AURA O DOMINADOR DO OUTRO LADO DA TELA
AURA O DOMINADOR DO OUTRO LADO DA TELA
Por: Coruja literária
Um aplicativo caliente 01

Se o inferno fosse decorado por um designer de interiores minimalista e tivesse cheiro de perfume importado, ele seria a Vértice Concept.

Sério, o lugar é um hospício de luxo.

Tem modelo chorando porque o café não é descafeinado, produtor gritando no telefone com Paris e o barulho de click, click, click das câmeras que nunca para.

E no meio desse furacão de gente linda e magra, estou eu: Elisa, 22 anos, mestre em:

"fazer milagre com pouco orçamento" e a auxiliar oficial de tudo o que ninguém quer carregar.

Eu trabalho bem ali, na "zona de guerra", colada na sala da diretoria. É o meu cantinho.

Eu sei exatamente como o Nikos gosta do espresso dele: curto, sem açúcar e na temperatura que derrete o juízo de qualquer um.

— Elisa! Cadê o meu combustível?

A voz dele ecoou pelo corredor, vibrante, cheia de uma energia que parece que o cara nunca dorme.

Lá vem ele. Nikos Santorini.

O dono do circo todo.

Ele é aquele tipo de homem que entra na sala e o oxigênio parece que decide ir todo para o pulmão dele.

Extrovertido, galanteador e perigosamente educado. Ele dá bom dia até para as plantas, e as plantas provavelmente florescem só de vergonha.

— Aqui, Nikos. Curto, forte e perigoso, do jeito que você pediu.

brinquei, entregando a xícara enquanto tentava ignorar o modo como ele me olhou, um "obrigado" rápido antes de ser engolido por três modelos da agência Elite que pareciam querer devorar ele vivo.

Ele é cobiçado, né? Óbvio. Eu sou só a Elisa que traz o café. A "plus size" que elas fingem que é parte do cenário, tipo um vaso de planta que ninguém lembra de regar.

— Ei, Lis! Trouxe algo para a minha assistente favorita.

Uma mão pousou no meu ombro.

Era o Domenico.

Se o Nikos é o sol, o Domenico é a lua cheia: calmo, fotógrafo incrível e o único homem nesse prédio que realmente me enxerga.

Ele tirou um bombom de avelã do bolso do colete e me deu uma piscadinha.

Meu coração deu aquele pulinho idiota. Será? Não, Elisa, foca.

Mas o clima hoje estava estranho.

No meio da correria, o assunto não era a campanha da Vogue.

Era o tal do AURA.

— Amiga, você não entende!

ouvi uma das modelos dizer, rindo enquanto olhava o celular.

— O cara é um gato nas palavras, mas o app não deixa ver a cara. Imagina se eu dou match com um feio? Credo!

— Mas o mistério é que é o tchan, né?

a outra respondeu.

— Até o Nikos e quase todos os homens desse prédio, dizem que baixou. Tá viral, e eu até achei legal, muda até nossa voz.

O Nikos? O cara que tem o catálogo da Victoria's Secret na palma da mão, procurando alguém no anonimato?

Aquilo acendeu uma luzinha na minha cabeça. Se o Nikos estava lá... se todo mundo estava lá... talvez eu pudesse ser alguém além da "menina do café".

Quando o estúdio entrou naquela pausa frenética para o almoço, eu me enfiei num canto do estoque de lentes. Coração batendo na garganta, baixei o ícone roxo neon.

“Bem-vinda ao Aura. Aqui, a aparência é o que menos importa. Quem é você de verdade?”

Respirei fundo.

Eu não ia colocar que era a auxiliar humilhada da Vila Olímpia. Eu ia ser fogo puro.

Nome de usuário: Pimentinha. 🌶️

...

O relógio marcava 23:45. O silêncio do meu quarto no Jabaquara era o oposto do barulho ensandecido da Vértice Concept.

Estava deitada, com a luz do abajur baixa, o celular pesando na mão e o fone de ouvido enterrado nos ouvidos.

Eu tinha configurado meu avatar sonoro como "Voz Velvet". No app AURA, eu não era a Elisa que pedia desculpas por ocupar espaço. Eu era a Pimentinha.

De repente, a tela brilhou.

Um ícone de um lobo estilizado pulsava em roxo neon.

[LOBO quer iniciar uma conexão por voz. Aceitar?]

Meu coração quase saltou pela boca. Apertei o "Sim" com o dedo trêmulo.

— Olá, Pimentinha...

A voz que veio pelo fone era profunda, vibrante, mas processada pelo app. Parecia um veludo eletrônico.

— Achei que você ia me deixar no vácuo.

Eu soltei um risinho, e o app transformou meu riso em algo cristalino e misterioso.

— Eu estava decidindo se você era perigoso demais para uma terça-feira à noite, Lobo.

— Eu sou inofensivo...

ele mentiu, e eu pude sentir o sorriso dele através da distorção digital.

— Só estou cansado de gente que só fala de aparências. Queria ouvir alguém que... que parecesse real.

— Então... Você achou a pessoa certa.

Lógico... Uma plus que mal olhavam naquela empresa enorme, cheia de mulheres fúteis, que usam a aparência como maior arma, é claro... Perfeita para falar de algo mais real que eu impossível.

A conversa fluiu com uma facilidade que me assustou.

Começamos falando sobre a nova música do The Weeknd, e ele riu quando eu disse que o café era a única coisa que impedia o mundo de entrar em colapso completo.

Nós compartilhamos o desdém por conversas vazias e pessoas superficiais.

Eu estava começando a me sentir... confortável. Poderosa. Pela primeira vez na vida, eu estava sendo desejada pelo que eu era, não pelo meu manequim.

De repente, a pergunta dele me pegou de surpresa.

— Me diz uma coisa, Pimentinha... você já conheceu alguém desse app na vida real? Já falou com outra pessoa por aqui?

A voz dele estava mais baixa, íntima.

— Tipo... um match que saiu da tela e virou um rosto?

Prendi a respiração.

A regra do app era clara: o anonimato é sagrado até que ambos decidam o contrário. Entrar no jogo de gato e rato a procura do seu parceiro.

— Não...

respondi, minha "Voz Velvet" soando mais sincera do que eu gostaria.

— Eu entrei recente. Você... você é o primeiro com quem eu aceito falar por voz.

Do outro lado, ouvi um som que parecia um sorriso distorcido.

— Percebi... Suas conversas são diferentes.

Como assim diferentes? O que ele quis dizer com isso?

— Diferentes?

Esperei ansiosa pela resposta.

— Não faz ideia do que as pessoas fazem por aqui não é? Eu... garanto, não falam de café ou músicas.

Corei ao entender. Então ... Elas falavam de sexo é isso?

— Ok... Entendi.

Ele rir me causando uma queimação no meio das pernas. Era rouca, gostosa.

Será que a voz dele é assim na vida real?

— Mas ser seu primeiro aqui é ótimo, Pimentinha. É realmente ótimo.

Ele fez uma pausa proposital, carregada de intenção.

— Eu também não falei com muitas aqui.

Soltei um risinho curto, cheio de um sarcasmo que eu nunca teria coragem de usar no estúdio.

— Ah, sim, eu imagino, Lobo. É claro que você só fala comigo. Um lobo solitário, totalmente focado em mim.

Ele soltou uma gargalhada distorcida pelo filtro, um som que vibrou nos meus ouvidos.

— Você não acredita?

ele perguntou, se divertindo com o meu ceticismo.

— Meio difícil. Tendo que na minha localização, os homens ao meu redor nenhum falaria só com uma mulher.

Respondi revirando os olhos no escuro.

— Com uma voz dessa? Você deve ter uma alcateia de "Pimentinhas" no seu chat.

— Pimenta, só você. Já vi algumas amoras, moranguinho, gatinha, pantera Mas... eu gostei de você.

ele sussurrou, e a palavra "gostei" soou perigosa e deliciosa.

— Achei o seu papo... autêntico. Podemos ficar conversando? Só eu e você? Me diz, Pimentinha... do que você gosta? O que te faz sentir viva?

Meu coração estava a mil. Eu queria contar para ele sobre o meu amor por fotografia, sobre a Vértice, sobre como eu odiava as modelos... Mas eu não podia.

A conexão estava tão forte, a intimidade estava tão real, que eu quase esqueci as regras.

A impulsividade me dominou.

— Sabe, Lobo... meu nome de verdade é El...

SILÊNCIO.

A chamada ficou muda por três segundos. Um alerta saltou na tela em letras vermelhas:

[CUIDADO! TENTATIVA DE REVELAÇÃO DETECTADA. CONTA SOB OBSERVAÇÃO.]

A tensão no quarto era palpável.

Eu quase arruinei tudo.

Do outro lado, ouvi o Lobo soltar uma gargalhada distorcida pelo filtro.

— Quase, Pimentinha! O Aura é um vigilante ciumento. Ele não quer que a gente se estrague com nomes. Por que a pressa? Eu já sinto que te conheço mais do que as outras mulheres que já falei.

Senti meu rosto queimar de vergonha.

— Me diz... Quer provar um pouco do que esse APP é capaz de fazer com você através de mim?!

....

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