6. MABEL

Aquela tarde não foi mais a mesma depois que vi as fotos de Caio naquele jornal.

Assim que entrei no quarto, sentindo o coração apertado e uma inquietação que parecia não querer ir embora, peguei meus tranquilizantes. Tomei o medicamento e fui até a janela. Abri-a lentamente e fiquei olhando para o meu jardim.

As flores balançavam suavemente com o vento, e o perfume das rosas chegava até mim.

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas vezes.

Três vezes.

Eu precisava me acalmar.

Fui até a mesa de cabeceira, peguei uma garrafa de água e bebi alguns goles. Aos poucos, a tensão começou a diminuir, mas a imagem de Caio continuava presa à minha mente.

Eu jamais quis voltar a vê-lo.

Nunca.

Durante todos aqueles anos, fiz de tudo para apagar aquele homem da minha vida. Mudei meus hábitos, me escondi naquele sítio, construí uma nova rotina e aprendi a viver longe de tudo que pudesse me lembrar do passado.

E, sem saber, comprei justamente o maldito jornal que trazia o rosto dele estampado.

Parecia uma brincadeira cruel do destino.

A imagem dele me fez lembrar de uma coisa que eu preferia não admitir.

Caio continuava lindo.

Sua beleza era indiscutível.

Mesmo depois de tantos anos, aquele rosto ainda era capaz de provocar em mim sentimentos que eu não queria sentir. O mesmo homem que um dia me fez acreditar que eu era o amor da sua vida agora aparecia nas páginas policiais algemado e acusado de algo tão grave.

Fechei os olhos e balancei a cabeça.

Não.

Eu não podia voltar para aquele lugar.

Fui até o banheiro, lavei o rosto e fiquei alguns segundos olhando para o meu reflexo no espelho. Prendi meus longos cabelos e respirei fundo.

Eu precisava ocupar a mente.

Precisava trabalhar.

Precisava cuidar do sítio.

Precisava impedir que as lembranças do passado voltassem para me atormentar.

Mais calma, tentei retomar a minha vida.

Afinal, eu ainda tinha um sítio para cuidar e dívidas para pagar. Aquele lugar era meu refúgio, o único espaço onde me sentia protegida.

Eu estava bem escondida ali.

Caio jamais saberia onde eu estava.

E, mesmo que descobrisse, eu não permitiria que ele voltasse a fazer parte da minha vida.

Nós nunca mais cruzaríamos o caminho um do outro.

Era nisso que eu precisava acreditar.

Ao chegar à cozinha, senti o cheiro de chá espalhado por toda a casa. Conhecia aquele aroma e sabia que Denise estava preparando alguma coisa para me acalmar.

— Por favor, senhora Mabel, sente-se. Fiz um chá calmante para a senhora.

— Quero uma xícara — respondo, desanimada.

Denise coloca a xícara sobre a mesa e se senta ao meu lado.

— Senhora Mabel, aqui está o chá. E me perdoe por não ter percebido antes... Eu pouco conheço da sua história. Não sabia que esse homem tinha feito tanto mal à senhora.

Seguro a xícara entre as mãos e fico olhando para o vapor que sobe dela.

— Não precisa se desculpar, Denise. Nós não temos culpa do que aconteceu com ele. Homens e suas vaidades...

Dou um pequeno suspiro.

— Só lamento por mim. Um dia larguei tudo em nome de um amor que nunca existiu. Eu não percebi que Caio era ambicioso demais. Ele foi capaz de terminar o nosso casamento por causa de uma cadeira de CEO em outro país.

— Lamento muito, senhora Mabel.

Olho para Denise e tento controlar meus sentimentos.

Muita água já passou debaixo dessa ponte.

Não adiantava continuar chorando pelo passado.

Tomei o chá lentamente e, depois, saí para caminhar pelo sítio.

Aquele lugar era rico em verde, vida e tranquilidade. Mesmo quando meu coração estava destruído, bastava caminhar por entre as árvores para sentir um pouco de paz.

Talvez fosse uma paz momentânea, mas era suficiente para mim.

Acompanhei Assis na colheita das verduras e hortaliças. Ele já estava trabalhando quando cheguei e me recebeu com um sorriso.

— Bom dia, senhora Mabel.

— Bom dia, Assis. Vamos terminar essa colheita antes que o sol fique ainda mais forte.

— Como quiser.

Passamos um bom tempo trabalhando juntos.

Depois, fui até a estufa onde cultivava minhas rosas.

A carroça já estava pronta. Coloquei algumas sementes, adubos e ferramentas e segui até a plantação.

Por menor que fosse, eu cuidava de cada parte dela com todo o carinho.

Aquele lugar era muito mais do que uma fonte de renda.

Era a minha casa.

Era onde eu havia reconstruído a minha vida.

Era onde aprendi a sorrir novamente.

Por isso, quando percebi que alguns insetos estavam devorando minhas flores, inclusive as orquídeas, senti uma enorme frustração.

— Não pode ser... — murmuro, olhando para algumas folhas danificadas.

Passei os dedos delicadamente por uma das flores e senti vontade de chorar.

Parecia que tudo estava dando errado ao mesmo tempo.

Primeiro, o passado voltava para me assombrar.

Depois, o banco ameaçava acabar com os meus planos.

Agora, até minhas flores estavam sendo atacadas.

Só queria saber que castigo era aquele.

Levei a mão ao rosto, mas me obriguei a respirar fundo.

Não.

Eu não iria chorar.

Eu era uma mulher forte.

Tinha sobrevivido a coisas muito piores.

— Vai haver uma luz no fim do túnel — falo comigo mesma. — Toda essa situação vai mudar.

Trabalhei até o corpo pedir descanso.

Quando percebi, já era fim de tarde.

Voltei para casa cansada, suada e com as mãos doloridas, mas encontrei Kaique esperando por mim.

Assim que me viu, ele correu em minha direção.

— Tia Mabel!

Ele me abraçou apertado.

— Estou achando você triste.

Apertei meu menino contra mim.

— Estou apenas cansada. Foi um dia cheio. Como foi o seu dia, meu anjo?

Tento sorrir para que ele não perceba o quanto estou triste.

— Denise já me ajudou com o meu banho. Agora tenho algumas atividades para fazer.

— Vou tomar um banho e depois vou ajudar você.

— Está bem, tia.

Kaique corre para dentro da casa.

Fico observando aquele menino por alguns segundos.

Crianças têm uma energia tão boa.

Elas conseguem transformar o ambiente sem nem perceber. O que parece pesado se torna mais leve quando Kaique está por perto.

Entrei no quarto e fui direto para o banho.

Enquanto a água caía sobre meu corpo, comecei a pensar em como minha vida teria sido diferente se algumas coisas tivessem acontecido de outra maneira.

Meu maior sonho sempre foi ser mãe.

Eu queria ter uma casa cheia de crianças correndo pelos corredores, brinquedos espalhados pela sala e alguém me chamando de mãe.

Mas esse sonho foi arrancado da minha vida.

Por alguns segundos, pensei em Caio.

Fechei os olhos e afastei aquela lembrança.

Não queria pensar nele.

Não queria pensar no que poderíamos ter sido.

Depois do banho, ajudei Kaique com suas tarefas. Ele estava concentrado e fazia perguntas sobre tudo, como sempre.

Sorri várias vezes enquanto explicava algumas atividades.

Quando terminamos, coloquei-o para dormir e fui para o meu quarto.

Estava exausta.

Deitei e fechei os olhos.

Não sei em que momento adormeci.

Naquela madrugada, sonhei com Caio.

Ele estava diante de mim.

Sorria.

Era o mesmo sorriso que um dia me fez acreditar que eu era a mulher mais feliz do mundo.

Mas eu não conseguia decifrar o motivo daquele sorriso.

Ele apenas me olhava.

— Caio...

Acordei assustada, sentando-me rapidamente na cama.

Meu coração batia acelerado.

Olhei ao redor do quarto e demorei alguns segundos para perceber que estava em casa.

Era apenas um sonho.

Procurei imediatamente a garrafa de água e bebi alguns goles.

Passei a mão pelo rosto e respirei fundo.

— Foi apenas um sonho.

Deitei novamente e, depois de algum tempo, consegui voltar a dormir.

---

Na manhã seguinte, acordei bastante tarde.

Levantei-me, fiz minha higiene e comecei a procurar uma roupa para descer quando meu celular recebeu uma notificação.

Peguei o aparelho sem imaginar que aquela mensagem mudaria completamente o meu dia.

Era uma mensagem do banco.

Abri.

Li uma vez.

Depois, li novamente.

Meu coração despencou.

O meu empréstimo havia sido negado.

Segundo a mensagem, eu só teria direito ao empréstimo caso apresentasse um avalista.

Sentei-me na cama.

Não consegui pensar em nada por alguns segundos.

O coração chorava.

Eu não tinha amigos ricos naquela cidade.

Não tinha ninguém que pudesse assumir aquela responsabilidade por mim.

Acordar recebendo uma notícia daquelas era terrível.

Passei as mãos pelo rosto.

Agora só me restava uma alternativa.

Vender o sítio.

A ideia me destruiu por dentro.

Eu teria que deixar aquele lugar.

O lugar onde reconstruí minha vida.

O lugar onde plantei minhas primeiras rosas.

O lugar onde Kaique cresceu ao meu lado.

E o pior de tudo seria dar aquela notícia a Denise e Assis.

Eles teriam que se acostumar com uma realidade que eu mesma ainda não conseguia aceitar.

Respirei fundo.

Vesti-me de coragem e saí do quarto.

Ao chegar à cozinha, encontrei Denise preparando o café. Kaique estava sentado em um canto, concentrado na construção de um dos seus brinquedos de madeira.

Provavelmente Assis havia ido à cidade.

Andei lentamente até a mesa.

Denise me olhou e sorriu.

— Venha tomar seu café, senhora Mabel. Pelo horário, dormiu bem!

Não consegui sorrir.

— Não consegui o empréstimo.

Minha voz saiu baixa.

Denise imediatamente deixou o que estava fazendo.

— Senhora Mabel...

— Vou precisar vender o sítio. Não tem saída. Preciso pagar pelo tempo de trabalho de vocês e, depois, o restante será suficiente para eu voltar ao meu país de origem.

Sentei-me à mesa, tentando não chorar.

O silêncio tomou conta da cozinha.

Kaique havia parado de mexer no brinquedo.

Ele estava nos observando.

— E eu, tia Mabel? — pergunta com a voz embargada. — Onde e com quem vou ficar?

Meu coração se parte.

Eu não queria que ele tivesse ouvido aquela conversa.

— Meu amor, eu não queria que você ouvisse uma conversa de adulto.

Levanto-me e vou até ele.

— Você vem comigo aonde quer que eu vá.

Kaique me abraça e começa a chorar.

Aperto-o contra meu peito, sentindo minhas próprias lágrimas ameaçarem cair.

— Tia Mabel, eu amo esse lugar lindo. Não queria ir embora daqui.

— Kaique, aqui também é a minha vida. Mas a tia está falida e não me resta outra saída.

Faço carinho em seus cabelos.

— Só confia na titia.

Ele se agarra ainda mais a mim.

Aquele abraço me dá forças, mas também torna tudo mais difícil.

Passei o restante da manhã tentando resolver o que precisava ser feito.

Quando Assis voltou da cidade, contei a ele sobre a decisão.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— A senhora tem certeza disso?

— Não, Assis. Não tenho certeza de nada. Só sei que não tenho outra opção.

Denise começou a chorar.

— Esse lugar nunca mais será o mesmo sem a senhora.

Aquelas palavras me atingiram profundamente.

— Eu também não sei como vou viver longe daqui.

Nós três nos abraçamos.

Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.

Depois, juntos, colocamos a placa de VENDE-SE na grande porteira que dava acesso ao sítio.

Fiquei parada diante dela por alguns minutos.

Olhei para a casa.

Para as árvores.

Para a plantação.

Para a estufa.

Para as rosas que cuidei durante tantos anos.

Tudo aquilo estava prestes a deixar de ser meu.

Passei a mão pela porteira e senti um nó na garganta.

— Só espero que o novo dono cuide de tudo tão bem quanto eu cuidei — murmuro.

Denise segura minha mão.

— A senhora vai encontrar outro lugar para chamar de casa.

Olho para ela e tento acreditar.

Talvez ela tivesse razão.

Talvez aquele fosse apenas o fim de uma fase.

Mas, naquele momento, tudo o que eu conseguia sentir era dor.

Aquele sítio havia sido o lugar onde escondi minhas feridas, onde tentei esquecer Caio e onde aprendi novamente a amar a vida.

Agora, eu estava prestes a perder tudo.

E, sem imaginar, o destino estava preparando uma nova surpresa para mim.

Uma surpresa que faria o meu passado voltar até a minha porta.

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