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Milena
Eu sempre acreditei em finais felizes. Cresci ouvindo que, não importa o quão difícil seja a jornada, as pessoas boas sempre são recompensadas no final. Olhando para o reflexo no espelho gigante do camarim da igreja, eu tinha certeza de que a minha recompensa havia chegado.
Hoje era o dia mais importante da minha vida. O dia em que eu deixaria de ser a sobrinha órfã que vivia de favor na casa dos tios para me tornar a esposa de Pedro Henrique, o homem que eu amei com todas as minhas forças nos últimos cinco anos.
Ajustei as mangas do meu vestido de noiva. Ele não era um modelo de grife, daqueles que custam uma fortuna e saem nas revistas de fofoca. Era um vestido simples, bem no estilo romântico que eu sempre gostei, com pequenos bordados de flores que lembravam o campo e uma saia rodada que me fazia parecer uma princesa de conto de fadas.
Minha tia Marcela tinha reclamado muito do preço, dizendo que estávamos gastando um dinheiro que não tínhamos, então eu trabalhei dobrado na empresa onde eu e minha prima trabalhávamos e também em alguns bicos nos últimos meses para ajudar a pagar cada centavo. Mas eu não me importava com o cansaço.
Eu faria qualquer coisa pelo Pedro. Ele era o meu primeiro amor, o meu príncipe encantado que sempre me pedia ajuda financeira dizendo que as coisas na empresa dele estavam difíceis, mas que tudo mudaria assim que estivéssemos casados.
Peguei o meu celular, que estava com a capinha gasta, e sorri para a câmera frontal. Meus olhos verdes, que minha mãe Vitória sempre dizia que pareciam duas esmeraldas profundas, estavam brilhando como nunca. Meu cabelo castanho longo caía em ondas suaves pelos meus ombros. Tirei uma foto sorrindo, depois outra mandando um beijo. Enviei direto no grupo da família com a legenda: "Está quase na hora! Pronta para o nosso recomeço!".
Fiquei olhando para a tela por alguns minutos, esperando as mensagens carinhosas da minha prima Valéria ou da minha tia, mas ninguém respondeu. Achei estranho, afinal, todos já deveriam estar na igreja, mas mudei de pensamento rapidamente.
Eles deviam estar ocupados recebendo os convidados ou ajeitando os últimos detalhes do altar. Olhei para o relógio digital no topo da tela do celular. Faltavam apenas vinte minutos para a marcha nupcial começar a tocar.
Meu coração deu um salto de pura ansiedade e alegria. Papai e mamãe, de onde quer que vocês estejam no céu, espero que estejam orgulhosos da sua menininha, pensei, sentindo os olhos marejarem de leve. Eu estava prestes a entrar na igreja e começar a viver a vida que sempre sonhei, sem imaginar que o meu conto de fadas estava com os segundos contados.
Com o nervosismo aumentando a cada segundo, senti uma ponta de choro ameaçar borratar a minha maquiagem leve. Eu precisava de um lenço urgentemente para dar leves batidinhas nos olhos antes que o rímel escorresse pelo meu rosto.
Lembrei que a minha tia Marcela tinha guardado uma caixa cheia de lenços de tecido no camarim principal, que ficava no final do corredor dos fundos da paróquia, um lugar mais reservado e longe do barulho dos convidados que já enchiam os bancos da igreja.
Segurei a saia volumosa do meu vestido com as duas mãos, levantando-a um pouco para não tropeçar nos meus sapatos de salto baixo, e saí do meu pequeno quarto de espera. O corredor estava estranhamente silencioso e mal iluminado.
A maioria das luzes estava apagada para economizar energia, criando sombras compridas nas paredes pintadas de branco. À medida que eu caminhava, o som distante do falatório das pessoas na entrada da igreja ia sumindo, sendo substituído apenas pelo barulho abafado dos meus próprios passos e pelo som da chuva forte que começava a desabar do lado de fora, batendo contra as janelas de vidro colorido.
Eu estava quase chegando à porta do camarim principal quando um som diferente chamou a minha atenção. Dei um passo e parei, franzindo a testa. Era um som abafado, que parecia vir de trás daquela porta de madeira maciça que estava apenas encostada, deixando uma fresta mínima de luz escapar para o corredor escuro.
Prendi a respiração, tentando ouvir melhor. No início, achei que pudesse ser algum funcionário limpando o local, mas o som se repetiu, ficando mais alto e nítido. Eram gemidos. Suspiros pesados e respirações arfantes que ecoavam de forma vergonhosa pelas paredes da antessala.
Meu estômago deu uma volta completa e uma sensação ruim, um arrepio frio, subiu pela minha espinha. Aquela voz... Eu conhecia aquela voz masculina. Eu passara os últimos cinco anos da minha vida ouvindo aquele tom de voz sussurrar juras de amor no meu ouvido.
Era o Pedro Henrique. Não havia dúvidas de que era ele. Meu coração começou a bater tão forte contra o meu peito que cheguei a pensar que ele rasgaria o tecido do meu vestido de noiva. O que o meu noivo estava fazendo trancado naquele camarim, minutos antes do nosso casamento, fazendo aquele tipo de barulho com outra pessoa?
Meus pés pareceram congelar no chão de mármore frio. Eu queria dar meia-volta, queria correr para longe dali e fingir que nunca tinha ouvido nada, mas a minha mente inocente simplesmente não conseguia processar a realidade. Uma parte de mim, aquela Milena boba e pura que sempre acreditava no melhor das pessoas, tentava inventar uma desculpa desesperada. Talvez ele estivesse passando mal? Talvez alguém estivesse machucado? Mas os gemidos continuaram, misturados com uma risada feminina baixa e provocante que eu também reconheceria em qualquer lugar do mundo. Era a voz da Valéria, minha prima. Minha melhor amiga de infância. A pessoa com quem eu compartilhei todos os meus segredos e que estava usando um vestido de madrinha que eu mesma ajudei a escolher.
O ar sumiu dos meus pulmões. O celular na minha mão parecia pesar uma tonelada. Cada pedaço da bondade que existia dentro de mim começou a quebrar como vidro fino. Eu precisava ver com os meus próprios olhos.
Precisava acabar com aquela agonia que estava me sufocando. Dei um passo trêmulo à frente, depois outro, até que meus dedos trêmulos tocaram a superfície fria da fechadura de metal da porta.
Com as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurar o trinco, eu empurrei a porta de madeira de uma vez só, sem fazer barulho, revelando toda a verdade cruel que mudaria a minha vida para sempre.
O meu mundo desabou por completo. Bem ali, no meio do camarim iluminado por uma luz amarelada, Pedro Henrique estava de costas para mim, com a calça do terno abaixada até os joelhos, movendo-se com urgência em cima do sofá nupcial de veludo vermelho.
E agarrada ao pescoço dele, com as pernas jogadas para o alto e o vestido de madrinha erguido até a cintura, estava Valéria. Minha prima mantinha os olhos fechados, arranhando as costas do meu noivo e soltando gemidos altos de puro prazer, sem notar a minha presença na porta.
O choque foi tão brutal que o celular escorregou dos meus dedos, caindo no tapete felpudo sem fazer nenhum ruído, enquanto eu assistia, paralisada e com as lágrimas queimando o meu rosto, ao homem que eu achei que era o meu príncipe encantado se entregar ao pecado mais sujo com a minha própria família.







