CAPÍTULO 07

Anos depois…

O som de explosões ecoava pelo campo de guerra enquanto ambulâncias atravessavam a fumaça e os destroços em alta velocidade.

Membros dos Médicos Sem Fronteiras corriam de um lado para outro carregando feridos em direção às tendas improvisadas da Cruz Vermelha.

Tiros cruzavam o céu.

Bombas explodiam ao longe.

O caos parecia não ter fim.

Dentro de uma das ambulâncias, o motorista desviava bruscamente dos escombros enquanto tentava escapar da linha de fogo dos guerrilheiros.

— Tenta dirigir um pouco mais devagar! — o médico gritou do banco traseiro. — Preciso retirar a bala dela agora!

O motorista soltou uma risada nervosa.

— Doutor… acho que hoje você vai ter que fazer milagre aí atrás!

A enfermeira se segurou na lateral da ambulância antes de olhar para o médico.

— Vai arriscar mesmo?

O homem apenas estendeu a mão.

— Me passa os instrumentos.

Sem perder tempo, ela entregou os equipamentos.

O médico respirou fundo.

Então começou a cirurgia ali mesmo enquanto a ambulância sacudia violentamente.

Do lado de fora, tiros atingiam o chão próximo ao veículo.

Em determinado momento, uma explosão fez todos se jogarem no piso da ambulância.

O motorista acelerou ainda mais.

Segundos depois, finalmente atravessaram a zona de conflito.

A enfermeira abriu um pouco a cortina e suspirou aliviada.

— Graças a Deus… chegamos.

O médico terminou o procedimento e retirou as luvas rapidamente.

— A bala saiu.

Então olhou para os outros.

— Vamos logo!

As portas da ambulância foram abertas às pressas.

A maca foi retirada imediatamente enquanto os profissionais seguiam correndo pelo hospital improvisado.

Algum tempo depois…

Um enorme caminhão preto parou diante do hospital da Cruz Vermelha.

De dentro dele saiu um homem alto, elegante e usando óculos escuros.

Mesmo em meio ao cenário destruído, sua presença chamava atenção.

Ele observou o lugar por alguns segundos antes de entrar calmamente.

Na recepção improvisada, algumas enfermeiras o olharam curiosas.

O homem retirou os óculos e perguntou:

— Quem é o responsável por esse lugar?

A recepcionista sorriu educadamente.

— O doutor Xavier.

Depois completou:

— Mas ele acabou de chegar com alguns pacientes. Vai demorar um pouco.

O homem abriu um pequeno sorriso.

— Então ele realmente está aqui…

Se sentou tranquilamente.

— Não tem problema. Eu espero.

Enquanto aguardava, várias enfermeiras passavam olhando discretamente para ele e cochichando entre si.

Algum tempo depois…

A porta da sala cirúrgica finalmente se abriu.

O médico saiu retirando a máscara do rosto enquanto caminhava distraído olhando alguns relatórios.

Acabou esbarrando diretamente no homem parado diante dele.

Irritado, levantou os olhos imediatamente.

— Por acaso você é cego para ficar parado no meio do caminho?

O homem apenas sorriu.

Um sorriso calmo.

Quase saudoso.

— Você ficou ainda mais bonito do que já era, meu zangado.

O médico congelou por um instante.

Então arregalou levemente os olhos.

— Morgan…?

A voz saiu baixa.

Surpresa.

— Como me encontrou aqui?

Morgan segurou levemente o ombro dele.

— Você faz ideia de há quantos anos estou te procurando?

Se aproximou um pouco mais.

— Vive fugindo de um lado para outro… já não pensa mais em voltar para casa?

Max desviou o olhar imediatamente.

— Vamos conversar em outro lugar.

Sem esperar resposta, começou a andar pelo corredor.

Os dois seguiram sob os olhares curiosos das enfermeiras.

Na sala…

Morgan observava atentamente o local enquanto mexia em alguns objetos espalhados pela mesa.

Quando Max voltou do banheiro com os cabelos molhados e roupas limpas, Morgan soltou uma risada baixa.

— Olha só pra você…

Seu olhar percorreu o outro lentamente.

— Fazendo todo mundo desse lugar babar por você.

Max o encarou sério.

— Você ainda não respondeu minha pergunta.

Morgan suspirou.

— Porque está fugindo da sua família?

Seu olhar ficou mais intenso.

— E de mim também.

Max permaneceu em silêncio.

Morgan continuou:

— Você nunca respondeu minhas mensagens.

Depois estreitou os olhos.

— E eu sei que leu todas elas.

Max desviou o olhar novamente antes de se sentar.

— Você lembra do que eu disse quando te pedi ajuda naquela época?

Morgan ficou sério imediatamente.

— Sim.

A voz dele suavizou.

— Você disse que não aguentava mais.

Max respirou fundo.

Então falou calmamente:

— Naquela época… minha intenção era morrer.

O silêncio tomou conta da sala.

Morgan ficou imóvel.

Mas Max continuou:

— Só que naquele dia… encontrei uma senhora ferida.

Os olhos dele baixaram lentamente.

— Ela estava morrendo… e não tinha ninguém para ajudá-la.

Ele sorriu de leve.

Um sorriso triste.

— Foi naquele momento que decidi que não queria mais morrer.

Morgan o observava em silêncio absoluto.

Max então completou:

— Decidi salvar vidas ao invés disso.

Os olhos dele finalmente encontraram os de Morgan.

— Foi assim que me tornei médico.

Morgan se aproximou lentamente da mesa.

Seu olhar carregava preocupação.

Dor.

E carinho.

— E você acha que viver desse jeito está salvando a si mesmo?

Max sorriu sem humor.

Morgan continuou:

— Você vive correndo pelo mundo… entrando em guerras… ignorando o próprio corpo…

A voz dele falhou levemente.

— E o seu coração, Max? Como fica?

Max abaixou os olhos por alguns segundos.

Então soltou uma pequena risada amarga.

— Coração?

Levantou os olhos lentamente.

— Que coração, Morgan?

O silêncio pareceu sufocar a sala.

— Eu não tenho mais um há muito tempo.

Morgan segurou sua mão imediatamente.

Mas Max puxou de volta quase no mesmo instante.

Então se levantou.

— Você deveria ir embora.

Morgan suspirou cansado antes de sorrir.

— Lá vem você com isso de novo…

Deu um passo à frente.

— “Esse lugar não é pra você.”

Então apontou para ele.

— Mas já parou pra pensar que talvez o lugar onde eu queira estar… seja ao seu lado?

Max virou o rosto tentando evitar aquela conversa.

Mas Morgan já estava próximo novamente.

Muito próximo.

— Escuta aqui, zangado…

Seu sorriso diminuiu.

— Dessa vez eu não vou deixar você fugir de mim.

Depois completou calmamente:

— E não precisa se preocupar com o hospital.

Apontou para fora.

— Trouxe tudo o que vocês precisam.

Max piscou algumas vezes surpreso.

— Você… não pode ficar aqui.

Morgan apenas deu um peteleco no nariz dele.

— Tarde demais.

Então saiu da sala sorrindo.

Max permaneceu parado alguns segundos.

Depois passou a mão pelos cabelos molhados e se jogou no sofá cruzando os braços.

Do lado de fora…

Morgan falava ao telefone enquanto supervisionava o descarregamento de caixas de medicamentos e equipamentos.

Bella apareceu carregando uma sacola com comida.

— Meu Deus… de onde saiu tudo isso?

Morgan olhou para ela sorrindo.

— Da minha empresa.

Depois estendeu a mão.

— Morgan. Amigo do doutor Xavier.

Bella arregalou levemente os olhos.

— Amigo dele?

Seu olhar percorreu Morgan de cima a baixo.

— Nossa… queria eu ter um amigo desses.

Morgan apontou para a sacola.

— Isso é pro Max?

Bella assentiu imediatamente.

— Se eu não pegar no pé dele o dia inteiro, ele não come… nem dorme.

O sorriso de Morgan desapareceu por um instante.

Então perguntou calmamente:

— Posso levar pra ele?

Bella entregou a sacola.

— Se ele estiver na sala, provavelmente dormiu.

Ela suspirou.

— Já faz dias que ele quase não descansa.

Morgan pegou a comida devagar.

O olhar dele suavizou.

— Não se preocupa…

Um pequeno sorriso apareceu novamente em seus lábios.

— Eu sei cuidar do meu zangadinho.

Bella acabou rindo.

— “Zangadinho” combina bastante com ele.

Morgan entrou na sala silenciosamente.

E encontrou Max dormindo no sofá.

Mesmo dormindo, parecia cansado.

Exausto.

Como se carregasse o peso do mundo inteiro sozinho.

Morgan se aproximou devagar.

Então se abaixou ao lado dele.

Seus dedos afastaram delicadamente alguns fios de cabelo caídos sobre o rosto de Max.

— O que você fez consigo mesmo, meu zangado…?

Depois pegou uma manta próxima e o cobriu cuidadosamente.

Então permaneceu sentado no chão ao lado do sofá.

Observando ele dormir em silêncio.

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