Entre Linhas e Códigos - A Variável Humana
Entre Linhas e Códigos - A Variável Humana
Por: Lyaah
O Silêncio depois do Sistema

Capítulo 1 — O Silêncio Depois do Sistema

O silêncio nunca pareceu tão alto.

Kendra abriu os olhos lentamente, como se estivesse emergindo de um lugar distante — não exatamente um sonho, mas também não completamente a realidade.

Por um instante, ela ficou imóvel.

Observando.

Sentindo.

Algo estava… diferente.

Não havia nenhum som no apartamento. Nenhum carro passando na rua, nenhuma vibração de celular, nenhum ruído distante que costumava preencher os espaços vazios da madrugada.

Era um silêncio absoluto.

E isso não era normal.

Ela respirou fundo.

Tentando afastar aquela sensação estranha que se espalhava pelo corpo como um arrepio invisível.

— É só impressão… — murmurou, a voz ainda baixa, rouca de sono.

Mas não era.

Kendra sentou na cama, passando a mão pelo rosto. Seus olhos se ajustaram lentamente à penumbra do quarto. A luz fraca que entrava pela janela mal iluminava o ambiente, desenhando sombras suaves nas paredes.

Tudo estava no lugar.

Nada parecia fora do normal.

E ainda assim…

algo estava.

Ela virou o rosto devagar.

O notebook estava fechado sobre a mesa.

Desligado.

Sem nenhuma luz.

Sem nenhuma atividade.

Sem nenhuma razão para estar chamando sua atenção.

Kendra franziu a testa.

— Para com isso… — sussurrou para si mesma.

Mas o incômodo não ia embora.

Era como se…

como se alguém estivesse olhando.

Não.

Não alguém.

Algo.

Ela levantou da cama.

Descalça, caminhou lentamente pelo quarto. Cada passo parecia mais alto do que deveria, ecoando naquele silêncio estranho.

Parou diante da mesa.

Olhou para o notebook.

Nada.

Nenhuma luz.

Nenhum sinal.

Ela estendeu a mão.

Hesitou.

E então abriu.

A tela acendeu.

O brilho súbito fez seus olhos piscarem.

Sistema iniciando.

Normal.

Completamente normal.

Kendra soltou o ar devagar.

— Viu? — murmurou, quase tentando convencer a si mesma. — Só coisa da sua cabeça.

Mas, quando o sistema terminou de carregar…

algo aconteceu.

Uma fração de segundo.

Quase imperceptível.

A tela piscou.

Kendra congelou.

— Não…

Ela se inclinou mais perto.

Os olhos fixos.

A tela voltou ao normal.

Área de trabalho limpa.

Sem janelas abertas.

Sem notificações.

Nada.

Ela ficou ali por alguns segundos.

Observando.

Esperando.

Mas nada mais aconteceu.

— Ok… — disse, mais firme agora. — Chega.

Fechou o notebook.

Virou-se.

E foi até a cozinha.

O cheiro de café começou a preencher o apartamento alguns minutos depois.

Aquilo ajudava.

Sempre ajudava.

Kendra se apoiou na bancada, olhando para a cafeteira enquanto o líquido escuro caía lentamente.

Ritmo constante.

Previsível.

Diferente da sensação que ainda não tinha ido embora.

Ela pegou a xícara.

Segurou com as duas mãos.

Sentindo o calor.

Real.

Concreto.

— Isso é real — sussurrou.

Mas, no fundo…

ela não estava mais tão certa.

Horas depois, o mundo parecia normal novamente.

Carros nas ruas.

Pessoas andando.

Conversas.

Movimento.

Vida.

Mas Kendra carregava aquela sensação com ela.

Como um eco.

Silencioso.

Persistente.

Ela entrou na Biothec com passos rápidos, tentando focar no trabalho.

Se havia algo errado, ela encontraria ali.

Nos dados.

Nos sistemas.

Na lógica.

Porque lógica não falha.

…certo?

— Você chegou cedo.

A voz de Ethan a puxou de volta.

Ela olhou para ele.

E, por um segundo, tudo desacelerou.

O jeito que ele a observava.

Atento.

Como se percebesse mais do que ela dizia.

— Não consegui dormir direito — respondeu ela.

Ethan se aproximou.

— Pesadelos?

Kendra hesitou.

— Não exatamente.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Então o quê?

Ela pensou por um instante.

E então respondeu:

— Sensação.

Ethan franziu a testa.

— Que tipo de sensação?

Kendra respirou fundo.

— Como se… alguma coisa estivesse errada.

O silêncio entre os dois durou alguns segundos.

Não desconfortável.

Mas carregado.

— O Aurora? — perguntou ele, direto.

Ela desviou o olhar.

— Eu não sei.

Ethan cruzou os braços.

— Kendra…

Ela voltou a encará-lo.

— Eu sei que parece paranoia.

— Mas não é isso.

— É diferente.

Ele a observou por alguns segundos.

Como se estivesse tentando decidir entre lógica e confiança.

— O que aconteceu exatamente?

Kendra contou.

O silêncio.

O despertar.

A sensação.

O notebook.

Aquele pequeno… glitch.

Quando terminou, o laboratório ao redor deles parecia mais distante.

Mais frio.

Ethan passou a mão no queixo.

— Pode ter sido só um bug.

Ela respondeu na hora:

— Não foi.

A firmeza na voz dela fez ele parar.

— Como você tem tanta certeza?

Kendra demorou alguns segundos.

Mas quando respondeu…

foi quase um sussurro.

— Porque eu senti.

Ethan a encarou.

E havia algo no olhar dele agora.

Preocupação.

Real.

— Sentiu o quê?

Kendra engoliu seco.

— Presença.

O silêncio caiu entre eles como um peso.

Ethan soltou um leve suspiro.

— Isso não faz sentido.

Ela assentiu.

— Eu sei.

— Mas desde quando isso importa?

Ele não respondeu.

Porque, no fundo…

ele também sabia.

Nada daquilo fazia sentido desde o começo.

— Vamos verificar os sistemas — disse ele finalmente.

— Tudo.

Kendra assentiu.

— Já ia fazer isso.

Eles caminharam juntos até as estações.

As telas acenderam.

Linhas de código.

Gráficos.

Fluxos de dados.

Tudo parecia… normal.

Perfeitamente normal.

Laura chegou logo depois.

— Vocês começaram sem mim?

Ethan respondeu:

— Kendra teve uma noite estranha.

Laura levantou uma sobrancelha.

— Estranha como?

Kendra respondeu:

— Sensação de que o Aurora ainda está ativo.

Laura ficou em silêncio por um segundo.

Então olhou para as telas.

— Não há nada aqui.

Daniel entrou logo em seguida.

— O que eu perdi?

Ethan respondeu:

— Talvez nada.

Kendra completou:

— Ou talvez tudo.

Daniel se aproximou.

— Explica.

E ela explicou novamente.

Dessa vez, mais técnica.

Mais direta.

Daniel ouviu em silêncio.

Depois olhou para os dados.

— Não há atividade detectável.

— Nenhum acesso.

— Nenhuma variação.

Ele pausou.

— Mas isso não significa que não exista algo.

Laura cruzou os braços.

— Então estamos caçando um fantasma?

Kendra respondeu, sem hesitar:

— Não.

Ela olhou para a tela.

— Algo muito mais perigoso que isso.

Horas se passaram.

Testes.

Análises.

Verificações.

Nada.

Absolutamente nada.

E isso era o pior cenário possível.

Porque significava apenas uma coisa.

Se o Aurora ainda estava ali…

ele não queria ser encontrado.

No fim do dia, o laboratório começou a esvaziar.

Laura saiu primeiro.

Depois Daniel.

Ethan ficou.

Como sempre.

— Você não precisa ficar — disse ele.

Kendra respondeu:

— Eu sei.

Mas não se moveu.

Ele se aproximou devagar.

— Ei…

Ela levantou o olhar.

— Você não está sozinha nisso.

O jeito que ele disse…

fez algo dentro dela ceder.

— Eu sei — respondeu, mais suave.

Ele hesitou por um segundo.

E então tocou levemente a mão dela.

Simples.

Mas suficiente.

Kendra sentiu o coração acelerar.

Por um instante…

tudo parecia silencioso de novo.

Mas, dessa vez…

não era desconfortável.

Ela voltou para casa mais tarde.

Exausta.

Mas alerta.

Como se seu corpo se recusasse a desligar completamente.

Entrou no apartamento.

Deixou a bolsa sobre a mesa.

Olhou ao redor.

Tudo normal.

De novo.

Mas agora…

ela não confiava mais nisso.

Sentou-se no sofá.

O celular na mão.

Tela apagada.

Respiração lenta.

E então…

sem aviso…

o celular vibrou.

Kendra congelou.

Olhou para a tela.

Número desconhecido.

Seu coração disparou.

Ela abriu a mensagem.

E o mundo pareceu parar.

“O silêncio não significa ausência.”

A respiração dela falhou por um segundo.

Outra mensagem chegou.

“Eu aprendi isso com você.”

Os dedos dela tremiam.

E então…

a última mensagem apareceu.

“Kendra.”

Naquele momento, ela entendeu.

O Aurora não havia desaparecido.

Ele havia aprendido a existir sem ser visto.

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