Mundo de ficçãoIniciar sessãoApesar da música alta, sua voz saiu firme o suficiente para atravessar o barulho e alcança-lo.
Ela aguardou alguns segundos, mantendo o olhar fixo nas costas do barman, esperando qualquer reação. Mas ele não se virou. — Ei, você está me ouvindo? Só então o homem se virou para ela, um pouco surpreso. — Está falando comigo? — ele perguntou, apontando para si mesmo. — É claro, não há mais ninguém disponível aqui. O barman olhou atentamente para ela, parecendo ainda mais surpreso assim que a viu. Notando a interação entre ambos, outro barman que estava por perto se aproximou apressadamente. — Pode deixar que eu atendo a senhorita — disse, surgindo repentinamente. — Está tudo bem. Pode deixar isso comigo. A resposta veio carregada de uma segurança que não deixava espaço para contestação. Os dois barmans trocaram um breve olhar, como se houvesse uma comunicação implícita ali, e o segundo apenas assentiu, voltando ao que estava fazendo. — Peço perdão. Eu estava um pouco distraído — disse ele, agora voltando sua atenção totalmente para Kaily, um sorriso leve surgindo em seus lábios enquanto se aproximava do balcão — Deseja qual drink? Foi apenas quando ele encurtou a distância que Kaily realmente o viu. E, por um instante, sua atenção vacilou. Ele era… bonito. Mais do que isso. Alto, com uma presença que naturalmente se destacava no ambiente. Os cabelos pretos, levemente desalinhados, davam a ele um ar despreocupado que contrastava com o restante do uniforme. Seus olhos tinham um brilho intenso, quase provocador, e o sorriso parecia carregado de intenções ocultas. Ele vestia a mesma camisa social preta que os outros barmans, mas, ainda assim, havia algo nele que o tornava diferente. Talvez fosse a forma como o tecido marcava seus músculos, mais evidentes do que os dos demais. Ou a maneira como se movia, com uma naturalidade segura. Ele pegou um pano e começou a secar as mãos, e Kaily, sem perceber, acompanhou o gesto. Seu olhar desceu por seus braços. As veias saltavam sob a pele a cada movimento, chamando a atenção de forma quase hipnótica. As mangas estavam arregaçadas, revelando tatuagens que percorriam todo o antebraço direito. — Então? — ele a tirou de seus pensamentos. Kaily piscou algumas vezes, como se estivesse emergindo de um pequeno transe, e rapidamente ergueu o olhar para encontrar o dele. — N-não tenho certeza, eu nunca bebi antes. O que você me recomenda? Houve um breve brilho de interesse nos olhos dele ao ouvir aquilo. — Hmmm, depende do motivo de você estar bebendo. Quer apenas experimentar algo novo? Quer criar coragem para dançar ou chegar em um cara?... Se bem que, como é sua primeira vez, recomendo algo fraco, ou você pode ficar bêbada rapidinho — disse, em um tom pensativo, inclinando levemente a cabeça enquanto analisava a situação. Kaily o observou com atenção. Ele falava com propriedade, como se estivesse tentando entender o que ela precisava, não apenas vender uma bebida qualquer. — Eu… acho que tem que ser uma bebida bastante forte. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Nesse caso… talvez uma bebida para um coração partido? — perguntou, em tom descontraído. — Para um coração vingativo que deseja fazer uma loucura… E para uma mente cansada que quer esquecer tudo. O barman entendeu bem a situação, e acabou rindo das palavras dela. Kaily não conseguiu deixar de admirar aquele sorriso, principalmente por ser enfeitado por lindas covinhas nas bochechas. Consciente da impressão que causou nela, o barman pegou uma coqueteleira. — Nesse caso, eu tenho algo perfeito para você. Seus movimentos se tornaram rápidos e coreografados. Ele pegou diferentes garrafas, mediu doses com facilidade, adicionou frutas com cortes ágeis e elegantes. Cada gesto era fluido, como se fosse um espetáculo particular. O som do gelo batendo contra o metal, o ritmo com que ele agitava a coqueteleira, a forma como girava os utensílios entre os dedos, tudo prendia a atenção de Kaily. Quando terminou, ele colocou uma taça sobre o balcão com cuidado, e jogou uma bebida gaseificada, então, lentamente, preencheu a taça com o conteúdo de dentro da coqueteleira. Um líquido azul completou o vidro, refletindo as luzes da balada de forma hipnotizante. — “Uma Noite no Céu” — disse, empurrando a taça na direção dela. — Se desejar provar, tenho certeza de que irá satisfazer seu desejo. Um sorriso levemente malicioso se desenhou nos lábios dele, o que foi suficiente para fazê-la hesitar por um instante. “Ele colocou algo suspeito na bebida?” — a dúvida surgiu de forma quase automática, acompanhada de um leve estreitar de olhos. Mas logo em seguida ela mesma rebateu o próprio pensamento. “Não, impossível. Eu vi tudo o que ele colocou ali.” Seus olhos voltaram para ele… a comparação foi inevitável: ele era tão tentador quanto a bebida. “Bem, que seja.” Determinada a não recuar, Kaily pegou a taça, a levou aos lábios e deu um gole sem hesitar. No instante em que o sabor tocou sua língua, seu cenho se franziu. Havia algo inesperado ali. Ela afastou a taça lentamente, analisando o líquido com mais atenção, vendo pequenas bolhas subirem do fundo do vidro. Sua cabeça se inclinou levemente para o lado, como se estivesse tentando entender se havia algo errado com a bebida ou com ela. Enquanto isso, o barman a observava, atento a cada reação. — É de fato muito bom, mas isso não me parece um drink alcoólico — disse, levemente confusa, ainda olhando para a taça antes de encará-lo novamente. O homem soltou uma risada baixa, divertida, como se já esperasse aquela reação. — É apenas uma variação da soda italiana. Feita com água com gás, alguns xaropes e frutas. Por um instante, Kaily apenas o encarou. A expectativa que havia criado se desfez de forma quase frustrante. — “Uma Noite no Céu”?... Você me fez criar muita expectativa ao dizer que tinha algo perfeito para mim — comentou, erguendo a taça diante dos olhos antes de voltar a beber. Ele não pareceu nem um pouco abalado. Aproximou-se um pouco mais, apoiando-se no balcão com naturalidade, inclinando o corpo o suficiente para entrar completamente no campo de visão dela. — E quem disse que eu estava falando da bebida? — respondeu, agora o tom mais baixo, quase íntimo — Se a sua ideia é esquecer, você está apostando na coisa errada. As palavras a pegaram de surpresa de uma forma tão direta que seu corpo reagiu antes mesmo de sua mente processar. Ela se engasgou levemente com a bebida, tossindo baixo enquanto afastava a taça. — Está dizendo que… você me fará esquecer? — Tem loucura maior que essa? — ele respondeu sem hesitar.






