Mundo de ficçãoIniciar sessãocapítulo 2
Não aconteceu. Ela passou os olhos pelo salão e simplesmente olhou através dele. Como se Dante fosse apenas mais um homem em uma festa cheia. Aquilo arrancou um sorriso discreto de sua boca. Interessante. — Não acredito — Rafael murmurou. — O quê? — Você se interessou. — Eu fiz uma pergunta. — Você nunca pergunta. — Talvez eu esteja me tornando sociável. — Isso seria preocupante. Dante tomou o restante do drinque. — Vou pegar outro. — O garçom acabou de passar. — Prefiro o bar. Rafael começou a rir. Dante não lhe deu atenção. — Sem álcool. Mia olhou desconfiada para a taça. — Absolutamente nenhum? O bartender sorriu. — Absolutamente nenhum. — Porque Alice já tentou me enganar uma vez. — Sua amiga esteve aqui. Mia arregalou os olhos. — Eu sabia. — Pediu que colocasse vodca. — Eu sabia! Ele riu. — Eu não coloquei. — Obrigada. Finalmente encontrei alguém confiável nesta festa. — Aproveite enquanto dura. Mia pegou a taça de bebida cítrica e se virou. Quase bateu contra um peito. Um peito. Porque foi a primeira coisa que viu. Preto. Camisa. Botões abertos no alto. Então levantou os olhos. E continuou levantando. O homem era enorme. Não de uma maneira exagerada, mas alto o suficiente para obrigá-la a inclinar discretamente a cabeça para trás. Mia encontrou primeiro a barba. Depois a boca. Depois os olhos. Escuros. Fixos nela. Por algum motivo, seu cérebro demorou um pouco mais do que deveria para produzir uma frase coerente. — Desculpa. Ele olhou para a taça que ela quase derramara. — Tecnicamente, fui eu que parei atrás de você. A voz era grave. Calma. Mia deu um pequeno passo para o lado. — Então a culpa é sua. Uma sobrancelha dele se ergueu. — Parece justo. — Ótimo. Mia fez menção de passar. Ele se deslocou na mesma direção. Ela tentou o outro lado. Ele também. Os dois pararam. Mia soltou uma risada curta. — Isso está ficando constrangedor. Um sorriso apareceu lentamente na boca dele. — Posso ficar parado. — Ajudaria. Dante obedeceu. Mia passou por ele. Três passos. Foi tudo que conseguiu dar antes de ouvir: — Você sempre foge depois de esbarrar nas pessoas? Ela virou-se. — Eu pedi desculpas. — Pediu. — Então não estou fugindo. — Tem razão. — Ótimo. Ela voltou a andar. — Agora está. Mia parou outra vez. Virou-se devagar. O desconhecido continuava perto do balcão, observando-a com uma expressão descaradamente divertida. Ela estreitou os olhos. — Você costuma irritar pessoas que acabou de conhecer? — Ainda não nos conhecemos. — Isso torna pior. Ele sorriu. E Mia percebeu algo inconveniente. Era bonito. Não. Bonito era uma palavra insuficiente. Ele tinha uma aparência intensa, masculina demais para passar despercebida. Ombros largos sob a camisa escura. Antebraços fortes. Cabelos compridos presos para trás. A barba conferia uma aparência um pouco indomável que contrastava com a roupa elegante. E aquele olhar... Mia desviou os olhos. Definitivamente não. Homens que sabiam que eram atraentes geralmente vinham acompanhados de problemas. — Dante. Ela voltou a encará-lo. — O quê? — Meu nome. Ele estendeu a mão. — Dante. Mia olhou para a mão dele. Depois para o rosto. — Você sempre se apresenta depois de provocar alguém? — Só quando funciona. — Quem disse que funcionou? — Você ainda está aqui. Aquilo a deixou sem resposta durante dois segundos. Dois segundos a mais do que gostaria. Então Mia colocou a mão na dele. — Mia. Os dedos de Dante se fecharam ao redor dos seus. A mão dele era quente. Grande. O aperto não durou além do necessário. Ainda assim, quando ele a soltou, Mia percebeu a própria mão vazia. Irritante. — Mia — ele repetiu. A maneira como pronunciou seu nome fez alguma coisa estranha acontecer em seu estômago. Ela tomou um gole da bebida. — Não faça isso. — O quê? — Falar meu nome desse jeito. Dante inclinou ligeiramente a cabeça. — Existe um jeito errado de dizer Mia? — Esse. — Ainda não explicou qual é. — Você sabe. O sorriso dele aumentou. — Talvez eu queira ouvir você explicar. Mia abriu a boca. Então fechou. Não. Não entraria naquele jogo. — Boa noite, Dante. Ela virou-se. — Mia. Mia continuou andando. — Não vai perguntar meu sobrenome? Ela olhou por cima do ombro. Dante ainda estava observando. — Eu deveria? Dessa vez foi ele quem ficou alguns segundos em silêncio. Mia sorriu. Pequeno. Satisfeito. E continuou andando. Encontrou Alice perto da pista. — Onde você estava? — a amiga perguntou. — Pegando uma bebida. — Por quinze minutos? — O bartender é simpático. Alice estreitou os olhos. Então olhou para trás de Mia. Sua expressão mudou. — Ah. Mia bebeu outro gole. — O quê? — Nada. — Alice. — Nada. Mia conhecia aquele sorriso. — O que foi? Alice aproximou-se. — Aquele homem estava falando com você? Mia não precisou perguntar qual. Ainda sentia os olhos dele em suas costas. Mesmo assim, fingiu indiferença. — Um cara chamado Dante. Alice arregalou ligeiramente os olhos. — E você sabe quem ele é? Mia olhou por cima do ombro. Dante agora conversava com outro homem. Como se sentisse o olhar, virou o rosto na mesma hora. Os olhos dos dois se encontraram. Dessa vez, de verdade. Ele não sorriu. Apenas sustentou o olhar. Mia foi a primeira a desviar. — Não — respondeu. — E sinceramente não estou curiosa. Alice abriu a boca para dizer alguma coisa. Mas alguém surgiu ao lado delas, abraçando a aniversariante e interrompendo a conversa. Mia agradeceu mentalmente. Voltou a beber. Conversou. Riu. Tentou prestar atenção no grupo. Cinco minutos depois, sem qualquer motivo razoável, olhou novamente para o bar. Dante não estava mais lá. Uma sensação absurda de alívio veio primeiro. A pequena decepção que apareceu logo depois foi muito mais difícil de explicar. Mia franziu a testa para a própria taça. Talvez Alice tivesse colocado álcool ali, afinal. — Mia. A voz veio atrás dela. Grave. Próxima. Ela fechou os olhos por um segundo. Não precisava virar para saber. Quando se virou, Dante estava ali. Dessa vez, segurava duas taças. Estendeu uma em sua direção. — Antes que reclame, perguntei ao bartender qual era a sua. Mia olhou para a bebida. Depois para ele. — Você é persistente. Dante aproximou-se apenas o suficiente para que não precisasse aumentar a voz sobre a música. Os olhos dele desceram por um instante até a boca dela antes de retornarem aos seus. — E você ainda não foi embora. Mia sentiu o coração acelerar. — É o aniversário da minha melhor amiga. — Então tenho a noite inteira. Ela deveria ter ido para o outro lado do salão. Deveria ter chamado Alice. Deveria, no mínimo, ter recusado a taça. Em vez disso, Mia estendeu a mão e a pegou. Os dedos dos dois se tocaram. Dessa vez nenhum deles afastou a mão imediatamente. — Não se anime, Dante. A voz dela saiu mais baixa do que pretendia. Ele inclinou o rosto um pouco mais perto. — Eu nem comecei, Mia. E, pela primeira vez naquela noite, ela teve a nítida impressão de que talvez os sapatos fossem o menor dos seus problemas.






