Capítulo 6

Dor

Estado de espírito caracterizado por decepção, desgosto ou desgraça; sofrimento moral; decepção, dissabor, mágoa. - Dicionário Michaelis

Magda acorda com o sol entrando pela sala do apartamento minúsculo onde mora. A televisão está ligada e Norman Bates mata uma mulher enquanto usa um robe azul lindo, que Magda fez questão de costurar igual, um em tecido leve para o verão e outro mais pesado para o inverno. Ela coça os olhos e limpa os dedos em um guardanapo que está na mesinha ao lado do sofá. Seu bichinho de pelúcia puído, que lhe acompanha nas noites desde que tinha quinze anos, está esmagado sob as duas almofadas que ela usou como travesseiro.

No celular, uma de suas redes sociais berra uma quantidade absurda de notificações, mas ela não olha para isso, apenas se levanta, leva o prato para a cozinha e j**a tudo na pia, ligando a chaleira para que possa fazer um café forte.

Em outro ponto da cidade, Alan está chegando em casa, o corpo suado da corrida que fez pelo bairro seguro e arborizado. Um saco de pão francês, que ele chama de pão de sal, está agarrado pela ponta e ele segura o elevador para sua vizinha de andar poder sair com tranquilidade, a bengala auxiliando-a na caminhada lenta.

“Bom dia, meu jovem,” ela saúda.

Alan acorda cedo mesmo que esteja de férias. Ele sai para correr, para ver os mesmos vizinhos de sempre e conversar com a atendente da padaria que, vira e mexe, lhe guarda um sonho fresquinho que ela mesma fez. Ele entra no apartamento bem iluminado, deixa o pão sobre a mesa e pede para seu aparelho Home ler a previsão do tempo. Ele sabe que vai fazer calor o dia todo, mas pode ter tempestade no fim do dia e neste momento, está pedindo para tocar o podcast da Folha.

Alan toma seu banho, veste uma roupa leve e toma o café da manhã com tranquilidade, o sol vai bater na janela apenas a tarde, mas o apartamento está bem iluminado e fresco e o dia está lindo lá fora, mesmo que a cidade seja bem poluída e sempre deixe uma camada cinza ser vista ao longe.

Uma hora e meia depois, ele já escovou os dentes e está indo para o escritório onde trabalha, já que não confia muito que seu parceiro dará conta da empresa – ou ele só é um viciado em trabalho que fica inquieto demais quando está de férias e não viaja.

Magda não está trabalhando e ela vê a conta bancária recheada. Há um e-mail da secretária de Rasha dizendo que o próximo pagamento caíra na próxima segunda. O valor vai ser o descrito no contrato assinado após o programa, o total de vinte porcento do que foi pago para que ela participasse como tapa buracos.

 Se a audiência aumentasse, se o público gostasse dela então o pagamento poderia aumentar. E isso era previsto até o último programa em que participasse.

Era um trabalho, pensou Magda enquanto pagava todas as faturas do cartão de crédito e diminuía o limite. Ela morde uma bisnaguinha enquanto o computador abre uma planilha de gastos. Ela quita tudo e recalcula as despesas fixas. Ainda sobrou dinheiro na conta, mas não consegue pensar que talvez deva pensar em viajar por uns dias, em aproveitar o dinheiro como algo bom e não só como um problema a ser evitado.

Magda não gosta de dever, ela prefere ser triste e infeliz do que correr o risco de não conseguir pagar o cartão no ato. Ela não viaja, não vai no cinema mais de uma vez a cada dois meses e nunca, em hipótese alguma, compra pipoca.

Magda tem medo. Muito medo de dinheiro. De faltar dinheiro, como faltou durante toda a sua infância.

Desjejum terminado, contas pagas, a ruiva desliga a televisão e se espreguiça, decidindo que está na hora de ir tomar banho, talvez, quem sabe, não possa ir até os jardins do apartamento e desenhar um pouco por lá? Ela segue ignorando as notificações do celular.

Quando chega no trabalho, Alan é recebido com uma pequena festinha que a equipe fez. Ele ri, fica ruborizado e pede que deixem de bobagem. Seu colega de sociedade diz que a menina ruivinha é muito gatinha e questiona se ele teria como lhe passar o número dela, caso não a escolha. Ninguém, jamais, desconfiaria que Alan Pegatto não passaria por lá.

“Obviamente não,” Alan responde. Ele ainda adiciona, “afinal, eu não tenho o contato de nenhuma garota e nem posso ter,” mas seu amigo sabe que isso é mais uma desculpa do que uma verdade.

Tudo bem, ele realmente não pode ter contato com nenhuma das meninas via rede social; ele também não pode pedir ou conseguir o telefone de nenhuma dela, mas porque ele passaria o contato dela se ele mesmo estava interessado?

Foram gravados dois programas. Magda não foi eliminada em nenhum deles.

E isso gerou um grande rebuliço na equipe, principalmente nas duas garotas que foram eliminadas, já que... Bom, Alan soube do estrago que suas escolhas fizeram por um dos caras da equipe, mas com Magda, as coisas foram diferentes.

Nenhuma pessoa poderia falar sobre o ocorrido por pelo menos dez anos, sabendo que isto levaria a uma quebra de um contrato caríssimo.

Só que Magda estava estarrecida de não ter sido eliminada, ultrajada talvez fosse o termo mais correto! Depois que a gravação do programa terminou, Magda voou para o camarim de Rasha e basicamente começou a gritar todos os pensamentos que estava tendo, deixando tudo fora de sentido.

Enquanto Rasha tentava segurar o riso pela situação, as duas meninas eliminadas mergulharam porta a dentro e colocaram a ruivinha contra a parede acusando-a de coisas que não seriam de bom tom serem reproduzidas.

“Eu concordo!” Magda diz enquanto tenta esquecer da dor em suas costas, “eu deveria ter sido eliminada!”

A discussão só acabou quando um estrondo surgiu na sala. As três garotas olharam na direção do barulho e viram o espelho do camarim estilhaçado, com Rasha segurando uma garrafa de alumínio contra o item enorme.

“Que é que está acontecendo aqui?” Perguntou com uma suavidade apavorante.

Duas meninas gaguejaram, sem conseguir gerar nenhuma palavra a respeito do ocorrido. O silêncio parece um monstro que sai engolindo tudo, mas Magda resolve ser a que fala algo:

“ Eu deveria ter sido eliminada...”

“Devia mesmo!” Uma das eliminadas reafirma.

Quando conta isto para Roseane, sua namorada, Rasha precisa parar seu relato, pois Julian gargalha. Ele é casado com Roseane há vinte anos e não se importa nem um pouco com o namoro da esposa com Rasha. “Eu perdi isso?” Ele pergunta retoricamente, “que pena que não estavam gravando.”

Rasha bebe um gole de vinho rose e sente os dedos de Roseane correndo por sua cocha direita, uma carícia cheia de promessas para aquela noite.

“Pois bem,” Muniz continua a história, o corpo se aquecendo com o toque da namorada que domina a televisão aberta mesmo sem aparecer em público.

“Vocês realmente acreditam na injustiça?” Pergunta para as três.

“Bom...” Uma delas tenta falar algo. “Acho que... depende né?”

“Ela já deveria ter sido eliminada, ela nem foi escolha dele.” A outra explode.

“Ele a escolheu. Escolheu tirar vocêsduas. Além disso, pelo que posso ver, a covardia e imaturidade de vocês mostra que ele realmente pode ver além de um rostinho bonito.”

Rasha queria dizer que elas eram podres por dentro, mas tinha que se manter calma, afinal, havia gente demais naquela sala e o processo sobre ela seria bem pesado. O assunto foi encerrado com Rasha lembrando as três meninas de que no contrato assinado, há um clausula onde as personagens poderiam ser alteradas até a data do primeiro programa; que a escolha de quem ficava ou ia era exclusivamente feita pelo príncipe; que participar do programa deixava todas cientes.

Magda sentou no balanço do parquinho que havia na praça em frente ao prédio. Isis tomava um sorvete e alguns caras passaram assoviando para ela, pois seu top de academia deixava o corpo a mostra e, se tinha algo que todo mundo teria que concordar, é que Isis tinha um corpo bonito.

“Eu acho que ele gostou mesmo de você,” Isis diz.

Magda geme, nem uma concordância, nem uma discordância, apenas um gemido solto por quem está pensando demais em algo. E ela pensa muito bem sobre o último programa gravado. A prova consistia em escolher um cômodo de sua própria casa para apresentar ao príncipe. Algo para fazerem juntos neste cômodo e explicar o motivo da escolha.

A combinação não escolhida eliminaria a garota.

“Eu só sei que não é justo estar neste programa, Isis.” Geme a ruiva. Ela teria que dar um jeito de ser eliminada, mesmo que todas as vezes, durante aquele dia, em que pensou isto, uma dor surgia no seu peito.

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