Capítulo 2

Apesar da música alta, sua voz saiu firme o suficiente para atravessar o barulho e alcança-lo.

Ela aguardou alguns segundos, mantendo o olhar fixo nas costas do barman, esperando qualquer reação. Mas ele não se virou.

— Ei, você está me ouvindo?

Só então o homem se virou para ela, um pouco surpreso.

— Está falando comigo? — ele perguntou, apontando para si mesmo.

— É claro, não há mais ninguém disponível aqui.

O barman olhou atentamente para ela, parecendo ainda mais surpreso assim que a viu.

Notando a interação entre ambos, outro barman que estava por perto se aproximou apressadamente.

— Pode deixar que eu atendo a senhorita — disse, surgindo repentinamente.

— Está tudo bem. Pode deixar isso comigo.

A resposta veio carregada de uma segurança que não deixava espaço para contestação.

Os dois barmans trocaram um breve olhar, como se houvesse uma comunicação implícita ali, e o segundo apenas assentiu, voltando ao que estava fazendo.

— Peço perdão. Eu estava um pouco distraído — disse ele, agora voltando sua atenção totalmente para Kaily, um sorriso leve surgindo em seus lábios enquanto se aproximava do balcão — Deseja qual drink?

Foi apenas quando ele encurtou a distância que Kaily realmente o viu.

E, por um instante, sua atenção vacilou.

Ele era… bonito. Mais do que isso.

Alto, com uma presença que naturalmente se destacava no ambiente. Os cabelos pretos, levemente desalinhados, davam a ele um ar despreocupado que contrastava com o restante do uniforme. Seus olhos tinham um brilho intenso, quase provocador, e o sorriso parecia carregado de intenções ocultas.

Ele vestia a mesma camisa social preta que os outros barmans, mas, ainda assim, havia algo nele que o tornava diferente. Talvez fosse a forma como o tecido marcava seus músculos, mais evidentes do que os dos demais. Ou a maneira como se movia, com uma naturalidade segura.

Ele pegou um pano e começou a secar as mãos, e Kaily, sem perceber, acompanhou o gesto. Seu olhar desceu por seus braços. As veias saltavam sob a pele a cada movimento, chamando a atenção de forma quase hipnótica.

As mangas estavam arregaçadas, revelando tatuagens que percorriam todo o antebraço direito.

— Então? — ele a tirou de seus pensamentos.

Kaily piscou algumas vezes, como se estivesse emergindo de um pequeno transe, e rapidamente ergueu o olhar para encontrar o dele.

— N-não tenho certeza, eu nunca bebi antes. O que você me recomenda?

Houve um breve brilho de interesse nos olhos dele ao ouvir aquilo.

— Hmmm, depende do motivo de você estar bebendo. Quer apenas experimentar algo novo? Quer criar coragem para dançar ou chegar em um cara?... Se bem que, como é sua primeira vez, recomendo algo fraco, ou você pode ficar bêbada rapidinho — disse, em um tom pensativo, inclinando levemente a cabeça enquanto analisava a situação.

Kaily o observou com atenção. Ele falava com propriedade, como se estivesse tentando entender o que ela precisava, não apenas vender uma bebida qualquer.

— Eu… acho que tem que ser uma bebida bastante forte.

Ele arqueou levemente a sobrancelha.

— Nesse caso… talvez uma bebida para um coração partido? — perguntou, em tom descontraído.

— Para um coração vingativo que deseja fazer uma loucura… E para uma mente cansada que quer esquecer tudo.

O barman entendeu bem a situação, e acabou rindo das palavras dela.

Kaily não conseguiu deixar de admirar aquele sorriso, principalmente por ser enfeitado por lindas covinhas nas bochechas.

Consciente da impressão que causou nela, o barman pegou uma coqueteleira.

— Nesse caso, eu tenho algo perfeito para você.

Seus movimentos se tornaram rápidos e coreografados. Ele pegou diferentes garrafas, mediu doses com facilidade, adicionou frutas com cortes ágeis e elegantes. Cada gesto era fluido, como se fosse um espetáculo particular.

O som do gelo batendo contra o metal, o ritmo com que ele agitava a coqueteleira, a forma como girava os utensílios entre os dedos, tudo prendia a atenção de Kaily.

Quando terminou, ele colocou uma taça sobre o balcão com cuidado, e jogou uma bebida gaseificada, então, lentamente, preencheu a taça com o conteúdo de dentro da coqueteleira.

Um líquido azul completou o vidro, refletindo as luzes da balada de forma hipnotizante.

— “Uma Noite no Céu” — disse, empurrando a taça na direção dela. — Se desejar provar, tenho certeza de que irá satisfazer seu desejo.

Um sorriso levemente malicioso se desenhou nos lábios dele, o que foi suficiente para fazê-la hesitar por um instante.

“Ele colocou algo suspeito na bebida?” — a dúvida surgiu de forma quase automática, acompanhada de um leve estreitar de olhos.

Mas logo em seguida ela mesma rebateu o próprio pensamento.

“Não, impossível. Eu vi tudo o que ele colocou ali.”

Seus olhos voltaram para ele… a comparação foi inevitável: ele era tão tentador quanto a bebida.

“Bem, que seja.”

Determinada a não recuar, Kaily pegou a taça, a levou aos lábios e deu um gole sem hesitar.

No instante em que o sabor tocou sua língua, seu cenho se franziu. Havia algo inesperado ali.

Ela afastou a taça lentamente, analisando o líquido com mais atenção, vendo pequenas bolhas subirem do fundo do vidro.

Sua cabeça se inclinou levemente para o lado, como se estivesse tentando entender se havia algo errado com a bebida ou com ela.

Enquanto isso, o barman a observava, atento a cada reação.

— É de fato muito bom, mas isso não me parece um drink alcoólico — disse, levemente confusa, ainda olhando para a taça antes de encará-lo novamente.

O homem soltou uma risada baixa, divertida, como se já esperasse aquela reação.

— É apenas uma variação da soda italiana. Feita com água com gás, alguns xaropes e frutas.

Por um instante, Kaily apenas o encarou.

A expectativa que havia criado se desfez de forma quase frustrante.

— “Uma Noite no Céu”?... Você me fez criar muita expectativa ao dizer que tinha algo perfeito para mim — comentou, erguendo a taça diante dos olhos antes de voltar a beber.

Ele não pareceu nem um pouco abalado.

Aproximou-se um pouco mais, apoiando-se no balcão com naturalidade, inclinando o corpo o suficiente para entrar completamente no campo de visão dela.

— E quem disse que eu estava falando da bebida? — respondeu, agora o tom mais baixo, quase íntimo — Se a sua ideia é esquecer, você está apostando na coisa errada.

As palavras a pegaram de surpresa de uma forma tão direta que seu corpo reagiu antes mesmo de sua mente processar. Ela se engasgou levemente com a bebida, tossindo baixo enquanto afastava a taça.

— Está dizendo que… você me fará esquecer?

— Tem loucura maior que essa? — ele respondeu sem hesitar.

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