Mundo de ficçãoIniciar sessão
Capítulo 1
Mia já estava arrependida dos sapatos. Não da festa. Ainda. Dos sapatos, definitivamente. — Eu vou perder um dedo — reclamou, apoiando uma das mãos no balcão do banheiro feminino enquanto tentava aliviar o peso sobre o pé direito. — Talvez dois. Alice, diante do espelho, retocava o batom vermelho como se a amiga não estivesse anunciando uma amputação iminente. — Você está usando salto há quarenta minutos. — Quarenta e sete. — Está contando? — A dor faz coisas estranhas com a percepção do tempo. Alice soltou uma risada. — Você é impossível. — E você disse que seria uma comemoração pequena. — É pequena. Mia virou lentamente o rosto para encará-la. — Tem um DJ, Alice. — E? — Tem seguranças na entrada. — O lugar exige. — Tem uma mulher tocando saxofone no meio da pista! Alice guardou o batom na pequena bolsa dourada. — Ela é maravilhosa, inclusive. — Você entendeu o meu ponto. — Entendi que você reclama demais. Mia suspirou. Era inútil. Aos vinte e sete anos, conhecia Alice havia tempo suficiente para saber que "vamos tomar alguma coisa no meu aniversário" poderia signific desde uma garrafa de vinho no apartamento da amiga até uma festa para quase cem pessoas em um dos espaços mais disputados da cidade. Naquela noite, significara a segunda opção. Alice completava vinte e oito anos e decidira comemorar em grande estilo. O salão ocupava o último andar de um edifício sofisticado. Grandes paredes de vidro mostravam a cidade iluminada lá embaixo, enquanto lustres modernos derramavam uma luz dourada sobre mesas, sofás e arranjos de flores. A música era alta o suficiente para criar atmosfera, mas não tanto que impedisse uma conversa. Tudo parecia caro. Até o ar-condicionado parecia caro. E Mia se sentia ligeiramente deslocada. Não porque estivesse malvestida. Alice não permitiria. Mia usava um vestido preto de tecido acetinado, de alças finas, que acompanhava suavemente seu corpo e terminava alguns centímetros acima dos joelhos. O decote era delicado, mais elegante que ousado. Nos pés, estavam os responsáveis por seu sofrimento: sandálias pretas de salto fino. Os cabelos castanhos, naturalmente lisos com uma ondulação discreta nas pontas, estavam soltos sobre os ombros. A maquiagem era leve. Máscara nos cílios, um pouco de iluminador e batom em tom rosado. Nada exagerado. Ainda assim, quando saíra de casa, Alice levara três segundos olhando para ela antes de decretar: "Hoje você não vai ficar escondida em um canto." Mia tinha sérias dúvidas. — Posso tirar os sapatos? — perguntou. — Não. — Você nem pensou. — Porque conheço você. Se tirar, vai acabar esquecendo onde deixou. — Isso aconteceu uma vez. — Duas. Mia estreitou os olhos. — Uma delas não conta porque eu estava bêbada. Alice sorriu. — Pretende usar a mesma desculpa amanhã? — Amanhã? — Quando eu perguntar por que você passou meu aniversário inteiro perto da mesa de doces. — Não vejo problema nenhum nisso. Alice segurou a mão dela. — Vamos. — Para onde? — Para minha festa. — Nós já estamos na sua festa. — Não parece. Você está escondida no banheiro há dez minutos. Mia deixou-se arrastar. — Eu estava descansando os pés. — Claro. Quando retornaram ao salão, uma nova música começava. Alice imediatamente foi cercada por amigos. Mia aproveitou a distração para escapar. Não para a mesa de doces. Ainda. Primeiro pegaria alguma coisa para beber. Dante Jubran odiava festas em que precisava estar. As que escolhia frequentar eram outra história. Naquela noite, porém, estava ali por insistência de um amigo em comum com a aniversariante e já considerava ter cumprido sua obrigação social. Quarenta minutos. Um drinque. Duas conversas irrelevantes. Três pessoas perguntando sobre a Jubran Moda. Suficiente. Ele olhou discretamente para o relógio. 22h18. Poderia ir embora. — Você está fazendo aquela cara. Dante virou-se para Rafael, que segurava um copo de uísque. — Que cara? — A de quem está calculando quantos minutos precisa ficar antes de desaparecer sem parecer mal-educado. — Já calculei. Rafael riu. — É aniversário da Alice. — Eu lhe dei parabéns. — Há vinte minutos. — Então minha participação foi exemplar. — Dante... — Rafael. O amigo balançou a cabeça. Dante levou o copo à boca. Aos trinta e quatro anos, ele não tinha mais paciência para fingir entusiasmo onde não existia. Era um dos motivos pelos quais algumas pessoas o consideravam arrogante. Dante preferia objetivo. Com quase um metro e noventa, ele chamava atenção mesmo quando não desejava. O corpo forte, construído por anos de exercícios e uma disciplina que aplicava a praticamente tudo, fazia com que roupas simples parecessem escolhidas com mais cuidado do que realmente eram. Naquela noite, vestia calça social preta e camisa da mesma cor. As duas primeiras casas dos botões estavam abertas, dispensando gravata. As mangas dobradas até os antebraços deixavam visível o relógio de aço no pulso esquerdo. Os cabelos castanho-escuros, compridos o bastante para tocar a nuca quando soltos, estavam presos para trás em um coque baixo. A barba cheia e bem aparada acentuava o maxilar forte. Dante possuía o tipo de aparência que fazia as pessoas olharem duas vezes. Ele sabia disso. Apenas não considerava particularmente interessante. — Pelo menos tente se divertir — disse Rafael. — Estou me divertindo. — Você parece estar numa reunião do conselho. — Reuniões do conselho costumam ter bebidas melhores. Rafael soltou uma gargalhada. — Um dia alguém ainda vai conseguir acabar com essa sua arrogância. Dante ergueu o copo. — Desejo sorte à pessoa. Foi então que ele a viu. Não houve música diminuindo. Nenhum acontecimento extraordinário. Dante simplesmente estava olhando para Rafael em um momento e, no seguinte, sua atenção havia atravessado o salão. Uma mulher estava diante do bar. Vestido preto. Cabelos castanhos soltos. Baixa. Delicada. Bonita. Mas havia dezenas de mulheres bonitas naquela festa. Não foi isso que o fez continuar olhando. Ela parecia estar discutindo com o bartender. Dante estreitou ligeiramente os olhos. — Você está me ouvindo? — Não. — Pelo menos admite. Dante ignorou o amigo. A mulher apontou para alguma coisa atrás do balcão. O bartender respondeu. Ela franziu o nariz. Depois gesticulou. O homem riu. Ela também. Dante não conseguiu ouvir uma palavra. — Quem é? — perguntou. Rafael acompanhou seu olhar. — Quem? — A mulher no bar. — De preto? Dante lançou-lhe um olhar. Rafael observou ao redor. — Metade das mulheres está de preto. — Cabelo castanho. Perto da ponta do balcão. Rafael finalmente a encontrou. — Ah. — "Ah" não é uma informação. — Acho que é amiga da Alice. — Nome? Rafael olhou para ele, divertido. — Não faço ideia. Dante voltou os olhos para a desconhecida. Ela recebeu uma taça. Agradeceu ao bartender e virou-se. Por um segundo, Dante acreditou que seus olhares se encontrariam.






