Mundo ficciónIniciar sesiónAlina encarou Donatella Armani sem conseguir acreditar no que acabara de ouvir.
— A senhora perdeu o juízo.
A matriarca permaneceu serena, como se estivesse discutindo um simples acordo comercial.
— Essa costuma ser a reação de quem escuta a proposta pela primeira vez.
Alina ergueu a mão, interrompendo-a.
— Não. A minha reação é porque ontem sua família destruiu a minha vida. Hoje, a senhora manda um homem até a minha casa, usa a doença da minha avó para me atrair até aqui e agora quer que eu me case com outro Armani? Isso é algum tipo de brincadeira cruel?
— Eu nunca brinco.
— Então é pior do que eu imaginei.
Ela pegou a bolsa, decidida a ir embora.
— Espere.
Alina não parou.
— Se sair agora, sua avó continuará sem o tratamento que precisa.
A jovem fechou os olhos por um instante. Aquela mulher sabia exatamente onde machucar.
Ela se virou devagar.
— Não use minha avó contra mim.
— Não estou usando. Estou apresentando a realidade. Você é talentosa, trabalha muito, mas não conseguirá levantar aquela quantia em tão pouco tempo. E nós duas sabemos disso.
Alina sentiu a garganta secar.
Ela odiava admitir, mas era verdade.
Seu ateliê era respeitado, porém pequeno. O dinheiro que entrava mal cobria as despesas da casa e os medicamentos que dona Ester já utilizava. A cirurgia era algo completamente fora de seu alcance.
Donatella apontou para a cadeira à sua frente.
— Sente-se. Ouça tudo. Depois, se ainda quiser ir embora, eu mesma mandarei levá-la para casa.
Alina permaneceu em pé por alguns segundos, até que a imagem da avó segurando os exames voltou à sua mente.
Ela puxou a cadeira e sentou.
— Cinco minutos. Só isso.
A matriarca assentiu.
— Caetano Armani é meu neto mais velho.
— E por que eu nunca ouvi falar dele?
— Porque ele não gosta de aparecer.
Alina cruzou os braços.
— Engraçado. Namorei um Armani por sete anos e ninguém nunca mencionou que existia outro herdeiro.
Donatella desviou o olhar para a janela.
— Houve um tempo em que Caetano era o orgulho desta família. Inteligente, disciplinado, brilhante nos negócios. Assumiu a presidência do grupo muito jovem e transformou a empresa em um império ainda maior.
— E o que aconteceu?
A mulher demorou alguns segundos para responder.
— Há três anos, ele sofreu um atentado.
Alina franziu a testa.
— Um atentado?
— O carro dele perdeu os freios em uma estrada da serra. Caiu em um barranco. O motorista morreu na hora. Caetano sobreviveu, mas ficou meses entre a vida e a morte.
— Foi um acidente?
Donatella a encarou profundamente.
— Eu não acredito em acidentes.
A sinceridade daquela resposta pegou Alina de surpresa.
— A polícia investigou?
— Investigou. Não encontrou nada.
— E ele?
— Quando se recuperou, abandonou a presidência da empresa, recusou qualquer contato com a família e foi morar sozinho em uma propriedade afastada da cidade.
Alina começou a perder a paciência.
— Tudo isso é muito triste, mas ainda não explica o que eu tenho a ver com a história.
Donatella abriu a pasta sobre a mesa e retirou uma fotografia.
Empurrou-a em direção à jovem.
Alina olhou.
Era um homem de aproximadamente trinta e cinco anos. Tinha cabelos escuros, traços marcantes e um olhar sério, quase frio. Vestia um terno preto e estava diante de um prédio empresarial, cercado por fotógrafos.
Ela nunca o tinha visto.
— Esse é Caetano.
Alina devolveu a fotografia.
— Muito bem. Agora explique por que a senhora quer que eu me case com um desconhecido.
Donatella respirou fundo.
— Porque o testamento do meu marido exige que o presidente do Grupo Armani seja casado.
— E o Gael?
— Gael assumiria a presidência quando se casasse com Serena. O acordo entre as famílias já estava pronto.
Alina sentiu um gosto amargo na boca.
Então era isso.
Ela não passara de uma peça descartável para manter a imagem do herdeiro enquanto o casamento verdadeiro era preparado.
Donatella continuou:
— O problema é que Caetano decidiu voltar.
— E isso muda o quê?
— Muda tudo. Pelo estatuto da empresa e pelo testamento, ele continua sendo o herdeiro principal.
Alina entendeu aos poucos.
— A senhora quer que ele se case para assumir o grupo... e impedir que Gael herde tudo.
— Exatamente.
Ela soltou uma risada incrédula.
— Então essa família é ainda pior do que eu imaginava. Os próprios irmãos estão disputando poder.
— Não se trata apenas de poder.
— Ah, não?
— Não.
Donatella se levantou e caminhou até uma antiga estante. Pegou um porta-retrato e o colocou diante de Alina.
Na foto estavam dois meninos.
Um deles era Gael, ainda criança.
O outro só podia ser Caetano.
Os dois sorriam.
— Eles eram inseparáveis — a matriarca disse baixinho. — Até que cresceram.
— O dinheiro estragou a relação?
— As pessoas ao redor deles estragaram.
Alina não respondeu.
Donatella voltou a sentar.
— Caetano nunca quis disputar nada com o irmão. Foi ele quem insistiu para que Gael tivesse espaço dentro da empresa. Mas, depois do atentado, passou a acreditar que alguém tentou matá-lo para tirá-lo do caminho.
— E a senhora acha que foi o próprio neto?
A mulher fechou a expressão.
— Eu não quero acreditar nisso.
— Mas acredita.
Ela não respondeu.
O silêncio foi suficiente.
Alina se levantou.
— Isso é loucura. A senhora quer que eu entre no meio de uma guerra familiar porque acha que um neto tentou matar o outro?
— Quero que você aceite um casamento de conveniência por um ano. Depois desse período, vocês poderão seguir caminhos diferentes.
— E por que ele aceitaria isso?
Donatella sorriu de leve.
— Essa é a única parte do plano que ainda não resolvi.
Antes que Alina pudesse responder, a porta da biblioteca foi aberta de repente.
Augusto entrou às pressas.
— Senhora... ele chegou.
A expressão de Donatella mudou imediatamente.
— Tem certeza?
— Sim. O carro acabou de passar pelo portão principal.
A matriarca se levantou tão rápido que quase derrubou a xícara de chá.
Alina olhou para os dois sem entender.
— Quem chegou?
Ninguém respondeu.
Do lado de fora, ouviu-se o barulho de um carro parando diante da mansão.
Passos.
Lentos.
Firmes.
A governanta correu pelo corredor.
— Senhora Donatella... o senhor Caetano entrou na casa.
O coração de Alina acelerou sem motivo.
Ela nem sabia por quê.
Talvez fosse pela tensão estampada no rosto de todos.
Talvez fosse porque aquele homem, desconhecido até alguns minutos atrás, parecia ser capaz de mudar o destino de toda a família.
Donatella caminhou até a porta da biblioteca.
— Fique aqui.
— Eu não vou ficar escondida.
— Não é um pedido. É uma ordem.
Alina soltou uma risada irônica.
— A senhora já esqueceu que eu não trabalho para os Armani?
A matriarca não teve tempo de responder.
Uma voz masculina ecoou do lado de fora.
Grave.
Controlada.
— Interessante... voltei para casa depois de três anos e a primeira coisa que encontro é uma reunião secreta.
Alina virou o rosto automaticamente.
Um homem alto surgiu na entrada da biblioteca.
Vestia uma camisa branca de mangas dobradas e calças escuras. Não estava usando terno, nem gravata, como os executivos da família. Havia uma pequena cicatriz próxima à sobrancelha esquerda e outra, quase escondida, no canto do maxilar.
Os olhos dele percorreram o ambiente até encontrarem Donatella.
— Achei que a senhora não gostasse de surpresas.
Então ele percebeu que havia mais alguém na sala.
Seu olhar encontrou o de Alina.
Ela sentiu um leve desconforto. Não era um olhar invasivo, nem arrogante. Era um olhar atento, como se ele estivesse tentando entender por que uma desconhecida participava de uma conversa daquela.
Caetano arqueou uma sobrancelha.
— Não vai me apresentar sua convidada?
Donatella permaneceu imóvel.
— O nome dela é Alina Vilar.
Ele repetiu baixinho, quase para si mesmo.
— Alina Vilar...
Depois voltou a olhar para a avó.
— E o que exatamente uma desconhecida está fazendo na nossa biblioteca?
O silêncio tomou conta do ambiente.
Donatella sustentou o olhar do neto e respondeu com a mesma tranquilidade de sempre:
— Eu estava pedindo essa jovem em casamento.
Caetano permaneceu em silêncio por dois segundos.
Depois desviou os olhos para Alina, analisando-a de cima a baixo, sem qualquer delicadeza.
— Espero que a resposta dela tenha sido não.
Alina cruzou os braços, ainda atordoada com tudo aquilo.
— Curiosamente, essa foi exatamente a minha resposta.
Pela expressão séria que surgiu no rosto dele, estava claro que aquele encontro não fazia o menor sentido para nenhum dos dois.
Mas, no fundo, Donatella Armani apenas confirmou aquilo que já sabia.
O destino acabara de colocar, frente a frente, as duas pessoas que mais precisavam uma da outra... mesmo que ainda não fossem capazes de perceber.







