Capítulo 02

༺ Dafne Aslan ༻

O barulho dos meus próprios passos apressados ecoava como batidas de tambor dentro do meu peito. Eu não tinha tempo para chorar, nem para processar o peso das palavras cruéis que meu pai acabara de cuspir na minha cara.

“Você não é minha filha.”

Essa frase, que deveria ter me destruído, agora funcionava como o combustível que eu precisava para queimar todas as pontes que me ligavam a essa casa.

Entrei no meu quarto que, na verdade, não passava de um quartinho pequeno e isolado nos fundos da propriedade, quase como um depósito que a minha tia fizera questão de me destinar para me manter longe dos olhos das visita e bati a porta em silêncio.

Meus olhos varreram o espaço diminuto. Eu precisava ser rápida. A qualquer momento, o motor do carro do senhor Vicente cruzaria a entrada da fazenda, trazendo esse velho nojento e os capangas do meu pai para selar o meu destino em um contrato de sangue e ganância.

Puxei uma mochila de lona gasta debaixo da cama e comecei a jogar lá dentro o mínimo necessário: duas trocas de roupas simples, uma muda de casaco para o frio da noite e o único dinheiro que guardei. Eram algumas poucas notas amassadas, fruto de pequenos trabalhos ocultos que eu conseguia fazer longe da vigilância da minha tia.

Um valor ridículo que mal daria para pagar uma passagem de ônibus para longe dali. Mas era tudo o que eu possuía. Aquilo, e a minha dignidade.

Ajustei as alças da mochila nos ombros, sentindo o peso da incerteza esmagar minhas costas. Olhei para a porta de madeira.

Sair por ali era um suicídio; meu pai ou minha tia me interceptariam no corredor antes mesmo que eu pudesse alcançar a sala. Minha única opção era a janela baixa que dava para a lateral dos jardins traseiros, uma área sombreada pela vegetação densa que crescia junto às paredes de pedra antiga do casarão.

Abri a tranca de ferro com cuidado, tentando não fazer nenhum ruído. Coloquei as pernas para fora, respirei fundo e pulei. Meus pés atingiram a grama úmida com um baque surdo. Agachei-me instantaneamente, o coração na boca, olhando para os lados. A noite já havia engolido a paisagem, e o calor típico daquela região trazia um mormaço pesado, misturado com o cheiro de terra seca.

Quando me curvei para começar a correr em direção aos limites da propriedade, duas silhuetas surgiram abruptamente de trás das árvores frutíferas. Dei um passo atrás, sufocando um grito de pavor com a mão na boca, supondo serem os capangas. Mas a luz fraca da lua revelou os rostos conhecidos.

Eram Zilá e minha irmã, Sofia.

Sofia, que era mais nova que eu, segurava uma cesta de vime e olhava para mim com os olhos arregalados, sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo. Ao lado dela, Zilá, a mulher de pele beijada pelo sol e mãos calejadas pelo trabalho, mantinha uma expressão de profunda preocupação.

Zilá fora a única pessoa que me criara de verdade, a que me deu carinho, colo e amor maternal depois que a minha mãe fugiu desse inferno. Ela deu um passo à frente, seus olhos foram diretamente para a mochila em minhas costas e na minha respiração arfante.

— Dafne… — Zilá sussurrou, a voz carregada de uma urgência protetora. — O que você está fazendo, menina? Aonde você vai com essa mochila no meio da noite?

Aproximei-me delas com passos rápidos, segurando as mãos dela, sentindo o tremor dos meus próprios dedos. O desespero estava estampado no meu rosto, e eu não conseguia mais esconder a verdade.

— Vou embora, Zilá. Preciso ir antes que meu pai volte com o senhor Vicente e os capangas dele — despejei as palavras, sentindo minha garganta arranhar. — Ele acabou de me dizer no escritório… ele quer me casar com aquele velho a qualquer custo. Eu não posso ficar aqui. Se eu ficar, eles vão me acorrentar àquela cama.

Sofia soltou uma lufada de ar, seu rosto empalidecendo sob o luar. Ela deu um passo à frente, deixando a cesta de lado, o olhar chocado e genuinamente triste. Sofia não tinha a maldade da mãe, mas era submissa demais ao ambiente em que vivia.

— Sinto muito, Dafne… — Ela comentou, seus olhos se enchendo de lágrimas ao compreender a gravidade da situação. — A mamãe e o pai… eles não têm limites. Ouvi os gritos do escritório, mas não imaginei que eles iriam tão longe. Casar você com aquele homem… isso é uma monstruosidade.

— Eles não se importam comigo, Sofia. Nunca se importaram — respondi, olhando para a minha irmã com uma mistura de pena e despedida.

Zilá permaneceu em silêncio por um breve segundo, mas o fogo da indignação brilhava em seus olhos antigos. Ela olhou para trás, em direção à casa principal, como se pudesse prever a chegada da tragédia, e depois voltou-se para mim.

Sem hesitar, ela enfiou a mão no bolso do seu avental de trabalho, tateando o fundo do tecido até puxar um maço de dinheiro dobrado com cuidado. Eram as economias que ela guardava da semana de trabalho pesado.

Ela segurou minha mão e forçou o dinheiro contra a minha palma, fechando meus dedos sobre as notas.

— Vai, Dafne. Leva isso com você e vai embora, menina — falou firme, mas suas palavras embargada pela emoção, enquanto seus olhos procuravam os meus com uma intensidade avassaladora. — Aquele velho Vicente é ruim. Conheço o tipo de homem que ele é, a escuridão que carrega. Eu não vou deixar você, uma menina tão bela e cheia de vida, ter o seu futuro acabado e destruído nos braços de um homem desses. O seu pai… Deus me perdoe, mas ele um dia vai se arrepender amargamente do que está fazendo com o próprio sangue. Uma hora a verdade aparece criança…

Olhei para o dinheiro na minha mão e depois para o rosto acolhedor de Zilá. Uma lágrima solitária e quente cortou minha bochecha. O sacrifício dela era a coisa mais pura que eu já tinha recebido naquela vida.

— Zilá, eu não posso aceitar tudo isso… é o seu dinheiro — gaguejei, tentando devolver, mas ela empurrou minha mão de volta com firmeza.

— Não discuta comigo, Dafne. Use isso para salvar a sua vida. É tudo o que me importa.

Apertei as notas contra o peito, olhando profundamente nos olhos da mulher que fora minha verdadeira mãe.

— Prometo que vou te devolver cada centavo, Zilá. Juro por tudo o que é mais sagrado, eu vou voltar e te pagar — declarei, com uma determinação que surpreendeu até a mim mesma.

— Você não me deve nada, minha menina. Só me deve a certeza de que vai ser livre — ela respondeu, puxando-me para um abraço rápido, apertado e doloroso, que carregava o peso de um adeus definitivo.

Desvencilhei-me do abraço, olhei para Sofia uma última vez, vendo-a acenar com a cabeça em um apoio silencioso e sofrido, e me virei.

Não olhei para trás. Corri.

Meus pés afundaram na terra batida enquanto eu abandonava os limites do jardim e entrava no campo aberto. A propriedade do meu pai era cercada por vastas plantações e pastagens que se estendiam sob as colinas, um território que eu conhecia desde a infância, mas que agora parecia um labirinto perigoso sob a penumbra da noite.

O vento quente batia contra o meu rosto, desfazendo meus cabelos, enquanto a adrenalina limpava qualquer resquício de cansaço do meu corpo. A lua alta iluminava fracamente a vegetação rasteira, criando sombras distorcidas que pareciam me perseguir.

Tenho que alcançar a estrada principal, a rota que ligava aquela região isolada às cidades vizinhas mais modernas, onde eu poderia pegar qualquer transporte que me levasse para longe da influência do nome Aslan. Cada galho que estalava sob meus sapatos parecia o som de um capanga se aproximando, e as sombras olhos vigilantes do meu pai.

Sentia o suor escorrer pelo meu pescoço, o ar faltar nos meus pulmões, mas a imagem do senhor Vicente e o asco que eu sentia por aquela casa me davam forças para continuar correndo.

Estou cruzando os campos dourados, deixando a arquitetura antiga e opressora da fazenda para trás, avançando em direção ao completo desconhecido, impulsionada pelo único desejo que me mantinha de pé: o direito de ser dona de mim mesma.

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