QUANDO OS OLHARES COMEÇAM A MUDAR
MARY ROSÉ
O tempo em que trabalho ao lado do senhor Vincent tem sido surpreendentemente tranquilo. Quando aceitei a vaga de assistente dele, confesso que senti medo.
—Eu era recém-formada, ainda insegura sobre muitas coisas, e ele era o homem que comandava toda aquela rede de hotéis e restaurantes com uma firmeza que impressionava qualquer um.
No entanto, trabalhar com ele tem sido uma experiência maravilhosa. Ele é exigente, mas também justo, e nunca trata ninguém com arrogância.
— Ainda assim, há algo que começo a perceber nos últimos meses… os olhares dele.
Não são olhares desagradáveis ou invasivos. Na verdade, são discretos, quase imperceptíveis para quem não presta atenção.
—Às vezes, quando levanto os olhos depois de explicar algum relatório ou apresentar uma proposta, percebo que ele está me observando com uma atenção que vai além do trabalho. Isso me deixa inquieta.
Durante o período em que trabalhei como garçonete no restaurante do hotel, aprendi a reconhecer o olhar de certos homens.
— Homens que pensam que uma mulher bonita está ali para diverti-los ou para servir de conquista passageira. Eu espero, sinceramente, que o senhor Vincent não pense assim de mim.
Mas, quanto mais observo, mais percebo que talvez eu esteja enganada.
Mesmo assim, a dúvida me acompanha como uma sombra silenciosa.
Depois do expediente, encontro Natália e Igor, como costumamos fazer sempre que nossos horários coincidem.
— Nós nos sentamos em uma pequena cafeteria próxima ao apartamento onde moro, um lugar simples, mas acolhedor, onde ninguém nos incomoda.
O aroma do café fresco se mistura ao som suave de conversas ao redor, criando um ambiente quase íntimo.
—Natália percebe logo que estou pensativa e inclina o corpo sobre a mesa, estreitando os olhos com curiosidade.
— O que foi, Mary? Você está com essa cara de quem está pensando demais.
Eu suspiro antes de responder.
— O senhor Vincent tem me olhado de um jeito diferente, Natália.
— Não sei explicar… mas é diferente.
Ela arqueia as sobrancelhas.
— Diferente como?
— Eu não sei. — apoio os dedos na xícara de café, procurando as palavras certas.
— Às vezes tenho medo de que ele queira tirar algum tipo de proveito de mim.
Você sabe como era quando eu trabalhava no restaurante… aqueles olhares, aquelas cantadas desagradáveis.
Natália balança a cabeça imediatamente.
— Não. Isso não tem nada a ver com ele.
— Como você pode ter tanta certeza?
Ela se inclina para trás na cadeira e cruza os braços com tranquilidade.
— Porque eu trabalho aqui há mais tempo que você.
O senhor Vincent nunca se envolveu com funcionários, nunca.
— Ele é um homem extremamente sério, Mary Rose. Se ele está te observando, provavelmente é porque admira o seu trabalho.
Igor, que até então estava quieto mexendo no celular, levanta os olhos e solta uma pequena risada.
— Meu Deus, Mary, é isso que está te atormentando?
Eu o encaro.
— O que você quer dizer com isso?
Ele apoia os cotovelos na mesa e me olha com expressão divertida.
— Querida, você é linda. Qualquer homem olharia para você. Até eu olho.
Natália lança um olhar atravessado.
— Igor.
Ele levanta as mãos em sinal de rendição e ri.
— Calma, calma! Eu nasci homem, é verdade, mas vocês duas sabem muito bem que eu amo vocês como irmãs.
— Mulheres jamais entrariam na minha lista de interesses.
Eu não consigo evitar um pequeno sorriso.
— Ainda bem.
— Mas se eu fosse hétero — continua ele — vocês duas seriam exatamente o tipo de mulher que eu escolheria para casar.
— Então não fique inventando coisas na sua cabeça.
Se o Vincent quisesse tirar proveito de você, teria feito isso quando você ainda era garçonete.
Ele inclina a cabeça de lado.
— Ou você esqueceu quem mandou o gerente chamar a atenção daquele cliente que te desrespeitou?
Eu paro por um instante.
— É verdade.
Natália confirma com um gesto de cabeça.
— Depois daquele incidente o gerente ficou muito mais atento. Você mesma comentou isso comigo.
Eu respiro fundo e sinto um pouco do peso sair do meu peito.
— Talvez eu esteja exagerando.
— Talvez? — Igor ergue uma sobrancelha. — Com certeza está.
A conversa segue leve depois disso, mas, mesmo tentando ignorar o assunto, os pensamentos continuam voltando para o mesmo lugar.
Para Vincent.
Os meses passam, e trabalhar ao lado dele se torna parte natural da minha rotina.
Organizamos reuniões, viagens, relatórios, negociações.
— Às vezes passamos horas discutindo estratégias para novos hotéis ou mudanças na gestão dos restaurantes.
—Ele sempre me escuta com atenção e, muitas vezes, adota exatamente as sugestões que eu apresento.
Isso me deixa feliz.
Mas também faz crescer algo que eu não sei se deveria sentir.
Admiração.
Talvez algo mais.
Numa tarde, quando o expediente finalmente termina, Vincent se aproxima da minha mesa.
— Eu estou organizando alguns documentos quando percebo a sombra dele parar diante de mim.
— Mary Rose.
Levanto os olhos.
— Sim, senhor Vincent?
Ele fica alguns segundos em silêncio, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Você aceitaria jantar comigo hoje?
Eu pisco, surpresa.
— Senhor… o jantar não está no nosso contrato de trabalho.
Ele solta uma pequena risada, baixa e sincera.
— Quem está te convidando não é o seu patrão.
Ele dá um passo mais perto e seu olhar se suaviza.
— É o Vincent. O homem.
Meu coração dispara dentro do peito.
— Você ainda não percebeu que eu estou completamente apaixonado por você, Mary Rose?
Eu fico imóvel.
— Estamos trabalhando juntos há um ano. E, durante esse tempo, eu descobri que você é exatamente a mulher que eu sempre procurei.
— Não porque você se encaixa em alguma lista de qualidades… mas porque você conquistou o meu coração.
O silêncio entre nós se torna quase palpável.
Sinto meu rosto esquentar.
— Senhor Vincent… o senhor tem certeza do que está dizendo?
Ele balança a cabeça.
— Primeiro, pare de me chamar de senhor.
Um pequeno sorriso surge em seus lábios.
— É Vincent.
Ele enfia a mão no bolso do paletó e retira uma pequena caixa de veludo.
—Quando a abre, vejo um anel delicado brilhar sob a luz do escritório.
Meu fôlego falha.
— Eu estou carregando esse anel comigo há três meses — diz ele com voz firme.
— Hoje, finalmente, tive coragem de perguntar.
Ele me encara diretamente, com uma intensidade que faz o tempo parecer suspenso.
— Mary Rose… você aceita jantar comigo? E aceita ser minha namorada?