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***Yara Yuri***

A noite foi tão tranquila que consegui dormir cedo, só não contava que fosse dormir tanto já que acordei perto do almoço. O silêncio era tanto cheguei a pensar que não havia ninguém no apartamento da frente.

Afastei essa curiosidade da minha mente e aproveitei o silêncio para estudar, consegui adiantar a maioria dos trabalhos, mas para os considerar finalizados ainda preciso os entregar pessoalmente ao reitor do curso, pois esse procedimento não é o padrão da faculdade.

Como tudo que é bom dura pouco, silêncio e o sossego foram os primeiros a acabar, estava quase pegando no sono ali no sofá, começo a escutar a música alta novamente, esse infeliz começou com a sua festinha noturna regada com mulheres e música alta mais cedo.

— Eu te avisei — me levanto do sofá indo direto ao interfone que já no segundo toque atende — Sr Joaquim, boa noite, é a Yara do bloco 9 apartamento 302.

Boa noite, Menina Yara, tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

Estou bem, Sr Joaquim e o senhor? Bom, infelizmente aconteceu, sim, o novo vizinho está com uma festinha fora do normal e está me atrapalhando.

Minha menina… Essa festinha já me rendeu algumas reclamações, mas antes a menina não ligou reclamando?

Sim, Sr Joaquim, fui conversar com ele antes para entender e explicar as regras, afinal ele é novo e não sabia se ele já tinha conhecimento das regras e bons costumes.

Sim, a menina sempre foi muito atenciosa e sinto muito que ele não tenha aceitado as suas palavras, acionarei o síndico para ele tomar as providências.

— Obrigada Sr Joaquim, tenha uma boa noite.

Desligo o interfone e nem deu tempo de chegar ao meu quarto, escuto batidas na porta da frente, realmente Sr. Joaquim teve várias reclamações hoje, não consigo segurar a gargalhada enquanto vou até o meu quarto e logo consigo dormir tranquilamente.

No outro dia era domingo e consegui acordar cedo, pela ótima noite de sono que tive. Desço com a Chisai para a nossa caminhada que estava virando rotina, ainda acho que o meu psicólogo mora aqui no condomínio, ou então, ele tem informantes aqui, pois esse novo hábito ou qualquer outra ação minha, ele tem sempre conhecimento antes que eu comente alguma coisa.

Aproveito o sol com a Chisai ali no jardim de sempre, vejo o síndico passar todo descabelado e completamente irritado indo até o meu prédio, a minha vontade era de ir atrás saber se era algo relacionado com o meu vizinho…

— Como é? — me repreendo em voz alta no mesmo momento que a curiosidade surge — Aishhh quero distância dessa criatura e dos seus problemas.

Pego a Chisai no colo e vou fazer a caminhada no parque que nesse horário deve estar mais cheio, preciso ver pessoas para mudar esse foco da minha mente. Nunca me foquei em alguma pessoa que não seja a minha avó, sei que não tenho mais ela, mas aquele galinha não irá ocupar esse espaço na minha mente.

Perco a noção do tempo andando ali ao redor do lago, mesmo cheio de pessoas por ser domingo ainda sim a minha mente consegue ir longe aqui nesse lugar, a sensação que tenho é que sempre morei aqui perto desse lago, nunca fui uma pessoa que saísse muito, os meus maiores prazeres estavam dentro de casa e com isso não me importo com o exterior.

Mas sendo sincera, o ponto alto de ficar mais em casa é pela minha segurança e outra que não gostava de deixar a minha avó sozinha, ela sempre me pediu cautela quando estiver sozinha na rua. Ela sempre foi vaga nas informações, mas quando cresci mais comecei a pegar no ar as outras informações que não eram ditas.

— Não sabia que gostava de vir ao lago — à voz do meu psicólogo ao meu lado me fez pular de susto — Me desculpe, não queria te assustar.

— Não esperava te encontrar aqui, na verdade, não desejava encontrar ninguém — a minha resposta sai mais dura do que queria e o vejo rindo baixo enquanto nega com a cabeça.

— Já entendi que não gosta da minha companhia — respiro fundo antes de responder, não era a minha intenção, então precisava corrigir isso.

— Não é isso, apenas não esperava.

— Devo admitir que quando me informaram que estava aqui também me surpreendi — o olho no mesmo instante e o vejo olhando para o lago enquanto sorria de forma verdadeira — Não vou negar que temos pessoas vigiando você, nós dois sabemos que o seu passado foi conturbado — ameaço me levantar, mas ele me puxa para sentar novamente — Não estou aqui agora como o seu médico então posso falar os detalhes, então senta se quer respostas.

— Por isso estou morando naquele condomínio em específico? Do que sabem?

— Sim, está morando ali, pois ali temos os nossos informantes, para a sua proteção é melhor que seja onde temos acesso rápido e fácil.

— Proteção… — a minha voz era cansada, desde criança sou protegida, mas ninguém me conta o motivo.

— Você nasceu em uma família conturbada e a sua avó tem vários amigos que iram manter a promessa que fizemos a ela, mesmo após a sua morte — ele me olha sorrindo carinhosamente e acabo devolvendo o sorriso inconscientemente — O seu tio ainda está a sua procura, mesmo que aqui ele não se atreva a vir te procurar, precisa ficar atenta e não ficar sozinha — ele aponta para o redor e acabo me encolhendo um pouco, a Chisai percebe isso e sobe no meu colo me lembrando que ela está ali comigo.

— Não sei o que ele quer — era a primeira vez que estava expondo as minhas dúvidas de forma tão clara e verdadeira.

— Vingança — o seu olhar era frio na minha direção, mas logo o seu sorriso se fez presente — Ele não aceitou que a sua mãe o trocou pelo seu primo, no caso o seu pai.

— Não sabia, então ele é o meu tio de terceiro grau? — ele confirma com a cabeça, nossa nunca pensei que alguém da minha família queria me fazer algum mal, mas também não estou disposta a pagar para ver o que ele pode fazer comigo.

— Tenho noção disso, por isso informei que não estou aqui agora como o seu médico, pois como tal, estou proibido de contar esses detalhes.

— Esse cuidado todo então…

— Pela sua segurança, no começo eles te abordaram de forma errada, por isso ficou naquela clínica por um tempo — foi impossível não fazer uma careta e ele acabou tocando nas minhas costas dando leves tapinhas enquanto forçava um sorriso, ali entendi que mesmo me contando ele ainda está segurando informações.

— Foi você que me tirou daquele inferno? — me recuso a chamar aquele lugar como se fosse uma clínica, já que me forçaram a ficar lá sem realmente precisar.

— Sim, garanti que iria cuidar pessoalmente de você e estou fazendo isso — ele se levanta sorrindo e estende a mão para mim — Como está o termino do curso?

— Já finalizei a maioria das matérias, essa semana já entrego o que falta para encerrar oficialmente — não escondi o meu sorriso, afinal estava orgulhosa dos meus resultados e também muito empolgada com o futuro.

— Ótimo, pois já te indiquei para a vaga e adianto que ele ficou muito interessado.

É impossível segurar o sorriso que cresce cada vez mais no meu rosto, voltamos conversando sobre a vaga, faculdade e até mesmo que ele mora próximo ao condomínio, mas ao ponto alto da conversa foi ele me informar que poderia ligar ou contar qualquer assunto que fosse que ele iria impedir o meu retorno à clínica.

Mesmo assim ainda prefiro manter em segredo a minha suspeita de ver o meu tio me rondando naquele dia do temporal, afinal, se eles estão, por perto, devem ter visto que era ele.

Mas, ao mesmo tempo, se não falaram nada, deve ser porque pelo fato de ser apenas a minha mente me pregando uma peça por conta das grandes mudanças que está acontecendo na minha vida.

Quando me dou conta já estamos em frente ao meu condomínio, nos despedimos e mais rápido que posso volto ao meu apartamento ainda com os pensamentos gritando na minha mente.

Me lembro apenas de pedir desculpas por ter trombado em alguém, mas não consigo nem me lembrar quem quer que seja. A visão dele naquele temporal ainda tenta voltar e isso me deixa mais apavorada.

— Ei… — seguro o grito pelo susto, mas mesmo com a Chisai rosnando, ele não me soltou— O que foi? — me forço para ele me soltar, mas ele entra na minha frente novamente.

— Você não está bem, trombou em mim e ainda pediu desculpas — me mexo para voltar a andar quando percebo que ele me chamou de mal-educada.

— Não se preocupe na próxima eu não me desculpo… Não espera, eu tenho educação e sei conviver entre pessoas, então se acostume e aprenda que é assim que se vive.

— Agora, sim, você está de volta — o galinha segurava a risada e quando percebi que ele estava me irritando de propósito acabei rindo baixo — Você não parecia bem, posso te ajudar em alguma coisa?

— Por que pediria ajuda a você? Não a pergunta certa é por que você está preocupado?

— Não faço a menor ideia, mas o que precisar é só gritar — ele pisca para mim e sai andando me deixando ali parada, balanço a cabeça em negação e volto à realidade indo direto para o meu apartamento.

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