O médico responsável por cuidar dos meus ferimentos era o colega do meu setor, o clínico Márcio Paiva.
Quando ele viu meu rosto com clareza, congelou no lugar. As mãos pararam no ar e suas pupilas se contraíram de repente. Márcio deixou escapar, sem conseguir se controlar:
— Dra. Viviane? O que a senhora está fazendo aqui? A senhora não deveria estar na sala de cirurgia tentando salvar o paciente agora?
Antes que eu pudesse responder, o policial que o acompanhava se adiantou e explicou:
— Ah, então ela é médica deste hospital. Ela escorregou acidentalmente e caiu em um bueiro de inspeção. Acabamos de retirá-la de lá.
Ao ouvir aquilo, Márcio ficou imediatamente sem reação. Seu olhar pousou no meu rosto pálido. A boca se abriu e fechou algumas vezes, como se quisesse falar algo, mas acabou engolindo as palavras.
Pelo jeito, ele sabia de alguma coisa. Mas, por estar diante dos policiais, não se atreveu a comentar nada. Apenas pegou os instrumentos em silêncio e começou a tratar meus ferimentos com extremo cuidado.
O processo de limpeza e sutura foi claro e, ao mesmo tempo, torturante. O corte na minha testa precisou de três pontos. Minha perna direita estava fraturada e precisou ser imobilizada com gesso.
Em seguida, fui encaminhada para uma tomografia de crânio.
Por sorte, o resultado indicou apenas uma leve concussão, sem gravidade.
Quando perceberam que eu já estava mais lúcida, dois policiais entraram na sala de observação com pranchetas em mãos. Aproximaram-se da minha cama para registrar formalmente o acidente.
— Dra. Viviane, por favor, relate com detalhes como ocorreu a queda no bueiro.
Encostei-me no travesseiro e fiz uma expressão de quem tentava lembrar com dificuldade:
— Eu tinha acabado de sair do plantão noturno. Assim que passei pelo portão, recebi uma ligação de um colega do setor pedindo para eu voltar imediatamente à sala de cirurgia e participar da reanimação do paciente. Eu fiquei nervosa, a cabeça se embaralhou, não percebi que havia um bueiro aberto no caminho, pisei em falso e caí direto lá dentro.
Os policiais ouviram e assentiram, anotando tudo.
Logo depois, um funcionário da sala de monitoramento do hospital chegou apressado, trazendo a gravação completa das câmeras de segurança da área externa. Ele entregou o material diretamente aos policiais. As imagens eram nítidas, mostravam tudo de frente e coincidiam perfeitamente com o meu relato.
Depois de assistir às gravações, os policiais concluíram que se tratava de um acidente simples e direto.
Nesse exato momento, soltei um grito repentino, fingindo desespero:
— Não! Não, não, não! Estavam contando comigo naquela cirurgia! Como eu fiquei tanto tempo aqui?
Forcei-me a parecer a médica de emergência dedicada que sempre fui.
Ignorei a dor por todo o corpo. Ignorei também a tentativa dos policiais de me conter e comecei a me levantar da maca.
— Me levem para lá, rápido! Eu preciso voltar para a sala de cirurgia!
Os policiais apressaram-se em tentar me acalmar:
— Dra. Viviane, a senhora precisa se acalmar. Sua condição física agora não permite que a senhora opere.
Fiz questão de parecer completamente aflita. Apoiei-me com força e insisti em me sentar na cadeira de rodas:
— Não posso! Não vou me acalmar enquanto não vir o que está acontecendo! Eu preciso ir!
Ninguém conseguiu me convencer do contrário.
Quando finalmente cheguei às pressas à porta da sala de cirurgia, o clima já estava pesado e silencioso. Um grande grupo de familiares do paciente lotava o corredor, todos chorando, gritando, completamente desesperados.
A luz da sala de cirurgia estava apagada. O atendimento de emergência já havia terminado.