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O silêncio do Bellagio — o hotel mais luxuoso, vigiado e exclusivo de Las Vegas — não era algo fácil de quebrar. Naquela manhã de terça-feira, os corredores de carpete espesso e iluminação suave pareciam blindados contra o caos do mundo exterior. Mas o mundo exterior não contava com a fúria de Vitório Falconi.
A paz da cobertura presidencial ruiu não com um sussurro, mas com o eco pesado de dezenas de passos firmes. Soldados trajando ternos sob medida, com expressões de mármore e as mãos estrategicamente posicionadas perto dos paletós, tomaram o corredor. O número do quarto de Diogo Falconi havia sido descoberto minutos antes, após uma breve e intimidadora conversa na recepção. Para o Dom da máfia calabresa, portas trancadas eram apenas uma formalidade irritante. O estrondo foi violento. A fechadura eletrônica cedeu quando a bota de couro de Vitório atingiu a madeira maciça com um chute preciso. A porta abriu de chofre, batendo contra a parede e ecoando pelo ambiente imenso e desordenado. Na cama king-size, Diogo Falconi sentiu o barulho atingir seu cérebro como uma martelada direto no córtex. A cabeça dele explodia em uma dor latejante, fruto de uma quantidade absurda de tequila, uísque e decisões estúpidas tomadas nas últimas doze horas. Ele cobriu os olhos com o braço, soltando um gemido rouco de pura agonia. — Mas que porra... — Diogo resmungou, a voz falhando enquanto tentava se situar. Ao seu lado, um vulto se mexeu bruscamente sob os lençóis de fios egípcios. Manuela Garcia acordou sob o mesmo efeito de uma ressaca devastadora. O susto fez seu coração disparar, intensificando a pulsação dolorosa em suas têmporas. Instintivamente, ela puxou o lençol branco até o queixo, cobrindo o corpo e a minúscula camisola, os olhos castanhos arregalados de pavor enquanto fitava a silhueta imponente parada no limiar do quarto. Vitório Falconi entrou no recinto como um furacão controlado. O terno cinza-chumbo estava impecável, contrastando com o cenho franzido e o olhar que emanava puro perigo. Ele olhou para as garrafas vazias no chão, para as roupas espalhadas pelo tapete e, finalmente, para o filho jogado na cama. — Diogo! — a voz do velho ecoou, grave e cortante como uma navalha. — Você sumiu do país como um rato! Fugiu de mim, dos seus deveres, da sua própria terra! Eu criei um homem ou um moleque mimado que corre quando as coisas apertam? Diogo tentou sentar na cama, mas a tontura quase o fez desabar de volta no travesseiro. — Pai... fala baixo, caralho — Diogo resmungou, apertando as têmporas com os dedos. — O que você está fazendo aqui? Como me achou? — Eu sou o Dom da porra da Calábria, Diogo! Eu acho qualquer um. Principalmente um filho idiota que usa o próprio cartão de crédito internacional para alugar uma suíte de dez mil dólares por noite! — Vitório esbravejou, dando dois passos à frente. O velho mafioso gesticulava com irritação, pronto para continuar o sermão que vinha ensaiando desde que cruzara o Oceano Atlântico. No entanto, ao se aproximar da mesa de cabeceira de mogno, seus olhos de falcão captaram um pedaço de papel timbrado, meio amassado, repousando ao lado de um copo com um resto de limão. Vitório esticou a mão e pegou o documento. Diogo, ainda tentando clarear a visão, franziu o cenho, sem se lembrar do que havia naquela mesa. Manuela, encolhida no canto esquerdo da cama, mal respirava. Ela olhava do homem mais velho para o rapaz ao seu lado, sem entender absolutamente nada do dialeto misturado com português e italiano que o homem falava, mas captando o perigo na atmosfera. O silêncio que se seguiu foi pesado. Vitório leu o papel uma, duas vezes. Seus olhos passaram pelos nomes impressos: *Diogo Falconi* e *Manuela Garcia*. Logo abaixo, o carimbo oficial do estado de Nevada e a assinatura trêmula de ambos, testemunhada por um tal de "Elvis Aaron Presley". A expressão de fúria no rosto do patriarca congelou. Depois, lentamente, transformou-se em algo que Diogo nunca esperava ver naquela situação: um misto de surpresa e um contentamento quase cínico. Vitório soltou uma risada curta, jogando o papel de volta na mesa. — Ora, ora... Veja só o que temos aqui — disse o velho, cruzando os braços e encarando o filho. — Você não precisava ter fugido para se casar, Diogo. Se você não queria a noiva que eu te arrumei na Itália, bastava ter me dito que já tinha outra. Eu aceitaria a sua escolha sem problemas. Diogo piscou, confuso. Sua mente encriptada pelo álcool tentava processar as palavras do pai. — Do que você está falando? — Diogo perguntou, a voz saindo falha. — Estou falando disso aqui! — Vitório bateu o indicador na certidão de casamento. — Você está casado, seu imbecil. Com ela. O herdeiro da máfia travou. Ele virou a cabeça devagar, olhando para a garota ao seu lado. Manuela também o olhava, com os olhos arregalados, a boca semiaberta em puro choque. As memórias da noite anterior vieram em flashes desconexos na mente de Diogo: um bar escuro, risadas altas, ela chorando porque o pai queria casá-la com um banqueiro em São Paulo, ele bebendo porque o pai queria casá-lo na Itália... um desafio... uma capela neon... e um homem de terno brilhante. *Puta que pariu*, Diogo pensou. *Nós casamos.* — O problema nunca foi a noiva específica, Diogo — Vitório continuou, a voz agora assumindo um tom profundamente sério e ameaçador. — O que eu sempre quis é que você se casasse. Entendesse o peso da responsabilidade. Eu já estou velho, estou cansado. Quero me aposentar e passar os negócios da família para o meu único herdeiro legítimo. Mas eu preciso de um homem na liderança, não de um garoto inconsequente. Vitório deu mais um passo, parando bem na beirada da cama, olhando fixamente nos olhos verdes e injetados de sangue do filho. — Eu só espero que você esteja fazendo a coisa certa. Porque preste bem atenção, Diogo: esta é a última vez que eu vou aceitar as suas loucuras. A última. O quarto parecia ter ficado dez graus mais frio. Manuela se encolheu ainda mais, puxando o lençol até o nariz. — Se esse casamento não for algo sério... se isso for apenas uma piada de bêbado ou um truque barato para se livrar do acordo que fiz na Itália, eu vou te deserdar — Vitório disparou, cada palavra soando como uma sentença de morte. — Diogo, você está me ouvindo? Eu vou te tirar da família. Você perderá todos os seus direitos de ser o próximo Dom. Vou escolher outro homem à altura da família Falconi. Um dos seus primos assumirá o seu lugar, e você será exilado. Sem um tostão. Sem o nome Falconi. Você será um ninguém. Diogo engoliu em seco. Ele conhecia o pai. Vitório não blefava. Ameaçar tirar o título de Dom e exilá-lo era o limite extremo. Se Diogo dissesse a verdade ali — que não conhecia a garota, que tinha sido uma brincadeira estúpida de Vegas —, sua vida como ele conhecia estaria oficialmente acabada. Ele seria jogado aos leões, desonrado. Olhando para o pai e depois para a jovem assustada, Diogo tomou uma decisão rápida, guiada pelo puro instinto de sobrevivência. Ele endireitou a postura, ignorando a dor de cabeça. — É sério, pai — mentiu Diogo, mantendo a voz o mais firme possível. — Não foi uma brincadeira. Eu a conheci, me apaixonei e decidi que seria ela. Não queria o casamento arranjado que você impôs. Manuela olhou para Diogo como se ele tivesse enlouquecido, mas teve a presença de espírito de ficar de boca fechada. Ela percebeu que aqueles homens não eram pessoas comuns. O sotaque, a postura, os guardas armados na porta... aquilo cheirava à máfia. E ela estava nua na cama com o herdeiro deles. Vitório estudou o rosto do filho por longos segundos, procurando qualquer sinal de hesitação. Satisfeito com o que viu — ou fingindo estar —, o velho relaxou os ombros e olhou para o relógio de ouro em seu pulso. — Excelente — disse Vitório. — Você tem exatamente dois dias para organizar suas coisas aqui e voltar para casa, na Itália. Vou pessoalmente preparar a cerimônia de apresentação oficial da minha nora para toda a organização. Em seguida, o olhar do temido Dom se suavizou de forma surpreendente ao se voltar para Manuela. Ele caminhou até o lado da cama onde ela estava e se inclinou ligeiramente, adotando um tom de voz que beirava a doçura de um avô orgulhoso. — E para você, minha querida... — Vitório sorriu, as rugas ao redor dos olhos se acentuando. — Vou te esperar na Itália para nos conhecermos muito melhor. Você terá todo o meu apoio, de verdade. O meu maior sonho é ser avô. Quero ver uma descendência longa, ter muitos herdeiros correndo pelas terras dos Falconi. Quero que nossa família cresça forte. Manuela apenas assentiu, paralisada, com o coração batendo na garganta. Herdeiros? Filhos com o desconhecido tatuado e de ressaca ao seu lado? Ela queria gritar que era de São Paulo, que tinha uma vida, que só queria fugir do banqueiro, mas as palavras simplesmente sumiram. Vitório enfiou a mão no bolso interno do paletó e tirou um cartão de crédito preto, sem limite impresso, junto com um cartão de visitas dourado com o brasão da família. Ele os colocou delicadamente sobre o cobertor, perto das mãos trêmulas de Manuela. — Então, aqui está o meu cartão. Ele abre muitas portas, em qualquer lugar do mundo. Você pode me procurar para absolutamente qualquer coisa, a qualquer hora. Eu sempre vou estar ao seu lado, acima de tudo. Sabe por quê? Porque eu conheço bem o filho que eu tenho e sei o trabalho que ele dá. Você vai precisar de um aliado. Dito isso, Vitório deu um tapinha firme no ombro de Diogo, que ainda parecia processar o tamanho do problema em que havia se metido. — Dois dias, Diogo. Não se atrase. A Itália espera por vocês. Vitório Falconi deu meia-volta, sua capa invisível de autoridade arrastando-se pelo quarto. Ele saiu da suíte, seguido imediatamente pelo exército de soldados que vigiavam o corredor. A porta estilhaçada permaneceu escancarada, revelando o vazio do corredor luxuoso. Por quase dois minutos, nenhum dos dois ocupantes da cama se moveu. O silêncio voltou a reinar no Bellagio, mas era um silêncio carregado, grávido de consequências inimagináveis. Finalmente, Manuela soltou o lençol da altura do rosto, deixando o ar escapar de seus pulmões em um suspiro trêmulo. Ela virou o rosto lentamente para Diogo. — Quem... quem era aquele homem? — ela perguntou, a voz saindo num sussurro agudo. — E o que você quis dizer com "é sério"? Nós... nós estamos mesmo casados? Diogo passou a mão pelo rosto, puxando os cabelos escuros para trás. Ele soltou uma risada amarga, olhando para o teto da suíte presidencial. A dor de cabeça parecia ter triplicado, e agora não era por causa do álcool. — Aquele era o meu pai. E sim, nós estamos casados — Diogo respondeu, virando-se para olhá-la nos olhos. — E não sei o que você fez para me obrigar a assinar aquela certidão de casamento, então eu sugiro que comece a arrumar as suas malas. Nós vamos para a Itália.






