Mundo de ficçãoIniciar sessão---
— Mas que droga... — Resmunguei sentindo minha cabeça latejar. Bebi além do que deveria. — Boa tarde, dorminhoco. — Ouvi a voz debochada da minha irmã. Olhei em sua direção e a mesma estava séria, não é o normal da Clara. — Você não sabe mesmo onde se meteu, não é, Rafael? — Do que está falando, Clara? — Levantei. Meu corpo inteiro reclamou, mas ignorei caminhando até o carrinho de bebidas. — Aliás, são que horas para estar me perturbando? — São três da tarde, seu babaca. — Tirou a garrafa da minha mão. Iria reclamar, mas sua seriedade fez com que eu me calasse. — Tem quantos anos? Dois? Quer ficar internado novamente? Nossos pais estão preocupados com você, papai chegou irritado em casa, mamãe te ligando. — Não preciso de babás, Clara. — Murmurei ríspido. — Realmente, você precisa de um cérebro novo. — Negou. — Sabe onde se meteu? O que o papai vai fazer com você? — Não, Clara, eu não sei. — Bufei me jogando no sofá novamente. — E quer saber? Eu não tenho o menor interesse em saber, não vão conseguir mudar meus hábitos. Já não cansaram de tentar? Estão perdendo tempo. — Ou você muda agora, ou vai começar a perder as coisas que gosta. — Caminhou até a porta. — E te garanto que dessa vez não são seus cartões que estão em jogo. — Sorriu cínica saindo. Revirei os olhos pegando novamente a garrafa de bebida e bebi direto na mesma. Tem anos que perdi a noção de como é viver sem estar à base de bebidas. Nem sempre fui esse cara totalmente ferrado, que vive bebendo para esquecer de tudo. Na adolescência, meu maior sonho era crescer, ser importante e conseguir criar tudo que eu sonhava, e em certo momento isso começou a se concretizar, mas foi arrancado de mim por quem eu menos esperei. Depois disso, não vejo mais sentido em me esforçar se no final não terei o reconhecimento, não sentirei o gostinho do que é meu por direito. Eu tinha apenas um sonho, e seria tudo tão mais fácil se eu não tivesse sido burro naquela época. Por isso não confio em ninguém, não me importo com nada e vivo apenas no automático. Decidi ir para casa, não conseguiria trabalhar desse jeito e não quero ter que ver meu pai novamente. Deve estar uma fera. Deixei a garrafa de lado e me levantei, novamente minha cabeça e corpo reclamaram por conta da noite agitada. Caminhei para fora da empresa sem me importar com os olhares de julgamento, entrei em meu carro e neguei ao ver a sujeira que ele estava. — Tenho que começar a sair de Uber. — Murmurei dando partida. Cheguei em casa meia hora depois, me joguei na cama ansiando por descanso, mas batidas na porta fizeram com que tudo doesse. — Senhor Alencar, é o senhor? — A voz de Sônia, minha secretária do lar, saiu abafada atrás da porta. — Sou eu. — Respondi fechando os olhos. — O senhor quer comer algo? Não veio para casa essa noite. Fiz o arroz com frutos do mar que queria. — Estou sem fome agora, obrigado. — A mesma respondeu um "ok" e se afastou. Cobri meu rosto com o cobertor soltando um grito abafado quando o celular tocou. — Será que não posso ficar em paz? — Peguei o celular. O nome da minha mãe brilhava na tela. Atendi antes que eles aparecessem aqui, aí sim não teria paz. — Oi, mãe. — Onde você estava, Rafael Alencar? — Sua voz irritada me fez pegar o comprimido para dor de cabeça que estava na mesa de cabeceira e tomá-lo com um longo gole de água. — Você quer me matar de preocupação, meu filho? Seu pai me disse que estava bêbado na empresa, bêbado! — Meu pai fala demais. — Murmurei me deitando novamente. — Não, Rafael, ele não fala demais, seu pai se preocupa com você. — Seu suspiro fez com que uma ponta de culpa se formasse em meu peito. — O que está fazendo da sua vida, meu filho? Você estava tão interessado em aprender, estava sempre acordando cedo para estudar, chegava antes do horário de trabalho na empresa. O que aconteceu, meu amor? Sou sua mãe, pode confiar em mim. — Não aconteceu nada. — Respondi melancólico. Ainda vou desmascarar o Gabriel, ele vai pagar por tudo que fez. — Estou bem, mãe, não precisa se preocupar. — Como não me preocupar? Não quero meu filho internado novamente, Rafael, você precisa retomar o rumo da sua vida, meu filho, até a empresa que você amava está deixando de lado. — As coisas mudam, mãe. Agora eu preciso ir, se cuida. Desliguei antes que a mesma falasse algo. Era sempre os mesmos discursos, as mesmas palavras de preocupação. Eu odeio isso, odeio olhares de pena sobre mim como se fosse um bicho acanhado, por isso não falei nada, sei bem como me tratariam, o que falariam. --- Me encarei no espelho sentindo um vazio em meu peito. Nem toda a beleza do mundo faria com que eu me sentisse bem nesses últimos dois anos. Casamento por contrato para crescer a empresa? Sério mesmo? Em que século estamos vivendo? Queria poder fazer minhas escolhas, viver longe dessa família, amar alguém de verdade. Parece que até isso vão tirar de mim. — Já está pronta, Lívia? — Meu pai entrou no quarto sem pedir permissão. O mesmo tirou as chaves do quarto, apenas o banheiro tem tranca. Não sei o que é ter privacidade há muito tempo. Suspirei vendo meu vestido preto e os saltos Louboutin da mesma cor. — Coloque um sorriso no rosto, ninguém vai te querer desse jeito, parece uma desajeitada. — Como vou colocar um sorriso no rosto se estou sendo obrigada a ir a esse jantar? — Me virei para o mesmo. Seu terno estava perfeitamente alinhado como sempre. — O senhor acha que vou me casar? Esse jantar vai ser apenas para crescer seu ego de anfitrião, eu jamais me casaria com alguém que não ame por apenas caprichos seus. — Ah, querida, eu sabia que falaria isso. — Sorriu se aproximando. Tentei me afastar dos seus toques, mas suas mãos agarraram meu braço em um aperto dolorido. — Você vai se casar sim, e sabe o por quê? — Não o respondi. — Eu perguntei se você sabe o por quê. — Seu aperto se intensificou. — Não. — Porque ou você se casa com o Alencar, ou vai perder a casa de praia da sua mamãezinha também. — O senhor não tem esse direito. — O olhei com raiva. — Já me tirou tudo que tinha, não tem o direito de tirar a única coisa que restou da minha mãe. — Tenho e vou, apenas tente fugir desse contrato para ver o que acontece com aquele lugar. — Largou meu braço com brutalidade. — Estou te esperando na sala de estar, não se atrase. Assim que meu pai saiu do quarto, as lágrimas de raiva e tristeza molharam meu rosto. Não poderia perder também a casa de praia que mamãe amava, é a única lembrança boa que tenho da minha infância. Sempre que papai viajava com o Bruno, nós duas íamos para essa casa e nos divertimos tanto, não posso deixar que apague isso também, nem que para isso tenha que aceitar esse casamento. Estava perto do horário do jantar, respirei fundo secando o rosto e retoquei a maquiagem. Me olhei por mais alguns segundos antes de ouvir a secretária do lar me chamar. Saí do quarto na mesma hora que Bruno saiu do seu, aquele sorriso cínico me dava nos nervos. — Preparada, irmãzinha? Você vai amar se casar. — Riu. — Cala a boca, seu imbecil. — Esbravejei descendo com o mesmo atrás. Arregalei os olhos ao ver o homem que estava junto ao meu pai. — Só pode ser brincadeira.






