Capítulo 2. Encontro

Melissa estava estarrecida com o que estava acontecendo. Não bastasse o plágio de seus vestidos, agora estava sendo acusada de plagiadora. Como poderia ser isso? 

Chegou em seu escritório na empresa e ligou para a segurança:

— Oi, senhor Cortês, gostaria que me enviasse as imagens de segurança do final do mês passado.

O senhor Cortês era o chefe da segurança e passava um bom tempo olhando as imagens das câmeras de vigilância da empresa.

— Infelizmente, não poderei lhe atender. O CEO também pediu as imagens e ordenou que eu as guardasse no cofre e não desse a ninguém.

Melissa parou para pensar e achou bom que a empresa estivesse investigando, mas ela queria saber quem a estava boicotando. Deixou sua vida na Espanha para vir ao Brasil e trabalhar nessa empresa, mas não foi para ser roubada e caluniada.

— Tudo bem, senhor Cortês, obrigada.

A gerente de setor entrou na sala sem bater e foi logo falando, agitada:

— Que confusão é essa, Lissa?

Melissa achou aquela pergunta, ofensiva. Se tinha alguém que não podia duvidar dela, era a gerente Cintia.

— Está perguntando para a pessoa errada. Você acompanhou todo o processo e sabe muito bem que, só uma pessoa muito próxima e com acesso, podia roubar os desenhos.

— Por isso mesmo, só consigo pensar em você.

— Por quê eu faria isso? Meus desenhos foram escolhidos, recebi um bônus excelente e serei promovida no mês que vem. Até estou em uma sala exclusiva para mim. Me responda, por quê?

Cintia abaixou seu olhar para as mãos, cutucando as unhas e relaxando a postura, respondeu:

— Talvez eles tenham te oferecido mais dinheiro…

Melissa percebeu a inquietação da outra e suspeitou. Não perderia tempo se justificando para quem deveria acreditar nela.

— Talvez, a pessoa que roubou os croquis ainda crus, tenha feito isso por dinheiro, mas não fui eu. Agora, eu posso fazer as mesmas perguntas para você. Já que não confia em mim, por quê eu confiaria em você? 

Cíntia não chegou a responder, olhou para Melissa com os olhos arregalados, cheios de culpa. Melissa não sabia se era culpa pela desconfiança ou por que sua pergunta acertou o alvo. Mas o telefone interno tocou.

— Alô. — atendeu Melissa, ouvindo a ordem que vinha do outro lado — Sim, senhor, estou indo.

Levantou-se, olhou para Cintia com frieza e indicou a porta. Mesmo que o roubo já tenha sido cometido, ela não relaxaria  deixando alguém dentro da sala, sozinho.

— Não se esqueça que sou sua superior e chefe. — relembrou-a Cintia, querendo sair por cima e ofendida por ser expulsa da sala.

— Como poderia, você não me deixa esquecer. Eu sempre fiz tudo que você mandou, até as tarefas que não eram de minha incumbência, mas me acusar de roubo, está acima da minha tolerância.

Ela trancou a porta após saírem, hábito que tinha adquirido desde que iniciou a nova coleção e por isso sabia que não foi uma pessoa qualquer que roubou os seus desenhos.

Foi para o elevador, mas antes de chegar, seus colegas de trabalho lançaram olhares acusatórios e palavras ofensivas. Ela fingiu que não escutou e entrou no elevador com sua postura superior de quem não deve nada a ninguém.

Era muito bonita, mesmo se ocultando atrás dos cabelos rebeldes e dos óculos de aros grossos e pretos. Não tinha como não chamar a atenção com sua brejeirice latina. Também vestia-se com elegância discreta, o que a destacava das demais.

Assim que o elevador abriu as portas no andar da presidência e ela deu o primeiro passo para fora, uma garotinha trajando um vestido de princesa, com bochechas rosadas e cachos castanhos emoldurando seu rosto, chocou-se com suas pernas, agarrando-a.

— Mamãe, mamãe, a bruxa qué me pegá, me salva.

A menina esticou os braços, queremos colo e Melissa não resistiu e trouxe-a para o seu colo. Suspensa, seus olhos se encontraram e um amor especial brotou naquele instante.

— Oi, meu amorzinho. Você é uma princesa tão linda, quem quer te dar uma maçã envenenada?

— A bruxa. Papai trouxe um montão delas para me pegá. — Enquanto falava, Bela abria os braços para mostrar a quantidade de bruxas.

Melissa não entendeu muito bem, mas olhou para a porta do escritório se abrindo e admirou o homem lindo e agradavelmente viril que saiu por ela.

Fazia juz a música:

“ Moreno alto, bonito e sensual…”

Talvez ele seja a solução dos meus problemas, pensou, enquanto o homem se aproximava dela, trajado elegantemente em um terno grafite, com camisa branca e gravata azul.

Rômulo era bonito por natureza, com seus cabelos curtos e castanhos claros, olhos verdes profundos e pele dourada. Sempre atraia a atenção das mulheres por onde passava, mas depois do que vivenciou com a primeira esposa, estava sempre carrancudo.

— Então é aqui que você está, sua danadinha. — perguntou ele para a menina, com a expressão séria.

Havia  passado a manhã entrevistando candidatas a babá e todas foram decepcionantes. Quando via uma candidata jovem entrando, acenava, dispensando-a, sem nem ouvir seu nome. 

As demais eram mais velhas e experientes, mas muito austeras. Bela não gostou de nenhuma. Fez careta, gritou e até cuspiu em uma delas, que ousou lhe chamar a atenção por se sentar de pernas abertas.

Perguntou-se se existia uma tia Anastácia na vida real, ao invés de só no Sítio do picapau amarelo, ele suportou o quanto pode e quando a última entrou, parecia a mais aceitável de todas. Porém, quando a deixou conversando um instante com Belinha e foi ao banheiro, voltou e não encontrou a filha.

— O que aconteceu, onde está minha filha? — perguntou para a candidata.

— Sua filha é uma selvagem, mordeu-me e dei-lhe um corretivo. Ela saiu correndo pela porta.

Bastou um olhar para seu assistente e ele sabia o que fazer, deixou-o resolvendo a situação, saiu para procurar sua filha e uma descarga de adrenalina o atingiu. 

Seria Afrodite que desceu do Olimpo? 

Era a mulher mais linda que já viu em toda a sua vida. Um sopro de ar fresco, depois de todas as tempestades que enfrentou essa manhã.

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