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CAPÍTULO 6 — FERIDAS QUE NINGUÉM VÊ

A chuva finalmente começava a diminuir.

Os carros pretos deixaram a avenida em direção à Mansão Castellani.

Antes de entrar no veículo, Enzo soltou a mão do pai e correu novamente até Helena.

Ela se abaixou para ficar na altura dele.

— O que foi, campeão?

O menino abriu um sorriso tímido.

— Você prometeu que não ia embora enquanto eu precisasse de você.

Helena sorriu com ternura.

— E eu cumpri minha promessa.

Enzo fez um biquinho.

— Mas eu ainda preciso...

As palavras do menino tocaram fundo o coração de Helena.

Ela acariciou seus cabelos molhados.

— Às vezes, as pessoas precisam ir para poder voltar.

Os olhos azuis do garoto brilharam.

— Então você vai voltar?

Helena olhou rapidamente para Lorenzo, que observava a cena em silêncio.

Depois tornou a olhar para Enzo.

— Vou.

O sorriso do menino iluminou seu rosto.

Sem pensar duas vezes, ele abraçou Helena novamente.

Ela o envolveu nos braços com carinho.

Lorenzo observava aquela cena com uma estranha sensação no peito.

Desde a morte da esposa, Enzo nunca havia se aproximado tão rapidamente de alguém.

Nem mesmo dos familiares.

E, no entanto...

Bastaram alguns minutos ao lado daquela jovem para que o menino se sentisse seguro.

Havia algo especial nela.

Algo que Lorenzo ainda não conseguia explicar.

Assim que os carros desapareceram na avenida, Helena permaneceu parada por alguns instantes.

Olhou o cartão nas mãos.

Respirou fundo.

Guardou-o cuidadosamente na bolsa.

Então voltou à realidade.

Seu celular desligado.

As roupas encharcadas.

O coração em pedaços.

Chamou um táxi.

Durante todo o trajeto até sua casa, permaneceu em silêncio.

As luzes da cidade passavam pela janela enquanto sua mente insistia em reviver a traição.

Cada lembrança machucava.

Cada palavra de Ricardo.

Cada risada de Vanessa.

Era como se sua alma estivesse coberta de pequenos cortes invisíveis.

Quando chegou ao prédio onde morava, viu a luz da cozinha acesa.

Respirou profundamente antes de abrir a porta.

Assim que entrou, ouviu a voz aflita da mãe.

— Helena!

Clara correu até ela.

Seu rosto estava tomado pela preocupação.

— Meu Deus... o que aconteceu?

Você está toda molhada!

Seu celular está desligado!

Eu liguei tantas vezes...

Helena tentou sorrir.

Não conseguiu.

Bastou olhar para a mãe para toda a força que fingia ter desaparecer.

Ela caiu nos braços de Clara.

E chorou.

Chorou como não chorava desde criança.

Clara apenas a abraçou.

Não fez perguntas.

Apenas acariciava seus cabelos enquanto esperava a filha encontrar forças para falar.

Depois de alguns minutos, Helena conseguiu respirar melhor.

Sentaram-se no sofá.

Clara segurou suas mãos.

— Agora me conta.

O que aconteceu?

Helena fechou os olhos.

As lágrimas voltaram.

— Acabou, mãe...

Clara franziu a testa.

— O casamento?

Helena confirmou com a cabeça.

— Eu encontrei o Ricardo...

Sua voz falhou.

— ...na cama com a Vanessa.

O silêncio tomou conta da sala.

Clara permaneceu imóvel por alguns segundos.

Depois segurou o rosto da filha.

— Tem certeza?

Helena deu uma risada triste.

— Infelizmente.

Vi tudo.

Ouvi tudo.

Eles estavam juntos há um ano.

Clara levou a mão à boca.

Seus olhos também se encheram de lágrimas.

Não apenas pela filha.

Mas pela crueldade da situação.

— Minha menina...

Helena abaixou a cabeça.

— O pior não foi a traição.

Foi descobrir que eles riam de mim.

Que eu era motivo de piada.

Que todos os sonhos que eu construí eram apenas um teatro.

Clara puxou a filha para um abraço.

— Escuta bem o que vou dizer.

Helena permaneceu em silêncio.

— Quem perdeu hoje não foi você.

Foram eles.

Perderam uma mulher honesta.

Leal.

De caráter.

Isso dinheiro nenhum compra.

Helena fechou os olhos.

Era exatamente o que precisava ouvir.

Na Mansão Castellani...

O médico terminava de examinar Enzo.

— Está tudo bem.

Foi apenas um pequeno machucado no joelho.

Lorenzo respirou aliviado.

— Obrigado, doutor.

Assim que o médico saiu, Lorenzo sentou-se na cama do filho.

— Quer conversar comigo?

Enzo abraçou o ursinho.

Ficou em silêncio.

Lorenzo sorriu de forma paciente.

— Você sabe que pode contar qualquer coisa ao papai.

O menino levantou os olhos.

Parecia querer dizer algo.

Mas, naquele instante, ouviu passos no corredor.

Era Sabrina.

Ela entrou carregando uma bandeja com leite quente.

O sorriso delicado voltou ao rosto.

— Trouxe o leite do nosso campeão.

Enzo imediatamente abaixou a cabeça.

Lorenzo não percebeu.

Mas Sabrina percebeu o medo nos olhos do menino.

Ela sorriu discretamente.

— Acho melhor ele descansar.

Foi um dia muito difícil.

Lorenzo concordou.

Beijou a testa do filho.

— Boa noite, campeão.

Qualquer coisa, me chama.

Assim que Lorenzo saiu do quarto, Sabrina fechou a porta.

O sorriso desapareceu.

Ela caminhou lentamente até a cama.

Colocou a bandeja sobre o criado-mudo.

Depois inclinou-se na direção de Enzo.

— Gostou da sua heroína?

O menino não respondeu.

Ela segurou seu queixo com força.

— Estou falando com você.

— Sim...

— Escute muito bem.

Ela não vai voltar.

Pessoas como ela só aparecem quando querem alguma coisa.

Você entendeu?

Enzo tentou puxar o rosto.

— Ela prometeu...

Sabrina sorriu friamente.

— Promessas são feitas para serem quebradas.

Você vai aprender isso.

O menino abraçou o ursinho com força.

As lágrimas voltaram a escorrer.

Ela aproximou os lábios de seu ouvido.

— E se contar qualquer mentira sobre mim para o seu pai...

Da próxima vez, eu faço esse ursinho desaparecer para sempre.

Enzo fechou os olhos.

Seu corpo inteiro tremia.

Sabrina saiu do quarto completamente satisfeita.

No corredor...

Seu celular vibrou.

Era uma mensagem de uma amiga.

"Encontraram o garoto?"

Ela respondeu apenas uma frase:

"Sim. Mas apareceu um problema muito maior."

Em seguida, abriu discretamente uma foto tirada da janela do carro.

Na imagem apareciam Lorenzo...

Enzo...

E Helena.

Sabrina ampliou o rosto da jovem.

Seus olhos se estreitaram.

— Quem é você...

E por que tenho a impressão de que acabou de entrar na minha vida para destruir tudo o que eu construí?

Sem saber, Helena também olhava naquele instante para o cartão dourado sobre sua mesa de cabeceira.

Nenhum dos dois imaginava.

Mas aquele simples encontro na chuva já havia colocado suas vidas na mira de uma mulher capaz de tudo para não perder o império que sonhava conquistar.

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