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# Capítulo 2 — Novos Caminhos

**Bianca**

— Filha, você tem certeza disso? Você pode trabalhar daqui do morro mesmo… — minha mãe fala, claramente triste.

— Tenho sim, mãe. Eles estão precisando de médicos e ninguém quer trabalhar lá. A senhora sabe melhor do que ninguém o quanto o povo é preconceituoso com o morro. Eu preciso ajudar aquelas pessoas. — respondo, e ela concorda com a cabeça, mesmo sem gostar da ideia.

Por mais difícil que fosse me deixar ir, nós duas sabíamos que aquilo era necessário.

Eu tinha dedicado a minha vida inteira à medicina. Sempre sonhei em ajudar quem realmente precisava, e o morro do tio Felipe estava carente de profissionais. Quando surgiu a oportunidade, eu aceitei sem pensar duas vezes.

— Eu sei, meu amor… mas vou morrer de saudades. Na verdade, já estou morrendo de saudades da minha princesinha. — Ela me abraça apertado, arrancando uma risada minha.

Pra mim também não era fácil ficar longe dos meus pais. Só que eu precisava aprender a caminhar sozinha.

Hoje eu começava a trabalhar no Complexo do Alemão.

Por mais que eu quisesse evitar qualquer contato com o Kauê, eu sabia que poderia ser muito útil ali. Os moradores estavam sofrendo com a falta de médicos competentes, e eu não podia ignorar isso.

Eu iria ficar na antiga casa do meu pai, o que já ajudava bastante. Assim economizava com aluguel, porque, agora, eu estava começando minha vida por conta própria e precisava aprender a controlar meu dinheiro.

— Mãe, nem é tão longe assim. A gente pode se ver todo final de semana. Eu nunca vou deixar de vir aqui. Quero continuar perto da senhora, do papai e do meu irmão. — digo, abraçando ela de novo.

Minha mãe sempre foi muito sensível.

— Eu sei, minha filha… só queria que seu pai estivesse aqui também. — Ela suspira pesado.

Mas nós duas levamos um susto quando ouvimos a voz rouca dele ecoando pela sala.

— Cheguei, meus amores!

Meu pai entra pela porta carregando várias sacolas.

Na mesma hora, minha mãe abre um sorriso enorme e corre para abraçá-lo.

Ela já estava abalada com a minha ida pro morro, mas a ausência dele tinha piorado tudo. Meu pai tinha saído em missão e ninguém sabia ao certo quando voltaria.

Assim que minha mãe se afastou, fui correndo abraçá-lo também. Eu já estava morrendo de saudades.

— Pai, que bom que o senhor voltou!

— Corri pra adiantar tudo, mas precisava me despedir de você. — Ele me aperta forte nos braços, quase me sufocando.

— Falando assim até parece que eu tô indo pra outro país. — rio.

— Pra mim é exatamente isso. — Ele dramatiza, fazendo minha mãe rir da expressão engraçada dele.

— Eu só vou pro morro do tio Felipe, pai. O senhor sabe que eles precisam muito de mim lá.

— Eu sei, meu amor. E é por isso que tenho tanto orgulho de você. — Ele sorri emocionado.

— Obrigada, pai. Eu que tenho orgulho de ser filha de vocês. Prometo que vou estar sempre vindo visitar. Nem vai dar tempo da saudade apertar.

— Vem mesmo, minha filha. Nós te amamos muito. — minha mãe fala, nos abraçando juntos.

— Patroa?

Olho para a porta e vejo Dentinho entrando.

— E aí, Dentinho? — meu pai cumprimenta ele.

— Fala aí, patrão. Vim levar a feiosa pro morro. — ele diz, me zoando, enquanto meu pai cai na risada.

Eu ia morrer de saudades dele também.

Dentinho sempre implicava comigo, mas era como um irmão. A gente brigava o tempo inteiro, mas se amava na mesma intensidade.

Ele tinha só um ano a mais que eu, mas desde pequena me protegia de tudo.

— Feio é tu, cabelo de capivara!

— Vai deixar ela falar assim comigo, tia? — ele pergunta pra minha mãe, fingindo indignação.

Minha mãe começa a rir, mas logo tenta disfarçar, me olhando séria.

— Bianca, respeita ele!

— Puxa-saca! — reviro os olhos, arrancando mais risadas deles.

Minha mãe tinha um carinho enorme pelo Dentinho. Quem visse de fora até pensava que ele era filho dela também.

E, sinceramente… era quase isso.

Abraço meus pais mais uma vez antes de sair.

— Vou indo, meus amores. Assim que eu chegar mando mensagem.

— Tudo bem, filha. Domingo vai ter churrasco na casa do FP, nós vamos pra lá.

— Mamãe ama você.

— Também amo vocês! — sorrio.

Saio de casa ao lado do Dentinho, que já começa a me irritar no caminho.

Como sempre.

Dentinho era completamente maluco pilotando moto. Em poucos minutos já estávamos na entrada do morro.

Mas, assim que paramos na barreira, meu coração pesa.

Porque a primeira pessoa que eu vejo é justamente quem eu menos queria encontrar agora.

Respiro fundo enquanto desço da moto com minha mochila.

Minhas coisas já estavam na casa. Antes de sair em missão, meu pai tinha me ajudado com tudo.

— Obrigada pela carona, Dentinho. — sorrio, abraçando ele forte.

— Pô, feiosa… vou sentir saudade de tu, papo reto.

— Eu também. Mas vou estar sempre indo visitar vocês.

— Acho bom mesmo. Qualquer coisa é só chamar que eu venho correndo. Tu sabe disso, né?

Concordo com a cabeça e abraço ele mais uma vez.

Logo depois, Dentinho sobe na moto e vai embora.

Fico parada por alguns segundos, olhando os meninos da barreira.

Tomo coragem e começo a subir.

Cumprimento alguns deles pelo caminho, mas evito ao máximo olhar pra ele.

Tudo o que eu queria era chegar logo em casa.

Agora eu sabia que as coisas seriam ainda mais difíceis comigo morando ali, tão perto dele.

Mas eu precisava focar na minha vida.

Precisava esquecer tudo o que aconteceu entre nós.

Aquilo não podia… e nem devia… acontecer de novo.

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