Garota da praia

Caleb

                Tudo começou quando eu era um garoto de dezessete anos no final do ensino médio. Tudo que eu e meus amigos pensávamos era no fim da escola – que estava quase chegando – e em como iríamos tirar umas férias juntos antes da vida de adulto começar. Planejávamos fazer essa viagem desde os quinze anos.

                Eu costumava ficar entediado com frequência. As aulas pareciam incrivelmente longas e idiotas. Para mim tudo aquilo já tinha dado o que tinha que dar, era hora de sair da escola e nunca mais pisar ali – graças a Deus. As tardes sempre pareciam sem graça também, sem muitas coisas para fazer.

                Tenho que dizer que eu era um adolescente terrivelmente comum e sem graça. Não tinha grandes ambições e não ligava muito para estudar, meu foco era apenas a viagem sem rumo com meus amigos. Eu tinha necessidade de ser livre.

                Um dia tive uma briga colossal com meu pai sobre essa viagem. Ele não estava muito feliz em me ver sair de carro sem rumo com meus amigos – que ele considerava pessoas sem futuro – e queria me fazer desistir da ideia a força. Eu me lembro de bater à porta da casa e sair andando pela rua, irritado, me sentindo incompreendido e injustiçado. 

                Cheguei à praia quando o sol já estava descendo e me sentei sozinho de frente para o mar com o vento batendo gelado contra meu rosto. Não havia mais ninguém ali, como eu havia imaginado e aos poucos fui sentindo a irritação diminuindo, sendo substituída pela sensação de impotência. Se meu pai continuasse sendo contra a minha viagem, eu acabaria não conseguindo fazer, já que ficaria sem meios para isso.

                Foi assim, abraçando meus joelhos e com o queixo apoiado neles, que a vi pela primeira vez. Ela andava bem próximo do mar, com a água tocando seus pés descalços, usando um moletom preto que deslizava por sua pele, deixando um dos ombros `a mostra, e os cabelos loiros soltos voando em volta do rosto. Eu estava um pouco longe, mas a achei incrivelmente linda.

                Me levantei e bati as mãos tentando tirar a areia do meu corpo, depois comecei a andar em sua direção. Eu não era um grande paquerador, tinha até tido alguns namoricos na escola em meio aos grandes foras que tinha levado, mas possuía uma certa dose de confiança que me permitia andar até ela porque tinha me interessado.

                - Oi. – falei me aproximando pelo seu lado. Ela deu um pulo para longe de mim com um pequeno grito. – Desculpa! – exclamei. Tinha começado super bem! – Não quis assustar você.

                - Garoto, você quer me matar! – ela colocou a mão no peito. Assim de perto eu podia observar que seus olhos eram castanhos muito escuros cercados por espessos cílios.

                - Com certeza, não. – sorri tentando parecer mais amigável – Meu nome é Caleb. – estendi a mão para ela.

                - Sou Mia. – ela pegou minha mão sem hesitar. Notei como a dela era pequena e delicada na minha.

                - Parece que somos as únicas duas pessoas aqui. – comentei enquanto ela recomeçava a andar.

                - Normalmente sou só eu. – sua voz era suave.

                - Gosta da praia?

                - Bastante. – ela balançou a cabeça – E vazia é melhor ainda. E você? – ela me olhou de relance.

                - Claro. – concordei. Eu não gostava de praia, só quando estava irritado. No entanto estava ali, enchendo o tênis de areia.

                - Não lembro de você na escola. – comentei casualmente – Se tivesse te visto, com certeza lembraria.

                - É porque eu não estou mais na escola. – ela não pareceu notar a minha tentativa de flertar com ela.

                - Já se formou?

                - Ano passado. – confirmou enquanto pegava um lacinho do bolso e prendia o cabelo num rabo bagunçado.

                - O que faz agora da vida? – eu estava quase parecendo meu pai perguntando.

                - Estudo letras na faculdade daqui mesmo. – ela parou de andar outra vez – Você se forma esse ano?

                - É. – confirmo dando um passo mais perto.

                - Hey! – escuto uma voz de homem e me viro para olhar – Mia, esse cara está te incomodando? – um rapaz de barba e olhar irritado vinha andando até nós dois.

                - Irmão? – questionei.

                - Namorado. – ela me corrigiu e me senti desanimado. Esse cara devia ter uns vinte anos.

                - E aí? – ele se aproximou tentando me intimidar.

                - Não é nada, Denis. – ela se afastou de mim, andando diretamente para ele – É um garoto da escola. – por algum motivo me senti diminuído pelo seu comentário.

                Ela o segurou pelo braço e começaram a andar juntos até a rua. Fiquei ali parado observando, um pouco irritado por ele ter aparecido antes que pudéssemos ter conversando mais. Ela se voltou para me olhar e acenou com a mão, com um sorriso que me parecia pedir desculpas por aquilo.

                Por algum motivo, Mia ficou martelando na minha cabeça nos dias seguintes. Se a escola já estava desinteressante antes, agora estava quase impossível me concentrar em aprender alguma coisa – não que eu fizesse muito esforço para isso antes.

                Três dias depois resolvi voltar até a praia para procurar por Mia. Eu havia entendido que ela sempre ia até a praia ao anoitecer, mas não a encontrei, e quando o sol sumiu totalmente, voltei para casa arrasado. Insisti nos dois próximos dias sem sucesso, mas no terceiro a avistei andando na ponta mais afastada da praia e segui direto até lá.

                - Pensei que nunca mais ia te ver. – comentei me aproximando. Dessa vez ela estava sentada numa pedra com um caderno aberto nas mãos.

                - Você gosta de me assustar! – ela exclamou fechando o caderno.

                - Desculpa. – eu ri.

                - Olha. – ela apoiou o caderno nas pernas – Me desculpa por aquele dia. Denis é um pouco ciumento.

                - Foi por isso que você não estava vindo até aqui? – me aproximei e sentei na pedra ao seu lado.

                - Foi. – ela confirmou balançando a cabeça – Ele ficou cismando que você estava me paquerando.

                - E se eu estivesse? – falei sério, olhando em seus olhos. Ela ficou sem saber o que dizer, com a boca levemente aberta. – Está estudando? – perguntei quebrando o clima tenso que parecia querer estar se formando entre nós.

                - Isso. – ela olhou para o caderno – Tenho uma prova amanhã.

                - Denis vai aparecer de novo? – perguntei.

                - Não, não. – ela desceu da pedra – Vou embora sozinha hoje.

                - Posso acompanhar você? – desci da pedra também.

                Mia hesitou por um instante provavelmente ponderando o que o namorado acharia de outro cara ficar andando com a sua garota por aí.

                - Vamos. – acabou cedendo com um aceno de mão para que eu a acompanhasse.

                Fomos andando lado a lado em silêncio. Apesar de ela ser mais velha do que eu, era bem mais baixa e pequena. Eu sentia vontade de abraçá-la, mas não tentei isso em nenhum momento. Apenas me mantive ao seu lado, com uma distância de respeito, até que chegássemos a uma casa com muro baixo.

                - É aqui. – ela disse parando ao lado do portão de grade – Obrigada pela companhia.

                - Quando quiser. – sorri para ela. Esperava ter sua companhia muito mais vezes, mas imaginava que o tal namorado ia me atrapalhar muito nisso.

                - Tchau, Caleb. – ela me deu as costas e entrou.

                - Tchau. – respondi, esperando ela sumir na porta de entrada da casa antes de dar a volta e começar a ir embora.

                No dia seguinte, no mesmo horário, voltei até a praia ansioso para encontrá-la, mas quando varri o lugar com os olhos, não a avistei novamente. Fiquei desapontado no mesmo instante. Será que eu a veria apenas uma vez a cada semana? Dessa vez não tinha como o tal Denis ter descoberto que eu tinha falado com ela, então ele não devia estar atrapalhando.

                - Olha quem está por aqui. – me virei e a avistei se aproximando – Não sei porque, mas sabia que você iria aparecer.

                - Isso é bom? – lancei meu melhor sorriso para ela.

                Mia apenas riu e começou a andar para a parte mais afastada da praia, o mesmo lugar onde a encontrei no fim de tarde anterior. Suas mãos estavam dentro dos bolsos do moletom, os cabelos presos numa trança e...

                - Para de me encarar, garoto. – ela riu, quebrando meu raciocínio.

                - É que você é muito linda, Mia. – retruquei.

                - Para com isso. – ela se encostou na mesma pedra de ontem.

                - Faz tempo que você namora? – mudei de estratégia. Talvez saber mais sobre o namorado me desse alguma vantagem.

                - Três anos. – ela respondeu olhando o mar.

                - Nossa. – eu não esperava que fosse tanto tempo assim. Realmente era sério então. – Ele tem quantos anos?

                - Vinte e quatro. – ferrou. O cara já devia ser até formado na faculdade.

                - Como se conheceram?

                - Ele é amigo do meu irmão. – ela sentou na pedra usando as mãos como apoio – Denis sempre esteve ali, sabe? Em casa, nas festas de aniversário e finais de semana. Ele sempre...

                - Cercou você? – sugeri.

                - Não parece muito romântico quando você diz assim. – ela franziu a testa para mim. Dei risada para descontrair, mas achei estranho um garoto ficar cercando a irmã do amigo desse jeito, como se não quisesse que ela nem chegasse a conhecer outra pessoa para ter opção de escolha. Ele parecia ter condicionado ela a namorá-lo. – E você?

                - Eu nunca namorei. – me aproximei da pedra, ficando de frente para ela. Seus olhos pareciam me estudar atentamente. – Nunca quis. – esclareci e ela sorriu balançando a cabeça como se entendesse. – Posso me aproximar? – perguntei antes de dar dois passos em sua direção.

                Ela me olhou de baixo para cima, e eu senti muita vontade de segurar seu rosto com as mãos e beijá-la por um longo tempo.

                - Caleb... – ela disse meu nome em tom amistoso, mas como um alerta. Como se quisesse me dizer para não avançar nenhum sinal. Mesmo assim eu me aproximei mais um pouco e minhas pernas encostam nas suas. Ela não se afastou, mas ficou tensa no mesmo instante.

                - Ei. – toquei seu braço para tranquilizá-la – Não vou... – mas ela puxou o braço com um gemido. – O que foi? – franzi a testa, confuso, meu toque foi suave e jamais poderia ter causado dor.

                - Nada. – ela cruzou os braços como um escudo, mas a negativa não me convenceu.

                - Mia. – insisti puxando a manga do seu moletom para cima, com facilidade, até o cotovelo. E ali estavam, marcas de dedos ao redor do seu pulso. – Mia! – exclamei abalado – Foi o Denis que fez isso?

                - Para com isso, Caleb. – ela abaixou a manga e desceu da pedra rapidamente – Vou embora agora. – sua voz foi fria – Sozinha. – acrescentou e me deu as costas.

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