Era extremamente doloroso.
Com as lembranças e a realidade se entrelaçando, Sofia sentia que viver era pior do que morrer.
Seu corpo reagiu por puro instinto e ela se debateu desesperadamente, tentando escapar. Mas as amarras estavam apertadas ao máximo. Quanto mais ela resistia, mais elas se enterravam em sua pele, logo deixando marcas entrecruzadas por todo o corpo, enquanto o sangue escorria pelas laterais da cadeira de eletroterapia.
Várias pessoas a seguraram ao mesmo tempo, obrigando-a a permanecer completamente imóvel.
A corrente elétrica se transformou em uma lança de aço que atravessou seu corpo da cabeça aos pés em um instante.
Sofia mordeu o lábio com força para suportar a dor, até a boca se encher do gosto metálico de sangue.
— Ah! Ah!
Durante um dia e uma noite, seus gritos foram ficando cada vez mais fracos, até restar apenas suspiros.
Depois que desmaiava com os choques, jogavam água fria sobre ela para fazê-la despertar e, então, voltavam a aplicar a descarga elétrica.
A tortura repetiu-se inúmeras vezes, até que a sala de eletroterapia se transformasse em um mar de sangue. Só então Sofia foi finalmente jogada de volta ao quarto do pai.
O celular foi arremessado contra seu rosto, e a dor intensa a fez recuperar a consciência.
Ela levantou a cabeça com dificuldade e viu que o pai, deitado na cama, havia voltado ao estado habitual. Todos os aparelhos haviam sido reconectados e, só então, conseguiu respirar aliviada.
Nesse momento, seu celular tocou com uma mensagem de Taís.
Era a foto do diário já amarelado pelo tempo.
Era o diário de Sofia!
As mensagens diziam:
[Alexandre quase queimou isso e jogou no lixo. Eu fui boazinha e guardei para você]
[Então o seu maior sonho era viajar para ver a aurora boreal com Alexandre? Que coincidência. Adivinha onde estamos agora?]
Em seguida, dezenas de fotos chegaram de uma vez. Em todas elas, Alexandre e Taís apareciam abraçados sob a aurora, em momentos de intimidade.
Ele havia chegado ao ponto de comprar um asteroide e batizá-lo com a junção dos nomes dos dois: "Alexís".
Alexandre era apaixonado por Taís.
Aquele era um sonho que Sofia havia registrado, com tanto esmero, em seu diário. Sonhava em contemplar a aurora boreal ao lado da pessoa que mais amava. Sonhava em dar os nomes dos dois a um asteroide.
Agora, tudo aquilo pertencia a Taís.
Sofia apagou a tela do celular e concentrou-se em cuidar do pai.
Durante a viagem de Alexandre, ela entrou em contato com uma clínica de repouso no exterior e assinou um acordo de transferência à distância.
Enquanto isso, as mensagens exibicionistas enviadas por Taís nunca pararam.
Depois de deixarem o Polo Norte, os dois foram a outras conhecidas maravilhas do mundo.
Todos os sonhos registrados no diário haviam se realizado, com precisão, para Taís.
E, cada vez que eles chegavam a um novo lugar, Sofia queimava uma parte das lembranças que pertenciam a ela e a Alexandre.
No dia em que recebeu o acordo de divórcio, ela queimou a última pilha de fotografias dos dois. As chamas ardiam intensamente diante dela quando, de repente, uma voz furiosa soou atrás dela:
— O que você está fazendo?! — Alexandre entrou furioso e, sem aviso, chutou o abdômen dela. — Finalmente não consegue mais fingir, não é?! Sem dinheiro para ganhar, até essas coisas começaram a te incomodar?!
Sofia foi arremessada para longe. Suas costas bateram com força contra uma coluna de mármore do corredor, fazendo seu peito estremecer violentamente. Um jorro de sangue escapou de sua boca, deixando seus lábios e dentes tingidos de vermelho.
— Você não tem medo de a Taís se incomodar ao ver essas coisas aqui? — Sua voz estava incomumente calma.
Depois de dizer isso, esforçou-se para se levantar e, cambaleando, virou-se para sair.
Alexandre ficou olhando para ela por um longo tempo, perplexo. Foi então que percebeu, de repente, o quanto ela havia emagrecido. As roupas largas pendiam sobre seu corpo e balançavam a cada movimento, como se ela pudesse se despedaçar ao menor toque. Seu coração se contraiu de repente, e uma inexplicável sensação de pânico tomou conta dele.
— Sofia! Eu desisti, está bem? Pare de fazer isso... — Alexandre correu atrás dela, puxando-a para seus braços e envolvendo-a firmemente pela cintura.
Aquela rara demonstração de afeto fez o corpo de Sofia enrijecer por completo e seu coração começou a bater forte.
No entanto, no instante seguinte, o toque do telefone interrompeu o que ele ainda iria dizer.
— Alexandre, alguém está me seguindo. Estou com muito medo. Por favor, venha me salvar... — A voz aflita de Taís soou do outro lado da linha.
O rosto de Alexandre mudou drasticamente. Sem hesitar, ele soltou Sofia e virou-se para ir embora.
— Tata, não tenha medo. Estou indo agora!
Quando o quintal voltou a ficar completamente vazio, Sofia continuou parada, imóvel.
Seu corpo ainda estava quente, mas seu coração havia se transformado em gelo.
Depois de um longo tempo, ela soltou uma risada e levantou a mão, dando um tapa forte no próprio rosto.
O estalo seco ecoou pelo quintal.
— Sofia, você realmente merece isso. Como foi que quase amoleceu o coração de novo?
Não importava mais, de qualquer forma, faltavam apenas dois dias para ela e seu pai partirem definitivamente, para sempre.
Como de costume, Sofia foi para a cama.
No entanto, assim que estava quase dormindo, foi acordada de repente. Em seguida, uma xícara de café com cubos de gelo foi despejada sobre seu rosto, causando uma ardência em seus olhos.
— Sofia, você teve coragem de mandar sequestrarem a Taís? Esqueceu o que eu disse da última vez?! — A voz cruel de Alexandre soou, tão fria quanto o café que escorria por seu rosto.