diversão, mas que era mais como a curiosidade de um predador vendo a presa lutar, cruzou seu rosto gelado. Ele caminhou em minha direção, a cada passo, o espaço na sala parecia diminuir. Ele parou a poucos centímetros de mim, eu conseguia sentir o perfume caro dele, misturado com um cheiro sutil de pólvora e tabaco. Ele se inclinou, o rosto próximo ao meu, seus olhos estavam focados nos meus com uma intensidade possessiva que fez meu sangue gelar. — Eu não coleciono dívidas, cara mia — ele disse, sua voz uma oitava baixa, rouca e aterrorizante. — Eu coleciono obediência. A mão dele, grande e calejada, subiu devagar e parou na lateral do meu pescoço, seus dedos envolveram a minha garganta, não apertando, mas deixando claro quem tinha o controle ali, a pele dele era quente contra a minha, o contraste me fazendo tremer. — Seu pai me deve trinta milhões de euros — ele sussurrou, a respiração quente perto da minha orelha, me fazendo arrepiar inteira. — E ele me entregou você para garantir que eu não corte a cabeça dele e mande para a sua mãe. Eu tentei empurrá-lo, mas ele nem se mexeu. Ele era uma muralha. — Eu não sou propriedade dele para ele entregar! — eu assobiei, tentando afastar a mão dele. Dante segurou meus pulsos com a outra mão, prendendo-os contra o meu corpo com facilidade. Ele riu, um som baixo e perigoso que não chegou aos olhos. — A partir de hoje, Chloe Galli... você não pertence a ele, e você não pertence a si mesma. Ele soltou meus pulsos e apertou o aperto no meu pescoço, levantando ligeiramente o meu queixo para que eu fosse forçada a olhar bem no fundo daqueles olhos de gelo. — Você pertence a mim. — Ele decretou, a possessividade cruel vibrando em cada palavra. E então, o mundo pareceu parar, eu estava encurralada, presa entre o monstro e a dívida do meu pai. Dante me soltou e deu um passo para trás, como se eu fosse apenas um brinquedo que ele cansou momentaneamente de quebrar. — Levem-na para o quarto principal — ele ordenou para os guardas que apareceram na porta. — E preparem-na. Eu não gosto de esperar pelo que é meu. Os guardas me seguraram. Eu olhei para Dante, a fúria queimando em meus olhos. Eu não ia facilitar para ele. Mas quando eu estava sendo arrastada para fora da sala, eu o vi se virar para a janela, pegando um copo de uísque. E no reflexo do vidro, eu vi algo que me assustou mais do que sua ameaça: ele não parecia apenas o meu captor. Ele parecia... satisfeito. O que ele planejava fazer comigo? E eu sobreviveria ao primeiro jantar com o diabo?






