Mundo ficciónIniciar sesiónMilena
O ar que faltava nos meus pulmões voltou de uma vez só, transformado em um grito que rasgou a minha garganta e ecoou pelas paredes daquele camarim maldito.
Eu não consegui me conter. Ver o homem que eu amava e a minha própria prima naquela posição, nojenta e ultrajante, quebrou a última barreira de inocência que existia no meu peito.
— Que porra é essa? — berrei, com a voz embargada pelo choro e pelo ódio que subia como um veneno no meu sangue. — Seus nojentos! Essa é a coisa mais porca e asquerosa que eu já vi na minha vida inteira!
O grito cortou o clima de safadeza deles como uma lâmina afiada. Pedro Henrique deu um pulo para trás, quase caindo de susto no chão enquanto tentava, de forma patética, puxar as calças do terno para cima.
O rosto dele, que antes estava vermelho de excitação, empalideceu instantaneamente, assumindo uma expressão de puro pânico. Valéria soltou um guincho de susto e tentou puxar o tecido do seu vestido de madrinha para cobrir o corpo, mas os seus olhos não mostravam arrependimento, apenas raiva por ter sido pega no flagra.
— Milena! Meu amor, pelo amor de Deus, não é o que você está pensando! — Pedro gaguejou, dando um passo trêmulo na minha direção com as mãos estendidas, tentando se aproximar como se ainda tivesse algum direito sobre mim.
— Eu juro por tudo que é mais sagrado, foi a primeira vez! Isso nunca aconteceu antes, eu juro! Eu tive um momento de fraqueza por causa do nervosismo do casamento, a Valéria me provocou... Me escuta, por favor, se acalma! Isso não foi nada, vamos nos casar! Tudo vai ficar bem!
— Não encosta em mim, seu verme! — gritei, dando dois passos para trás, sentindo uma náusea profunda só de olhar para a cara dele.
— Não ouse dar mais um passo na minha direção! Você é um monstro, Pedro Henrique! Eu sustentei você por cinco anos, trabalhei pra pagar as suas contas e fiz hora extra quase todos os dias! Sem contar os bicos na floricultura e no café para te dar dinheiro, para pagar as suas contas de homem rico de mentira, e é assim que você me paga? Minutos antes do nosso casamento?
Eu olhava para os dois e sentia uma vontade imensa de vomitar. Minha prima, a pessoa com quem cresci, e o meu noivo, o meu primeiro amor. O cenário era devastador. Eu tremia tanto que minhas pernas mal conseguiam sustentar o peso do meu corpo, mas a humilhação era tão grande que eu continuei xingando os dois com todas as palavras ruins que vinham à minha mente, sem me importar se alguém do lado de fora conseguiria ouvir o meu desespero.
Foi aí que a criatura que eu chamava de prima resolveu abrir a boca. Valéria, vendo que o teatro tinha acabado, levantou-se do sofá com os cabelos totalmente bagunçados e uma expressão de deboche que fez meu estômago revirar.
Ela não parecia nem um pouco preocupada com a minha dor.
— Ah, cala a boca, Milena! Deixa de ser dramática, sua caipira sonsa! — Valéria gritou, caminhando a passos rápidos na minha direção. — Você sempre foi uma idiota, uma burra, ignorante que aceita tudo! Você achou mesmo que um homem como o Pedro ia querer passar o resto da vida com uma coitada que se veste igual a uma camponesa da roça?
Antes que eu pudesse processar o tamanho da crueldade daquelas palavras, a mão de Valéria voou no ar e atingiu o meu rosto com força.
O estalo do tapa ecoou pelo camarim. Meu rosto ardeu como se tivesse pegado fogo e, com o impacto inesperado, eu perdi totalmente o equilíbrio e tropecei no meu vestido.
Meu corpo foi ao chão, e eu caí de joelhos em cima do tapete felpudo, com as mãos apoiadas no piso para não bater a cabeça.
Lágrimas de dor física e humilhação rolaram pelos meus olhos, mas, quando olhei para baixo, tentando me recuperar do golpe, vi a tela do meu celular acesa bem ali, a poucos centímetros da minha mão.
O aparelho tinha caído com a tela para cima e uma nova notificação brilhava no visor. Era uma mensagem de um número totalmente desconhecido, que eu nunca tinha visto na vida. Com o título ‘Não case com o cara errado…’
Instintivamente, peguei o celular e passei o dedo na tela para abrir a imagem que havia sido enviada.
O que vi congelou o resto de sangue que ainda corria nas minhas veias. Era o print de uma conversa de W******p entre Pedro e Valéria, datada de poucos dias atrás.
Na imagem, os dois riam abertamente com emojis de deboche. Pedro dizia: "Mal posso esperar para assinar os papéis do casamento. Assim que eu despachar aquela idiota no próximo ano eo divórcio sair, nós vamos dividir a herança que os pais dela deixaram e gastar cada centavo na Europa. A Milena é tão burra que não vai nem perceber o golpe".
E Valéria respondia logo em seguida: "Isso mesmo, meu amor, deixa aquela empregada trabalhar bastante para nós aproveitarmos" “Meus pais tinham razão, ela caiu feito um patinho”.
Eu nem consegui terminar de ler.
O chão sumiu sob os meus pés por completo. A dor do tapa na cara não era nada comparada à dor de ler aquelas palavras.
Eles nunca me amaram. O casamento era uma farsa, um plano maligno desenhado pelo meu noivo e pela minha própria família para roubar o dinheiro que meus falecidos pais, Isaac e Vitória, guardaram com tanto suor para o meu futuro.
Eu fui usada, enganada e feita de palhaça pelas pessoas que eu mais protegi e amei no mundo.
…
Uma força que eu nunca soube que existia dentro de mim começou a queimar no meu peito, transformando cada gota das minhas lágrimas em puro ódio.
Eu me levantei do chão devagar, peguei meu celular e guardei no decote do vestido. Senti como se o meu vestido de princesa tivesse se transformado em uma armadura de guerra.
Pedro e Valéria me olhavam, achando que eu ia desabar no choro e implorar por explicações, mas eles não conheciam a nova Milena que estava nascendo ali.
Avancei na direção de Valéria com os olhos fixos nos dela. Antes que ela pudesse reagir ou zombar de mim novamente, juntei todas as minhas forças e dei um empurrão violento no peito dela.
A minha prima perdeu o equilíbrio e caiu de costas em cima do sofá nupcial, soltando um grito de susto. Olhei para Pedro Henrique, que tentou dar um passo para me segurar, e apontei o dedo na cara dele com tanta firmeza que ele recuou como o covarde que ele era.
— Nunca mais ouse se aproximar de mim, seu lixo — falei, com a voz estranhamente calma, fria e cortante como o gelo. — Eu juro por deus e por tudo no mundo que você vai me pagar por isso.
Virei as costas para os dois e saí daquele camarim sem olhar para trás, batendo a porta de madeira com força. Caminhei pelo corredor escuro da igreja, sentindo o meu coração em pedaços, mas as lágrimas pararam de cair.
O ódio puro e a sede de justiça tomaram conta de cada pensamento meu. Eu parei no meio do corredor, levei as mãos até o topo da minha cabeça e, com um movimento violento, arranquei o véu de noiva do meu cabelo, rasgando o tecido fino em várias partes e jogando os pedaços brancos no chão sujo.
Olhei para os trapos do meu sonho desfeito no piso e apertei os punhos com tanta força que minhas unhas quase perfuraram a palma das minhas mãos, jurando para mim mesma e para a memória dos meus pais que aquela garota boazinha e boba tinha morrido naquele tapete, e que a partir daquele minuto, eu faria Pedro Henrique e Valéria pagarem muito caro por cada gota de humilhação.







